Uakti e os sons da natureza

Por Ranulfo Pedreiro (entrevista realizada em 2009)

Lá na Amazônia, às margens do rio Tiquiê, vivia entre os índios Tucanos um ser encantado: Uakti. Seu corpo era cheio de furos que emanavam sons embriagadores quando o vento soprava. E, por isso, Uakti atraiu o ciúme do homem, que terminou por assassiná-lo. Do túmulo de Uakti nasceram palmeiras, que os índios aproveitaram para fazer instrumentos musicais e imitar os sons do falecido.

A lenda diz muito sobre o grupo mineiro Uakti. Formado em 1978, o quarteto ganhou reconhecimento internacional por tocar instrumentos manufaturados, feitos por Marco Antônio Guimarães – ex-aluno de um mestre da música brasileira: o suíço/baiano Walter Smetak.

Por mais que utilize materiais como PVC, o Uakti soa como a natureza. Seus discos têm fluxos como os rios, as melodias dão voltas em ritmos que vão brotando e ocupando os espaços, crescendo em uma identidade única, desenhada pela construção dos próprios instrumentos.

Em 2009, Paulo Sérgio Santos, um dos integrantes do grupo Uakti, concedeu a seguinte entrevista:

Qual a influência de Walter Smetak para o grupo?

Paulo Sérgio Santos – Esse trabalho de construção de instrumentos é do Marco [Antônio Guimarães, diretor musical do Uakti], ele teve contato com o Smetak na década de 70 em Salvador, que influenciou tanto na construção de instrumentos quanto na criação. O Marco Antônio foi estudar na Bahia e começou a criar os próprios instrumentos, trabalhando com tubos de PVC, que é a marca do grupo. Ele voltou para Belo Horizonte e a gente se conheceu na Sinfônica de Minas Gerais. Eu e o Décio [Ramos] tocávamos percussão. O Artur [Andrés Ribeiro] tocava flauta e o Marco tocava violoncelo.

Como é trabalhar com instrumentos inéditos que ajudam a construir a identidade do grupo?

É um trabalho de descoberta, de ficar horas sobre o instrumento e ver qual a medida dele para cada música. Os instrumentos do Uakti não têm uma grande extensão. Todos têm limitações de textura. É um trabalho de ficar na oficina e a gente começa a pensar na melhor forma de tirar o som e amplificar, se o instrumento for acústico. Daí é preciso pesquisar em cada música qual o melhor timbre colocado. É um trabalho que envolve o grupo, a gente fica anos inventando técnicas para esses instrumentos, que não têm literatura. Não existe uma baqueta igual à do Grande Pã de PVC. São tubos enfileirados em escala cromática e você tem que criar um mecanismo visual para tirar o melhor do instrumento. É realmente a que a gente se dedica nesses 30 anos. No início do grupo a gente morou junto, é uma relação muito próxima que alimenta muito o processo. O Uakti é o único grupo que utiliza instrumentos manufaturados. Mas existem muitos criadores de instrumentos. Tem muito instrumento plástico, o cara chega e mostra, mas é só bonito e a função às vezes fica a desejar. O Marco une bem essas coisas, tem instrumento com mais de 30 anos. Também é um trabalho nosso, dos instrumentistas, que continuam tocando esses instrumentos.

Como surge um novo instrumento?

Alguns instrumentos foram feitos para sanar uma necessidade do grupo. Outros vêm da percussão mesmo. A marimba já existe, mas a nossa é diferente, tem vidro e madeira diferente. O Marco toca bem todos os instrumentos que ele faz. Às vezes, é um estímulo. Ele pensou na água enchendo um garrafão, e pensou em como fazer notas. Ele inventou um sistema que dá para subir e descer as notas sem aqueleglissando [passagem suave de uma nota musical para outra]. Não tem uma forma determinada para criar. Às vezes ele senta e rabisca um instrumento.

De onde vem essa inspiração na natureza, refletida inclusive no nome do grupo?

A gente tá sempre em volta da natureza, embora tubos plásticos não sejam ecologicamente corretos… Belo Horizonte é uma cidade muito tranquila, em dez ou 15 minutos você está no mato, tem essa relação com cachoeira. E a sonoridade é do cotidiano, natural.

A relação do Uakti com o compositor americano Philip Glass já é antiga, vocês fizeram o CD Águas da Amazônia (1999)…

Antes do Águas da Amazônia a gente já fazia parte do selo do Philip Glass. Ele veio a Belo Horizonte e conheceu o grupo. A gente fez quatro CDs e temos um trabalho de grande histórico com ele. O Águas da Amazônia, que virou CD, é um balé do Grupo Corpo [companhia de dança fundada em 1975 em Belo Horizonte].

Saiba mais na página oficial do Uakti.

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