Leonard Cohen no ritmo das sílabas

Por Ranulfo Pedreiro 

É noite em Woodstock e o público atraído pelo festival é imenso. Com apenas um violão, um jovem parecido com Dustin Hoffman improvisa versos tão ao gosto dos happenings dos anos 60. A cena pode ser conferida no filme de Michael Wadleigh sobre o famoso encontro, na verdade, já um estertor do sonho hippie.

CIRCA 1970: Photo of Leonard Cohen Photo by Michael Ochs Archives/Getty Images

CIRCA 1970: Photo of Leonard Cohen Photo by Michael Ochs Archives

Era Leonard Cohen, o poeta que se tornou compositor. Com voz grave e anasalada, ele foi tateando uma melodia nas sílabas que escapavam de sua boca. A acentuação da fala foi dando o caminho, ele louvou a reunião de jovens a favor da paz sem muito brilho, mas aquela pequena participação dá uma ideia do processo de criação do compositor que chegou aos 80 anos, em 2015, em grande forma.

Sua personalidade forte e introspectiva tem caminhado rumo às coisas relevantes. Com oito décadas de estrada, Cohen não tem mais tempo ou disposição para fuleiragens. Vai no que é certo: sua percepção pode ser tanto pessimista quanto revelar uma admiração quase divina pela vida.

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Não é de se estranhar, portanto, a preferência pelo jazz, blues ou spiritual: são gêneros que traduzem a complexidade da vida, em que nada é nitidamente preto no branco. É no cinza, em que os sentimentos se misturam e se confundem, que Leonard Cohen acomoda suas letras, cantando como se falasse verdades extraídas dos confins da alma.

Popular problems, disco autoral lançado em 2015, caminha nesta fronteira entre desespero e esperança. Com o peso do tempo, sua voz, cada vez mais ressoante em um baixo raro na música pop, dá profundidade às canções pelo grave insistente. Os arranjos crus e marcantes valorizam as mais simples progressões de acordes.

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A impressão às vezes sombria é, geralmente, quebrada pelo coro feminino, um contraponto gospel à voz do autor. A poesia de Cohen, mais afeita à tradição oral, transita por labirintos que podem celebrar a beleza da vida ou entrar pelos becos escuros dos segredos indizíveis. Leonard Cohen continua fundamental.

 

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