Roberto Corrêa e a arte de pontear viola

Por Ranulfo Pedreiro

Quem vê ou escuta Roberto Corrêa deslizar os dedos pela viola caipira chega à conclusão de que tudo aquilo é fácil, a trama sonora saindo com naturalidade, o complexo disfarçado de simplicidade. Não se imagina, porém, a trabalheira por trás do som límpido e apurado. Além de constar entre os maiores violeiros, com uma carga teórica de amplas proporções , Roberto Corrêa é um faz tudo, daqueles que se viram graças à crença na própria arte: produz, compõe, canta, toca, conta causo, pesquisa, escreve. E não é de hoje. Essa labuta danada já dura três décadas e, pela cara do violeiro, tem sido prazerosa.

Roberto Corrêa por Ricardo Labastier

Até há poucos anos, o conhecimento que permeava o mundo da viola estava envolto nos mitos e lendas da tradição oral. Roberto Corrêa faz parte da geração que buscou os violeiros das mais remotas comunidades numa proposta quase hercúlea: sistematizar esse conhecimento e apresentá-lo didaticamente a todos os interessados.

Um dos frutos desse trabalho foi o livro A arte de pontear viola, lançado em 2000, e hoje com as edições esgotadas. Agora, porém, acaba de sair o DVD duplo A arte de pontear viola, com detalhes técnicos, teóricos, estudos, dicas, toques e dedilhados, enfim, uma gama vasta de conhecimento disponibilizado de forma prática e funcional. A obra, realizada pela Roberto Corrêa Produções Artísticas com patrocínio da Petrobras/Governo Federal, é fundamental para qualquer violeiro.

Mestre absoluto da viola, Roberto Corrêa conversou por e-mail com a Máquina do Som.

O DVD A arte de pontear viola sintetiza um conhecimento que você já vem acumulando e estruturando pedagogicamente há bastante tempo, inclusive no livro homônimo, lançado em 2000. Como é esse trabalho de sistematizar um conhecimento que, até então, pertencia à tradição oral?

Roberto Corrêa – A sistematização requer cuidado e, principalmente, respeito aos fundamentos técnicos de execução que se perpetuam no tempo – técnicas específicas dos instrumentos de cordas dedilhadas. Ao mesmo tempo, uma certa ousadia no sentido de imaginar e trazer à tona técnicas que, muito provavelmente, foram utilizadas por músicos de outras épocas e de outros lugares e que já não fazem mais parte do domínio dos violeiros (“informantes”) que eu pude conhecer. Vale lembrar que este trabalho começa na busca de minha própria formação como violeiro, há quase 40 anos. Portanto, muitas questões foram surgindo e sendo “respondidas” ao longo deste caminho. Como logo eu me tornei professor de viola caipira (Escola de Música de Brasília em 1985) comecei a sistematizar, formalizar, este conhecimento. A utilização da linguagem musical atual (partituras e tablaturas) nos estudos e exercícios, assim como os áudios, permitem que o aprendiz tenha acesso aos fundamentos técnicos do instrumento. No entanto, as imagens favorecem sobremaneira, pois não deixam dúvidas quanto à execução das técnicas. Neste sentido, o DVD resgata a magia do repasse de conhecimento pela tradição oral pois permite sua principal ferramenta, a imitação.

O DVD é detalhado no posicionamento, nas dicas, exercícios, ritmos e estudos progressivos – um conhecimento que antes permanecia envolto em mistérios e lendas e que, agora, está à mão de qualquer interessado. Se o músico estudar a sério o conteúdo, ele vai virar um bom violeiro?

Não tenho dúvida. O “como fazer” está resolvido. O que permite aos violeiros, e mesmo aos compositores, o uso destas técnicas na construção de um repertório mais amplo, enriquecido com os fundamentos técnicos característicos da viola caipira. Vale ressaltar que o DVD não é uma vídeo-aula, mas um arcabouço das técnicas fundamentais para a prática da viola caipira. Cada exercício, cada ritmo, cada estudo foi elaborado e aperfeiçoado na prática. Neste trabalho estou ensinando tudo o que eu aprendi e desenvolvi como técnica para a viola caipira.  

Você foi fundo na investigação das origens de nossa viola caipira. Hoje podemos afirmar com certeza de onde ela veio? Como foi essa busca?

Existem documentos da prática da viola de cordas dedilhadas em Portugal já no século XV. Os portugueses a trouxeram para o Brasil e aqui o instrumento serviu, assim como em Portugal, para a prática de músicas devocionais e profanas, principalmente como instrumento acompanhador. Hoje encontramos no Brasil diferentes tipos de viola, que se distinguem em detalhes na forma, afinação, contexto cultural, entre outros. A minha pesquisa é focada na viola da região caipira do Brasil, a viola caipira. Com tão poucas informações históricas sobre o uso e as características da viola no nosso país, a pesquisa de campo foi fundamental para acessar, através dos “toques” e tipos de acompanhamentos preservados nas práticas populares e na oralidade, a música que se fazia no passado.

