Antonio Adolfo, um mestre da música instrumental

Por Ranulfo Pedreiro

Imagine um compositor, um maestro, que olha para o passado e revê sua obra à luz da experiência. E daí parte para um desafio: transportar a música feita no passado, na juventude, para a atualidade, mergulhando-a no conhecimento adquirido para descobrir novos rumos. É o que Antonio Adolfo faz em Tema (com distribuição da Rob Digital), seu novo disco, com releituras da própria obra construída ao longo de cinco décadas.

É um passeio pelo próprio trabalho, acrescentando a excelência adquirida com o passar dos anos nas mais diversas atividades que envolvem a música: criação, arranjo, ensino, execução. Melodista nato, entusiasta dos ritmos brasileiros, improvisador afiado e harmonizador capaz de construir o mais confortável leito melódico, Antonio Adolfo é um músico que foi se afastando do sucesso popular ao mesmo tempo em que a palavra sucesso foi se inflando de banalidade. Hoje, o pianista é mais reconhecido no exterior e vive nos Estados Unidos.

Nascido no Rio de Janeiro, Antonio Adolfo estudou com mestres como Nádia Boulanger e Guerra Peixe. Profissionalmente, estreou no cenário efervescente de jazz e bossa nova do Beco das Garrafas, onde os trios instrumentais encontravam ampla repercussão. Como parceiro de Tibério Gaspar, compôs, entre outras, a canção Sá Marina, um dos sucessos na voz de Wilson Simonal. Participou de grupos instrumentais, emplacou canções em festivais históricos e tocou ao lado de Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Leny Andrade, Nara Leão e até Mick Jagger – segundo o Dicionário Cravo Albin de Música Brasileira.

Não foi suficiente para o inquieto Antonio Adolfo, que desde cedo traz o ímpeto de manter sua própria música ao largo das oscilações da indústria fonográfica. E foi assim que, em 1977, diante das dificuldades de lançar um vinil, o pianista fez um financiamento coletivo – tão em voga hoje – para produzir um LP completamente independente: Feito em casa. Um marco da música brasileira.

Conheça o Centro Musical Antonio Adolfo.

Tema traz Antonio Adolfo ao piano, Marcelo Martins (flauta/sax), Leo Amuedo (guitarra elétrica), Cláudio Spiewak (guitarra acústica), Jorge Helder (contrabaixo), Rafael Baratta (bateria e percussão) e Armando Marçal (percussão).

Simpático, aberto a um bom papo musical, Antonio Adolfo é um mestre da música brasileira. Por e-mail, ele conversou com a Máquina do Som.

Para quem tem uma carreira tão farta de composições, histórias e apresentações, como é olhar para trás após cinco décadas de dedicação musical? Como foi selecionar um repertório tão representativo entre centenas de composições?

Antonio Adolfo – Olhar pra trás pode ser bom, quando é pra gente se situar e buscar momentos em que predominava a espontaneidade do compositor com menos experiência e ao checar tudo isso, encontrar caminhos novos para elas, seja no arranjo, na melodia ou mesmo na concepção musical. Por outro lado, há o lado negativo de olhar pra trás sem essa consciência, principalmente quando se teve algum sucesso no passado e queira perpetuar os estilos e modalidades que um dia fizeram esse sucesso. Isso é perigoso e pode ser destrutivo artisticamente. A seleção do repertório foi mais ou menos como a primeira opção que descrevi. Trazer trechos ou músicas inteiras de algum outro momento que vivi e compus, para o som que faço hoje em dia.

O sr. é arranjador, compositor, pianista, professor, pesquisador… Existe algum aspecto do fazer musical que sua carreira não tenha abordado?

Nunca pensei nisso, creio, até mesmo porque essas atividades que exerço nasceram e brotaram naturalmente durante a minha carreira, durante a minha vida como músico profissional.

O que melhorou na música brasileira nas últimas décadas? E o que piorou? Há renovação de público?

A quantidade de músicos competentes aumentou bastante (na interpretação, composição e arranjos, por exemplo). O que pode ter causado alguma piora pode ter sido causado pelo fascínio pela tecnologia, que por sua vez também tem seu lado muito positivo. Quero dizer que muita gente cria para as máquinas e equipamentos, quando estas deveriam servir apenas para expandir as possibilidades criativas do músico. O público sempre se renova desde os primórdios. Isso é natural. O público caminha junto com o movimento da sociedade.

O disco Feito em casa é um marco da música independente no Brasil. Tanto que o original é uma raridade disputada por colecionadores. Como o sr. vê a produção e a distribuição musical hoje? A tecnologia digital facilitou o acesso à música de qualidade?

Há uma diferença enorme (pra melhor) ente os métodos de distribuição dos anos 70 e hoje em dia. A internet, sem dúvida, nesse ponto ajudou muito. Mas, cuidado!! A Internet tem facilitado demais a pirataria, o que é um ponto negativo.

O sr. tem uma forte inclinação ao improviso, chegando a lançar um disco totalmente improvisado… O improviso traz muita liberdade e também muitos riscos… Por que esse jogo atrai tanto os músicos, especialmente no jazz?

Há o improviso inspirado nas formas do Jazz, por exemplo: repete-se o mesmo ciclo rítmico /harmônico de uma música e fica-se improvisando com o mesmo andamento e forma. Muitas vezes clichês são usados. Há o improviso, como o que você citou, que é partir do nada e sair criando. E há o improviso baseado em motivos musicais, preestabelecidos mas não necessariamente tendo que seguir um ciclo, um andamento preestabelecido ou um conceito jazzístico.

O sr. conheceu o sucesso, viveu épocas efervescentes, encarou com coragem a independência produtiva. Qual conselho o sr. daria aos músicos que se iniciam na carreira?

Estudo, convívio com seu instrumento, batalha, perseverança, não tentar imitar os outros. O som que se faz tem que sair de dentro de você. Humildade, coleguismo, interação como os outros músicos etc. também são muito importantes.

Mesmo quando o sr. trabalha exclusivamente com música instrumental, os ritmos e temas brasileiros estão presentes. E parecem conquistar uma respeitabilidade cada vez maior no exterior. Como anda a carreira internacional? A música brasileira tem encontrado bons ouvintes lá fora?

Infelizmente tenho que dizer que a carreira internacional vai melhor lá fora do que aqui, principalmente pelo tipo de música que faço e toco. Os ouvintes respeitam muito o que a gente toca, adoram música brasileira (da bossa ao chorinho, baião, samba etc…)

Como o sr. avalia alguns movimentos que vêm dominando o gosto popular brasileiro, como o pagode, o axé, o sertanejo? Por que o País tem essa concentração de ritmos na mídia enquanto abriga uma diversidade infinitamente maior nas próprias raízes?

Isso é como falei mais acima: a música caminha de braços dados com a sociedade. Os interesses comerciais são uma das causas de certa banalidade…

 

O sr. é exigente consigo mesmo? Quando pensa em lançar um novo disco, por exemplo, costuma cobrar-se quanto ao padrão da obra? Compor fica mais difícil com o tempo ou torna-se uma atividade mais relaxada?

Sou bastante exigente, mas tento não atrapalhar a criação por causa de um possível excesso de exigência. Compor, para mim tem sido mais fácil hoje em dia. Talvez por uma certa experiência, estudo… Mas, talvez, compor música comercial seja difícil, até mesmo porque não é isso que tenho buscado.

 

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