Os desvelos de Andrea dos Guimarães

 

Andrea dos Guimarães por Omar Paixão

Por Ranulfo Pedreiro

A capa em preto em branco, com uma bela foto de Andrea dos Guimarães rodeadas de fios, chamou a atenção. O disco Desvelo, distribuído pela Tratore, revelou um conteúdo ainda mais intrigante. Era delicado e forte ao mesmo tempo. Canções muito conhecidas da música brasileira parecem ganhar um novo esqueleto, uma nova estrutura que, por consequência, permite outros voos melódicos. Andrea dos Guimarães conseguiu este difícil equilíbrio sem descaracterizar nenhum desses standards, que incluem obras de Tom Jobim, Tião Carreiro, Ataulfo Alves, Edu Lobo, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi e Björk, entre outros.

A receita não é simples. Foi preciso, primeiro, um mergulho introspectivo pelas referências mais profundas e emergenciais. Depois, a transformação harmônica, muitas vezes acompanhada por um contraponto belo e intuitivo ao piano. Os takes, gravados ao vivo no estúdio, guardaram o frescor dos desafios que Andrea Guimarães se impõe e, por fim, supera.

Desvelo é, portanto, um raro produto artesanal, construído lentamente a partir de um desenvolvimento pessoal. Um ponto de resistência em tempos de velocidade industrial. Ouvi-lo exige a mesma reverência, atenção e apego, para que as filigranas sejam realmente compreendidas.

Em várias conversas pelo Facebook, Andrea dos Guimarães falou sobre sua carreira e o disco solo à Máquina do Som.

Você é do interior de Minas Gerais. Como era o ambiente musical da sua infância? Havia algo que já lhe direcionava para a música?

Andrea dos Guimarães – Sim, de Tupaciguara (cidadezinha do Triângulo Mineiro). A música sempre esteve presente em minha vida. Lembro-me de quando era criança acordar cedinho com os alunos da minha mãe que chegavam para fazer aula de piano ou para praticar no piano de casa. Muitas de minhas tias por parte de mãe também estudaram música (algumas são professoras também) e, do outro lado, da família do meu pai, todos adoram cantar e cantam muito bonito. Tenho certeza que este ambiente musical, com as festas de família sempre regadas a muita música, me contagiou.

Como surgiu a paixão pelo piano?

Eu comecei a estudar piano clássico aos 7 anos de idade com minha mãe Vera Lúcia, em Tupaciguara. Nesta época, já adorava tirar de ouvido músicas que escutava em filmes, em novelas, mas o foco era mesmo o piano clássico. Todas as minhas irmãs (tenho 4) faziam isso. Era a diversão da família. Aos 15 anos, mudei-me pra Uberlândia para fazer 2º colegial, continuei estudando piano e comecei a estudar canto lírico no Conservatório Cora Pavan Caparelli. Mas foi mesmo no 2º ano de Canto Lírico da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) que comecei a ter mais contato com o universo da música popular. Nesta época, havia entrado para dar aula na UFU o prof. Sérgio Freitas, com quem iniciei os estudos de harmonia popular e contraponto, e que me incentivou a prestar música popular na Unicamp. Então, em 1997, passei no vestibular e mudei-me pra Campinas. Nesta época, os alunos de música popular podiam fazer aulas optativas. Como o instrumento que tinha prestado era o canto, optei por fazer como matéria complementar o piano popular. Foi então que conheci o pianista Arno Bebeto von Buettner, professor na época. Fiquei completamente fascinada pela forma como ele tocava e comecei a estudar intensivamente o que ele me passava. Era uma aula coletiva de “teclado para cantoras”. A ideia era fazer rearmonizações de canções. Eu gostei tanto de estudar aquilo que chegava a fazer cinco rearmonizações para cada aula (enquanto ele pedia só uma). Aí o Bebeto resolveu me dar aulas individuais. E então fiquei completamente alucinada em rearmonizar. Depois de assistir a alguns shows do Bebeto (ele improvisava contrapontos melódicos no piano com maestria e absolutamente expressivo), percebia que aquele estudo de só ficar tocando acordes parados em blocos era um tanto estático e aí resolvi arriscar compor os contrapontos também. Me apaixonei por rearmonização, contraponto, arranjo. Foi desta forma que tudo começou a fazer mais sentido. De repente, percebi que eu poderia ser uma cantora que expressasse, de forma independente de outros músicos – já que também tocava piano – o que a música e a arte representavam pra mim.