Há todo um universo mítico em torno da viola. Qual o mito que paira sobre o instrumento que mais o impressionou?

O mito do pacto com o demônio. A possibilidade de se dominar o instrumento através de um pacto com o Tinhoso é intrigante. O mito evidencia, entre outras coisas, a importância da música na vida das pessoas e, por extensão, do papel do violeiro nas práticas sociais das comunidades rurais. Este assunto também remete ao mistério do dom, uma questão, acredito, de interesse universal. Os que tem o dom para determinado ofício e os que não o tem. No caso da música isto é determinante para se tornar um bom músico. Os violeiros antigos dizem que tocar viola é dom de Deus e quem não tem o dom só vai conseguir tocar se fizer o tal pacto… O meu trabalho A arte de pontear viola atende à questão das técnicas. Não tenho, infelizmente, uma solução para a questão do dom. Mas os interessados em tentar o tal pacto irão encontrar no livro algumas “receitas” que me contaram ao longo destes anos.

Lembro também que você desenvolveu um sistema para corrigir a afinação da viola, redesenhando o cavalete junto ao corpo do instrumento. Como foi esse processo?

Na tentativa de melhorar a afinação da viola, experimentamos no início da década de 1980 mudar os pontos de apoio das cordas (principalmente dos pares oitavados) no cavalete e funcionou. Na verdade, este procedimento já era utilizado nas guitarras e baixos elétricos, mas na época não sabíamos disto. Este procedimento recebe o nome de entonação e é fundamental para se afinar as cordas em toda extensão do braço da viola. O ajuste para cada corda de um par oitavado permite que quando pressionado não desafine. A variação do ponto de apoio da corda no cavalete faz esta correção. Foi um grande avanço para o instrumento. A desafinação das violas não é um aspecto cultural e sim um defeito. A oitava de uma determinada nota é o dobro de sua frequência e isto é inquestionável – é matemática.

Quando foi que Roberto Corrêa decidiu transformar a viola em profissão (e missão)? E por quê?

Comecei com a viola em 1977, em Brasília. Na época eu era estudante de Física. Como não havia nada escrito sobre as técnicas, tive que ir atrás dos violeiros antigos para aprender a tocar bem o instrumento. A certeza de que meu caminho era com a viola se deu quando me formei. Eu havia concluído o curso de Física mas já totalmente focado em construir no meio artístico um campo de atuação com a viola caipira. Meu objetivo primeiro era ser um instrumentista da viola caipira. No meu percurso de violeiro, devido às circunstâncias, dediquei tempo para o fazer artístico (tocar e compor), para a pesquisa e para o ensino. Sinto que com este DVD encerro meu compromisso com o repasse do que aprendi com antigos mestres.

Você é compositor, cantor, instrumentista, pesquisador, intérprete, produtor, pedagogo… Mas muita gente acha que ser violeiro é só ficar dedilhando preguiçosamente a viola. Essa visão estereotipada do violeiro ainda persiste?

Acredito que sim. Uma visão com um viés que me parece interessante. A viola sendo associada à tranquilidade, ao lazer, ao bem-estar. A música que parece sair fácil dos dedos é um elogio ao artista! No entanto, para se construir uma história com o instrumento demanda empenho, estudo, planejamento e muito tempo dedicado ao adestramento e à preparação de repertório.

Você acha que a viola, aos poucos, está extrapolando o universo regional e alcançando outros gêneros, como as salas de concerto, por exemplo? Você tem se surpreendido com os rumos tomados por novos violeiros?

Com certeza a viola está em expansão. Inclusive o tema de minha tese de doutorado (ECA/USP), defendida no ano passado, é o avivamento da viola caipira no Brasil. A gênese deste avivamento se deu na década de 1960, quando o instrumento passou a ser utilizado em outros universos  musicais, como por exemplo na música instrumental, na música erudita, na música popular, etc. Eu não fico surpreso com o que vejo acontecer hoje com a viola. Fico gratificado. E desejo que muitas outras inspirações venham para a viola caipira.

Quais são seus próximos projetos?
No momento atual, estou focado no lançamento do DVD A arte de pontear viola, para o qual preparei um recital e um workshop. No curto prazo, vamos lançar a nova edição do livro A arte de pontear viola, que está esgotado, e publicar o livro de minha tese Viola caipira: das práticas populares à escritura da arte. Mas estou mesmo é com vontade de me dedicar mais a fazer música e compor. Mas para isso preciso de tempo para ficar dedilhando preguiçosamente uma viola…

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