Os mistérios da Sereia de Vidro

Um escritor fracassado convertido em inusitado investigador, uma freira cartomante, uma mulher sensual capaz de transitar entre o crime e os endinheirados. Os personagens de Sereia de vidro, novo livro de Marcelo Antinori, parecem aptos à vida dupla. Mas nem sempre a dualidade se revela de cara. Há que se esperar o decorrer das 71 páginas para que revelações revirem a trama como um bom thriller policial.

Marcelo Antinori

Marcelo Antinori

Um livro policial exige uma dose de mistério construída em cima de detalhes que serão entrelaçados no desfecho. Como é a construção de uma narrativa assim, que se complica para depois se descortinar em revelações? Como evitar os clichês dos romances policiais sem dispersar o interesse?

Marcelo Antinori – Muitos escritores utilizam o mistério como forma de manter a atenção do leitor mas, em minha opinião, quanto melhor o escritor, menos importante é o mistério dentro da história. Acompanhando o Inspetor Chen do Qiu Xiaolong eu entendi a China moderna, com Comissário Jaritos do Markaris pude compreender as transformações da sociedade grega nos últimos anos e seguindo as investigações do Montalbano do Camillieri viajo com prazer pela cultura siciliana. O mistério apenas existe para trazer a tensão que impulsiona o leitor a virar a página; a história é muito mais do que isso. No meu caso o que fiz foi desenvolver os personagens andando pela cidade. A partir daí, foi “observando” e “conversando” com eles que desenvolvi as histórias.

A coleção Sereia de Vidro pretende continuar a mesma história ou incluir histórias diferentes a cada lançamento? Quantos volumes estão planejados?

Já temos sete histórias desenvolvidas. Em cada uma delas existe um novo mistério mas em todas continuam os mesmos personagens. A segunda história, Os crimes do dançarino maluco, foi lançada em outubro. Se a aceitação continuar tão boa como foi nos primeiros meses, vamos continuar por muito tempo.

Escrever uma série exige um fôlego extra… E o primeiro volume tem personagens bem construídos, como a freira cartomante e o protagonista que, se não me engano, permanece anônimo. Como manter a qualidade desta construção em uma série? Você não teme o risco de cansar no meio do caminho?

Sei que chegará o dia do cansaço, mas sinto que ele ainda está longe. Primeiro porque os personagens vão evoluir: Luciana, a esposa do narrador, um personagem passivo na primeira história, vai trazer surpresas na segunda. E segundo porque surgirão novos personagens como Veronica, agente infiltrado da polícia, de beleza exótica e cabeça raspada, que segundo rumores também trabalha para o Comando do crime organizado. A existência destes dois mundos em Sereia de Vidro: o universo dos jardins, onde vive o narrador, e o centrão da cidade, onde vive sua amante Ana Pérsia, permite tratar de uma forma abrangente toda temática da grande metrópole, disfuncional e bipolar.

sereia de vidro

O formato – diagramação, texto curto, livro de bolso – certamente ajuda a atrair a leitura. Você espera atingir um público mais jovem?

Isso é fundamental e o maior dos desafios para mim. Dedico grande parte de meu tempo a acompanhar os blogueiros literários para entender as características deste novo universo. A proposta minha e da editora Bússola é a de fazer uma coleção para ser lida no ônibus e no metrô e para isso é fundamental chegar ao público jovem.

O texto é claro e flui facilmente. Gostaria que você falasse um pouco da sua formação como escritor. Quais autores o influenciam? Por que a literatura policial?

Impossível apontar um autor ou um grupo de autores que me influenciou. Li com carinho todos que apareceram na minha frente. Nos últimos anos tenho me dedicado a ler e aprender dos contos. Acredito que a literatura, na sociedade moderna, tem de ser mais breve e direta – por isso a Sereia de Vidro em pequenas histórias – Raymond Carver, Hemingway, Clarice Lispector e Stefan Zweig são escritores que admiro e releio muito, mas tento aprender com todos.

Há uma tendência apocalíptica de declarar a morte do livro impresso. O que você acha disso? O livro impresso vai sobreviver à internet?

Com o tempo o livro digital terá maior importância e o livro impresso terá sua circulação restrita (ainda que jamais desapareça). Isto é uma tendência inquestionável, mas o momento, a intensidade e a forma como isso vai ocorrer ninguém ainda sabe.

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Contos que valem a pena, blog de literatura de Marcelo Antinori.

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