Em Desvelo você parece condensar diferentes referências essenciais para sua música. Como foi o processo de elaboração do disco, seleção de repertório e, principalmente, rearranjar temas tão marcantes?

Adiei durante muitos anos a gravação deste trabalho de piano e voz devido a três fatores pontuais: a minha dedicação ao Conversa Ribeira (trio que faço parte há 13 anos e que trabalhamos releituras de música caipira) e ao Garimpo Quarteto (grupo que integrei durante seis anos e que trabalhava a música instrumental com voz), à intensa atuação como professora de canto e às tentativas frustradas ao concorrer em editais para gravação. Por um lado, hoje reconheço que este adiamento teve suas vantagens: por exemplo, por conta do trabalho com o Conversa Ribeira tive tempo de amadurecer meu canto, experimentar outras formas de se fazer arranjo e desenvolver minha autoconfiança. Com o Garimpo Quarteto também experimentei minhas primeiras composições, tendo um contato com a música instrumental de uma forma mais próxima e voltando a estudar piano com mais afinco. E como professora, tornei-me uma observadora bem mais consciente, além de mergulhar cada vez mais na pesquisa da música popular brasileira.

Fazer um CD sozinha é um desafio gigantesco! Não há opiniões para dividir, ponderar. Tudo depende única e exclusivamente de você e exige muita dedicação. Sem dúvida, a experiência foi muito intensa, tanto emocionalmente quanto tecnicamente, porque eu me coloquei em situação de “risco” o tempo todo ao assumir a responsabilidade artístico-musical, ao fazer os arranjos e ao gravar o CD ao vivo sem sobreposição, tocando e cantando, por exemplo. É uma enorme exposição, sem máscaras, sem filtros, que exige uma postura firme. Penso que o CD Desvelo possibilitou uma outra forma das pessoas me enxergarem: de cantora passei a ser também “músico” que toca, compõe e arranja.  Também acho que este envolvimento completo foi a maneira que eu encontrei de contar minhas influências e pensamentos e de mostrar como ambos refletem na minha música. Os arranjos que faço para tocar piano e cantar conseguem expressar de uma forma mais profunda as minhas sensações e acabam sendo também uma busca pela individualidade, por minha identidade como artista e por uma maneira de integrar o canto com o instrumento.

Rearranjar temas tão conhecidos e marcantes fez parte de um processo interno de pesquisa e amadurecimento do meu trabalho ao longo dos últimos 16 anos. Comecei a escrever arranjos para cantar e tocar ao piano em 1998. Neste mesmo momento, comecei também a me aprofundar na história da música popular brasileira, a procurar as gravações originais lançadas em cada período, a conhecer os cantores que foram referência e fizeram parte de cada período da nossa música. Deparei-me com um universo gigantesco e mergulhei de cabeça nisto. Logo em seguida, também fui me envolvendo com o estudo da instrumentação e orquestração com o Prof. Maurício Florence, também da Unicamp. A partir daí comecei a arriscar arranjos para grupos de câmara.

