No império do samba

Por Ranulfo Pedreiro

Luiz Henrique é daqueles cantores que se preocupam mais com a qualidade de um trabalho do que com o sucesso propriamente dito. Movido pela paixão, trata o samba como o gênero merece: com cuidado e respeito. Não abre espaço para modismos ou vertentes periféricas.

Costuma ir ao cerne, na veia, na raiz. Sem vacilar. É o que ocorre no disco O Império de Silas – Ao grande mestre do samba Silas de Oliveira, o primeiro dedicado inteiramente ao compositor que criou o samba enredo. É, até agora, a maior homenagem que Silas de Oliveira recebe por ocasião de seu centenário, celebrado neste ano.

O samba registrado por Luiz Henrique é orgânico, sincopado, sem atropelos, com percussão deliciosamente compreensível a contornar a voz por vezes emocionada.

Vale destacar o trabalho independente. Luiz Henrique fez tudo, como a pesquisadora Marilia Trindade Barboza destaca no texto de apresentação: “Buscar herdeiros, autorizações, produtor, músicos, estúdio, participações especiais, qualquer eventualidade que se apresentasse e arcar com tudo – sozinho!”.

Bem-vindos ao Império de Silas, onde o samba está mais vivo do que nunca.

Máquina do Som – Quando começou sua paixão pelo samba?

Luiz Henrique – A minha paixão pelo samba começou quando eu ainda era criança. Sempre fui fã de grandes sambistas como Benito di Paula, Roberto Ribeiro, Clara Nunes etc. Lembro-me de que, na época em que o Jair Rodrigues fazia sucesso com uma música chamada Gotas de veneno, eu ainda muito pequeno, com uns quatro ou cinco anos, já subia num banquinho e, com um frasco de desodorante na mão servindo de microfone, começava a cantar o samba. Fui crescendo e felizmente continuei com este bom gosto, inclusive apreciando eternos ícones do samba como Moreira da
Silva, Araci de Almeida, Elizeth Cardoso e tantos outros, chegando inclusive a compor meu primeiro samba quando tinha por volta de 15 anos, o Pega na perninha dela.

Mas quando você começou a buscar uma carreira de sambista? Quando você percebeu que o samba era mais do que uma brincadeira?

Na verdade, o samba foi se chegando aos poucos, a música foi chegando aos poucos. Primeiro comecei a fazer experiências como compositor, mas não compunha só samba, como canções românticas, depois é que me dei conta de que também poderia cantar. No meu primeiro CD, gravado em 1998, acabei por misturar os ritmos, sendo que a maioria do repertório selecionado já era samba. Minha primeira participação em rádio foi cantando samba num programa da Rádio MEC-AM (RJ), apresentado pelo Adelzon Alves.

Como você se aproximou do Império e de Silas de Oliveira?

Nunca fui assim tão ligado a carnaval, apesar de sempre gostar de assistir à apuração do resultado das escolas de samba. Quando fiz meu segundo CD – e isso já faz uns 13 anos –, gravei uma música em homenagem ao Império Serrano, Serrinha Querida, e fiz questão de ir até a quadra para entregá-la à então presidente do Império, salvo engano, a Neide. Nesta época cheguei a frequentar o Império, só que não foi por muito tempo. Em relação a Silas de Oliveira, eu até conhecia algumas de suas composições, mas confesso que não sabia que eram de sua autoria. Somente associava a Silas o samba de enredo Aquarela Brasileira e o samba de terreiro Meu Drama, que foi grande sucesso do também saudoso Roberto Ribeiro. Logo depois que fiz meu primeiro projeto de homenagem, que foi sobre o compositor Sinhô, um amigo me sugeriu Silas de Oliveira para um novo projeto. Fui então pesquisar sua obra e me apaixonei, muito embora depois do disco com as músicas do Sinhô, ainda tivesse feito em 2013 o CD Pro samba que Noel me convidou, que foi uma homenagem a Noel Rosa e aos anos 30. Só depois é que decidi homenagear o mestre Silas, por coincidência já nas proximidades de seu centenário.

Silas de Oliveira

Como foi a seleção de repertório?

A seleção de repertório não foi nada fácil, pois gostei de todos os sambas. Lamentavelmente, muitos não consegui ouvir, apenas tomei conhecimento pelo livro: Silas de Oliveira, do jongo ao samba-enredo, que foi a biografia do Silas escrita por Marília Trindade Barboza. Por sinal, foi ela quem escreveu o texto de apresentação deste CD. A maioria dos sambas escolhidos foram músicas de destaque, à exceção de uma ou outra. E mesmo aquelas desconhecidas de hoje, como por exemplo o Me Leva, foi grande sucesso na voz de Anísio Silva. Além de quatro sambas de enredo bem conhecidos, também selecionei Caçador de esmeraldas que, embora já não seja mais lembrado, destaca-se por ser um samba com que o Império Serrano conseguiu ganhar um dos seus títulos. Já a bela Calamidade, embora tenha sido gravada magistralmente pelo nosso saudoso Roberto Ribeiro, não conseguiu alcançar o sucesso merecido. Enfim, todas as músicas são ótimas e eu procurei também diversificar nos assuntos abordados pelo mestre. Até porque este trabalho, por enquanto, é único, nem na época do LP Silas teve um disco com músicas somente de sua autoria.

Gostaria que você falasse da importância do Silas de Oliveira para o samba. Qual o legado do grande compositor?

Felizmente o passado musical deste país contou com grandes compositores, em diversos gêneros musicais, que deixaram um importante legado à nossa cultura. Em se tratando de samba, posso me atrever a dizer que Silas de Oliveira está entre os dez melhores autores, sendo sem dúvida o maior quando abordamos a especialidade samba de enredo. Até meados dos anos 40, o que nos foi apresentado pelas escolas de samba na festa momesca era parte de um samba, já composta previamente, que se juntava a improvisações no momento desfile. Com a proibição do improviso pela instituição
organizadora, as agremiações tiveram que se adaptar à nova realidade. Desta forma surgiu aquele que talvez possa ser considerado de fato o primeiro
samba-enredo Conferência de São Francisco, também chamado de Paz Universalcomposto magistralmente por Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola para a já extinta escola de samba Prazeres da Serrinha. Curiosamente, devido a um desentendimento entre dirigentes da escola, na hora do desfile, metade dos componentes cantava o samba principal enquanto a outra metade cantava o tradicional samba de terreiro escolhido para o “esquenta” antes do início da apresentação. Mas foi em 1951 que Silas de Oliveira, já no Império Serrano, concretizou definitivamente o que poderia ser considerado samba-enredo do tipo lençol, com a obra Sessenta e um anos de República. E a Verde e branco da
Serrinha, neste carnaval, conquistou o título de campeã. A partir daí, compôs muitas outras importantes obras para o desfile do Império, sempre abordando assuntos de cunho histórico, formalidade respeitada pelas agremiações na elaboração dos enredos da época, até chegar ao ápice com os clássicos Os cinco bailes da história do Rio, na parceria com Dona Yvonne Lara e Bacalhau, Aquarela Brasileira que compôs sozinho, e Heróis da liberdade ao lado de Mano Décio e de Manoel Ferreira. Já em relação aos sambas de quadra de autoria do grande mestre Silas, muitos deles não tiveram a merecida divulgação, no entanto um dos mais importantes para o cancioneiro popular, já regravado diversas vezes, é o que compôs também em dupla com Mano Décio, Apoteose ao samba.

Gostaria que você falasse um pouco sobre o futuro do samba. Para onde o samba vai? Como anda a vitalidade do samba? Temos novos compositores de qualidade?

O futuro do samba tal como o da Música Popular Brasileira é bem crítico. Não sou muito otimista em relação a este assunto, e, francamente, acho que estes novos gêneros musicais que a gente tem ouvido por aí em muito colaboram para o combate ao autêntico samba. Claro, não tenho dúvida de que o pagode, o funk, o sertanejo universitário e alguns outros segmentos musicais da atualidade sejam manifestações culturais, até porque toda produção artística é cultural, ou para o bem ou para o mal. E sempre teremos especialistas da nossa literatura musical apresentando textos ou mesmo livros que analisem momentos decadentes como este, uns no ataque e outros até na defesa. No meu entender, o produto cultural de uma sociedade em determinada época pode retratar muito bem a situação por que ela passa. É fato que sempre existiu a produção cultural de baixa qualidade, contudo, na atual conjuntura, ela não só existe como também impera. Mas quem é culpado disso não somos nós do povo não, e sim aqueles que poderiam nos dar condições para ampliarmos nosso horizonte cultural, mas que não têm nenhum interesse em fazê-lo. E nem precisamos ir muito longe para ilustrar, podemos inclusive citar este meu pioneiro trabalho sobre Silas, ou seja, não houve outro disco, nem mesmo na era do vinil, que tenha juntado composições de Silas num único projeto. Ora! Silas de Oliveira é considerado por unanimidade o maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos, como Aquarela Brasileira, além disso é autor de sambas de quadras que são verdadeiros poemas, como, por exemplo, Apoteose ao samba e Senhora Tentação, só que nunca, jamais, em tempo algum, houve gravadora, ou entidade cultural, que tivesse se interessado por fazer um trabalho reunindo apenas os seus belos sambas. Coisas que não se explicam! Embora faça pesquisas para gravar os CDs, considero meu conhecimento sobre samba muito aquém do que eu realmente necessitaria. O que me conforta, e ao mesmo tempo me preocupa, é saber que, mesmo entre aquelas pessoas que trabalham com o samba de forma constante, há muitas que dele nada conhecem. Sendo assim, é bem provável ser este um dos principais motivos que têm impedido o samba de conseguir se impor da forma que deveria. Samba não é bagunça, samba é raiz da nossa cultura! Existem sim, espalhados por todo este Pindorama, compositores de muito talento, acontece que a maioria deles não têm vez, não têm espaço na grande mídia. E ainda quanto ao futuro do samba, estou com Nelson Sargento: “Agoniza mas não morre”.

 

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