Crônica para um pé de maracujá

 

Em minha infância havia um enorme pé de manga. Sua aparência era sisuda como a dos anciães reclusos na solidão: tronco enrugado, entranhas escuras e inacessíveis. O véu assustador, no entanto, caiu na primeira exploração. Os galhos, na verdade, eram fartos e convidativos, fáceis de subir. Lá em cima era o oposto: iluminado. Uma árvore que sabia se disfarçar, enfim. Não demorou e fizemos uma plataforma em sua copa, onde passávamos boa parte do dia. O pé de manga era perfeito. Tão perfeito que se enraizou na memória.

***

As sementes baratinhas no supermercado sugeriam a facilidade de se plantar um pé de maracujá. Bastava jogá-las no solo e, depois, orientar os galhos que subissem pelo muro. Logo, um ramo frágil despontou na terra, e foi ganhando volume. Subiu pelo arame de apoio e agarrou-se ao muro, desenvolvendo ramos e folhas, multiplicando-se, criando sombra, crescendo.

No emaranhado de galhos que se seguravam em um grande e confuso abraço, surgiu uma flor. Azul, de bordas brancas e rajadas. Logo os insetos zunzunavam em disputa pelo néctar: abelhas jataí, vespas, besouros, mariposas, mamangavas. O pé de maracujá ganhou uma fauna.

E vieram as borboletas, serpenteando no ar, driblando os olhos em voo frágil e incerto. E elas puseram ovos, que deram lagartas, que se tornaram grandes e peludas, conferindo ao pé de maracujá o caráter soturno de uma tempestade que se avista no fim da tarde.

As taturanas despencavam das folhas, resistiam aos venenos e subiam pelas paredes, com os pelos eriçados como quem diz: “Eu queimo!”.

O jeito foi cortar.

***

Uma pequena tragédia se deu. As folhas tenras e jovens murcharam primeiro, fazendo com que as lagartas se desesperassem em fuga sem rumo. Abelhas e vespas voavam sem pousar. Observavam, do alto, aquele monstro pendurado a definhar. As folhas caíram, mas as garras insistiam em manter o pé de maracujá nos arames, como um afogado tenta vencer a superfície da água. Virou um cadáver suspenso. Curvou-se, alquebrado, ao destino.

***

Eis que o velho pé de manga contempla, agora, um pequeno ramo exibindo-se acima do solo. É o pé de maracujá, que veio brotar onde a imaginação compensa a saudade, fingindo-se memória.

Uma pequena tragédia se deu. As folhas tenras e jovens murcharam primeiro, fazendo com que as lagartas se desesperassem em fuga sem rumo. Abelhas e vespas voavam sem pousar. Observavam, do alto, aquele monstro pendurado a definhar.

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