Então as canções escolhidas para gravar no Desvelo fazem parte de épocas diferentes da minha vida musical. Por exemplo, o arranjo de Retrato em branco e preto (Chico Buarque/Tom Jobim) começou a ser escrito por influência da aula do Bebeto (professor que citei acima) em 1998 mesmo, queria aplicar um pouco de contraponto, de movimento melódico no acompanhamento; outro foi feito inicialmente para eu tocar com o Garimpo Quarteto, o de Lata d’água (Luiz Antonio/Jota Júnior), de uma maneira mais instrumental e que depois acabei adaptando para apenas voz e piano, em 2010.

Rio de lágrimas (Lourival dos Santos/Tião Carreiro/Piraci) já tinha levado como ideia para fazermos no Conversa Ribeira, mas acabamos não desenvolvendo o arranjo, então decidi fazer sozinha. Tinha algo nesta música que me chamava muito atenção, porque eu achava que aquela letra tão melancólica poderia ser cantada de outra forma, com mais tranquilidade, com mais introspecção.

Meus tempos de criança (Ataulfo Alves) faz parte da minha vida desde a infância. Ouvimos ano a ano, em todos os encontros familiares, meu pai (e agora toda a família) cantando-a. Meu pai foi a minha primeira referência de uma voz bonita, que eu admirava e me orgulhava. Quando tomei a decisão de gravar o disco solo, a primeira coisa que fiz foi convidá-lo para gravar comigo. O registro foi muito emocionante.

No arranjo de Asa Branca (Zé Dantas/Luiz Gonzaga), resolvi desconstruí-la. Fiquei imaginando como eu conseguiria trazer toda aquela força expressiva do canto e da sanfona de Luiz Gonzaga! Por outro lado, esta é uma música que já está no inconsciente de todo brasileiro. Todo mundo sabe entoar a canção. Então achei que mudar um pouco a melodia ou um acento silábico, não seria comprometedor, pois mesmo assim, as pessoas identificariam ali a preciosidade do Luiz Gonzaga. Resolvi juntar então com ela, outra canção que também abordava a seca e que contribuía para trazer o sentimento de tristeza e desamparo.

Rearranjar Björk, por exemplo, foi um desafio. Sabia que não queria cantar em inglês, porque achava que não tinha a ver com a proposta do disco. Sou completamente fascinada pelo trabalho dela e a acho uma grande artista, um gênio. Tinha que ser um arranjo que passasse uma singeleza, mas ao mesmo tempo uma intensidade. Gosto muito de entoar as canções apenas com sílabas, e aí resolvi gravá-la assim, cuidando mais da melodia, deixando a harmonia mais estática, pensando mais na sonoridade.

Um processo que utilizo para rearranjar é antes de tudo tentar tocar e cantar muitas vezes as canções da forma como elas foram concebidas. Até que elas estejam interiorizadas, com tranquilidade, dentro de mim. Não ouso mexer em uma canção se não a ouvi muito, ou se não a experimentei antes. É um processo demorado. Depois, gosto de mexer na harmonia, no andamento, pensar bastante na letra, fazer recortes, às vezes citar um trecho de uma canção, às vezes fazer uma modulação disfarçada. Para dar um exemplo, na introdução de Rio de lágrimas achei um espaço para citar um trechinho de uma canção de uma cantora francesa chamada Camille e pensei que tinha a ver com a delicadeza do arranjo ao piano.

Acho essencial para o amadurecimento do músico a ampliação de suas referências estéticas, através da curiosidade, da pesquisa e de uma escuta atenta e cuidadosa. Todas estas músicas que gravei fazem parte desta minha “eterna” busca para conhecer as muitas possibilidades sonoras que a música nos proporciona, tanto na arte brasileira quanto na mundial. Procurei canções que me sensibilizavam profundamente. É sempre muito difícil escolher repertório, ou seja, quero dizer que a gente sempre deixa compositores importantes de fora. E também é sempre muito difícil propor algo novo, porque tanta coisa já foi explorada e experimentada, e além disso, há gravações imortais e geniais. Às vezes, um novo arranjo pode não ser bem aceito pelo ouvinte. É sempre uma dúvida e um risco.

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