Crime e mistério em SP

Por Ranulfo Pedreiro

Imaginem um escritor fracassado que, repentinamente, se vê com uma descontrolada vida dupla, embrenhada no crime, cheia de mistérios e personagens dúbios, capazes de resoluções surpreendentes em histórias ambientadas em São Paulo.

É o que nos traz a série policial Sereia de Vidro (Editora Bússola), que chegou ao segundo volume com Os crimes do Dançarino da Sé, lançado no final do ano passado. Escrita por Marcelo Antinori, Sereia de Vidro vem revelando a força de seus personagens, cada vez mais desenvoltos dentro da narrativa.

Confira a matéria de lançamento da série Sereia de Vidro aqui.

Desta vez o protagonista, misto de literato e empresário com ramificações no submundo, vê-se diante de uma série de assassinatos. O argumento coloca o leitor em lugares conhecidos da capital, interagindo com personagens tão arraigados às ruas da metrópole que podem se camuflar no cotidiano – ou chamar minuciosamente a atenção dos incautos, já que a duplicidade é um dos atrativos do lançamento.

Se o primeiro volume trazia a obrigação inaugural de apresentar o enredo, agora a intimidade com os personagens surge praticamente estabelecida. E o protagonista ganha em carisma justamente por intercalar a resolução racional dos crimes com um pendor natural pelas seduções da carne. Mas não espere pancadaria. Sereia de Vidro não segue pelos caminhos mais fáceis nem faz julgamentos morais, optando por escancarar contradições nem sempre aparentes, mas inerentes à vida de cada um.

Confira a entrevista que Marcelo Antinori concedeu à Máquina do Som.

 

Martcelo Antinori

 

As coisas ficam ainda mais complicadas no segundo volume, mas outra vez o protagonista age sem se envolver em conflitos físicos.  Essa seria uma de suas características, resolver os problemas de forma exclusivamente racional?

Marcelo Antinori – O conflito físico direto – socos e pontapés – não é meu estilo e tampouco creio que o seja para a maioria dos leitores.  Isto é importante em filmes e seriados, mas não creio que funcione na literatura. O próprio ato de ler, é um ato pacifico e não combina com a ação física intensa.  Por outro lado dou total liberdade a meus personagens de dar vazão a seus instintos. A decisão do narrador nas últimas páginas dos Crimes do Dançarino da Sé é um claro exemplo disso. O tema da ação física continuará presente nos próximos episódios e um dos personagens, Veronica, a cada nova história vai desvendar um lado mais violento.

De qualquer forma, a vida dupla do narrador está mais complicada, uma vez que seu contato com o mundo do crime se ampliou,  chegando a tomar uma difícil decisão. A impressão é que essa linha tênue entre legalidade e vida marginal está cada vez mais estreita.  Nosso herói está se deixando arrastar para o mundo do crime?

Esta tênue linha que separa a legalidade e a vida marginal é um tema central em toda coleção de histórias da Sereia de Vidro.  No universo das elites e do narrador, aproveitar os benefícios financeiros da corrupção não é um pecado capital.  Por outro lado, dentro do universo do tráfico, executar quem ameaça o poder não é uma atitude imoral, mas sim de sobrevivência. O problema do narrador e de todas as histórias da coleção surge exatamente por este transitar, permanentemente, entre a moral dos Jardins da Zona Sul e a outra, e bem diferente, a moral de Ana Pérsia e seus amigos que vivem no centrão da cidade.

A ambientação continua sendo um dos pontos fortes, com a história se passando em locais conhecidíssimos de São Paulo. A ideia é manter a metrópole como cenário, ou em algum episódio a ação se deslocará para outras paragens?

Nos primeiros episódios, toda ação será em São Paulo. Ali vivem os personagens e é onde a historia se desenvolve. Provavelmente será assim no futuro, mas não posso garantir. Já publicamos dois episódios, publicaremos o terceiro em março e mesmo eu, que sou o autor, apenas conheço o que eles fazem até a sétima historia. A partir dai, terei de descobrir.

A personagem Veronica é característica das dualidades da obra: policial envolvida com o crime, bonita mas careca e, ainda, sedutora. É um personagem que deve crescer na série?

O personagem da Veronica vai se desenvolver muito. Ela não é apenas careca; o leitor ainda não sabe, mas ela é zen budista. Outra coisa que descobriremos nas próximas historias é que Veronica não é apenas uma policial “sintonizada” com o crime organizado; sua função dentro do comando do crime vai muito mais longe do que isso. Mas disso ainda não posso falar pois apenas será revelado nos próximos episodios.

As relações entre o protagonista e sua esposa ainda estão estremecidas… Parece que, na série, a verdade é algo a ser sempre desvendado…

Um elemento interessante na serie é que as duas mulheres próximas ao narrador – tanto a esposa, Luciana, e Ana Pérsia, a amante – são mulheres que além de muito interessantes vão se desenvolver, e muito, a cada novo episódio. Assim como as novas atividades da esposa Luciana criam tensão nos Crimes do Dançarino da Sé, o desenvolvimento das duas colocará o narrador em permanente tensão para manter o arranjo atual que tanto lhe convém.

Serviço: Os crimes do dançarino da Sé, segundo volume da série policial Sereia de Vidro, de Marcelo Antinori. Editora Bússola, ISBN 9788562969454, 104 páginas, R$11,90.

Confira o blog Contos que valem a pena, de Marcelo Antinori.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *