O lado B de Londrina

Antigo Cadeião de Londrina (foto Ranulfo Pedreiro)

Antigo Cadeião de Londrina (foto Ranulfo Pedreiro)

 

 

Obra histórica de Marinósio Filho retrata a cidade a partir da boemia, dos marginais, das prostitutas, dos jagunços e da truculência policial

Por Ranulfo Pedreiro

Londrina ainda era um projeto, por volta de 1926, quando os desbravadores abriam estradas e delimitavam espaços. Já nesta época, nas casinhas de palmito, a única diversão do local apinhado de homens ficava por conta de uma moça trazida de Ourinhos, pioneira da zona do meretrício que se desenvolveria na R. Rio Grande do Sul – depois R. Brasil. A demanda era tanta, que a garota foi para a cidade paulista buscar reforço.

Desenvolvia-se, a partir de então, um espaço capaz de reunir jagunços, prostitutas e boêmios, uma zona decaída onde a polícia agia com truculência. Um espaço contrastante com a propaganda de cidade planejada e em franca expansão.

Foi justamente este aspecto da cidade que o jornalista, escritor e compositor Marinósio Filho destacou no livro Dos porões da delegacia de polícia, lançado originalmente em 1979. A obra foi relançada pela Coleção Doc.Londrina e Kan Editora em 2013, com patrocínio do Promic e organização de Tony Hara, que desenvolveu a pesquisa ao lado de Felipe Melhado.

Antigo Cadeião de Londrina (foto: Ranulfo Pedreiro)

Antigo Cadeião de Londrina (foto: Ranulfo Pedreiro)

Marinósio Filho era um sujeito articulado. Saiu de Salvador, onde nasceu, em 1939, num giro pelo norte e nordeste do Brasil, onde acumulou informações para criar o grupo musical Afoxé – uma iniciativa compatível à música nacional-populista de cunho getulista.

Com uma linguagem musical definida pelos instrumentos afro-indígenas, Marinósio desceu até o Uruguai, onde a marcha Cachaça não é água, de sua autoria, fez sucesso. No retorno ao Brasil, porém, Marinósio parou em Londrina. Como homem da noite, viu o dinheiro circulando, em 1947, e fez o que muitos faziam: aliou-se a um grupo político para criar o jornal O Combate.

No jornalismo, entretanto, acabou por dar voz aos desvalidos de toda sorte, narrando casos como o do menor que, após sofrer violência sexual na cadeia, mudou o nome para Adriana.

Foto: Ranulfo Pedreiro

Foto: Ranulfo Pedreiro

Torturas, afogamentos, assassinatos: as práticas corriqueiras foram denunciadas pela pena do jornalista, apresentando uma Londrina diferente daquela exaltada pela publicidade, que se refletiria na historiografia oficial. Enquanto o jornalismo policial parecia concordar com tais “procedimentos”, Marinósio, um pioneiro do gênero, seguiu caminho contrário.

Tony Hara explica o cenário com uma frase famosa do escritor João Antonio, que também fez sua leitura da cidade: “Em Londrina, o mais bobo acende cigarro no relâmpago”.

Destacar esta voz dissonante é uma das características da coleção Doc.Londrina, que também reeditou o romance satírico Escândalos da província (1959), do jornalista Edison Maschio, e Coração Rueiro – João Antonio e as cidades, de Tony Hara.

“Acho estranho demais você ter uma pluralidade, mas eleger apenas uma perspectiva”, ressalta o jornalista Tony Hara, para quem a diversidade de abordagens torna Londrina uma cidade mais interessante e humana. Daí a vontade de destacar aqueles que foram ficando à margem da história.

Foto: Ranulfo Pedreiro

Foto: Ranulfo Pedreiro

Tony Hara conheceu o livro Dos porões da delegacia de polícia por volta de 1992, quando cursava Jornalismo na UEL. No mestrado, o pesquisador se debruçou sobre crônicas policiais para escrever o livro Caçadores de notícias (2000). Cada vez mais, percebia a importância da obra de Marinósio Filho. “É um livro importante porque as coisas que ele denuncia não foram superadas pela história”, ressalta.

Em contato com Ângela Trigueiros, nora de Marinósio Filho, os pesquisadores tiveram acesso a uma farta documentação reunida pelo escritor. A colaboração da família de Marinósio se revelou fundamental.

“Marinósio [Filho] mostra que a zona decaída nasceu junto [com a cidade] e cresceu muito, se expandiu rapidamente. Tinha também os jagunços, que eram acostumados a resolver as coisas na base da violência”

Tony Hara, jornalista

No início do livro, há o olhar sobre a história da cidade, os delegados, casos e cotidiano da cadeia. Quanto mais a cronologia se aproxima dos anos 70, porém, aumentam as denúncias de violência policial, conferindo dois momentos específicos à obra. “A gente vivia em regime totalitário, havia certa pressão sobre torturas de presos políticos. Mas [denúncias de] tortura sobre presos comuns praticamente não existiam”, revela o pesquisador.

Antigo Cadeião de Londrina (foto Ranulfo Pedreiro)

Antigo Cadeião de Londrina (foto Ranulfo Pedreiro)

 

Um edifício de memórias

O Cadeião de Londrina funcionou durante pouco mais de quatro décadas, e guardava o peso de todas elas. Bastava atravessar uma porta, a que separava a ala mais recente da ala original – construída em 1953 –, para se deparar com histórias contadas exclusivamente ali, quando o estoque raspou a parede deixando marcas, milhares delas.

Histórias que não são oficiais, nem têm começou ou fim. Quase todas, porém, tratavam de amor, crime, morte, liberdade e desespero.

Bastava atravessar a porta e entrar nos corredores: o ar já não era o mesmo, carregado e cinzento como as paredes que, de tantas cores empalidecidas, não tinham nenhuma predominante.

Foto: Ranulfo Pedreiro

Foto: Ranulfo Pedreiro

O ambiente não era menos triste no pátio ensolarado. Lá, um Jesus Cristo de traços primários era uma testemunha de olhos serenos, mas abertos.

As cicatrizes do Cadeião espalhavam-se pelos pavilhões, corredores, escadas, banheiros, cozinha e celas. A luz enfraquecida atravessava as grades para bater no cimento esburacado, na tinta que se foi ganhando uma infinidade de rabiscos, pichações, colagens.

Lá, as paredes falavam: “Se sua estrela não brilha, não venha apagar a minha”; “Triste vida em vão quem tem a vida na vida de uma mulher da vida”; “Vida longa para meus inimigos, para que eles consigam assistir minha vitória”; “Fantasia é um bom lugar para as férias, mas realidade é onde se passa a vida”; “Nós não morremos, nos reagruparemos no inferno para roubar o diabo”.

Textos, desenhos e sinais perdiam-se na penumbra. Cada parede era uma mistura de rebocos, infiltrações, gambiarras, restos de tecido, pedaços de jornais, fotos de mulheres nuas, pichações. De perto, apresentavam infinidade de cores e formas em camadas sobrepostas de tinta e cimento. As grades enferrujadas lembravam o tempo, sempre lento, da cadeia.

Foto: Ranulfo Pedreiro

Foto: Ranulfo Pedreiro

Bokão, Truta, Leo, Rogin, Gambá, Nego, Tito, Gordo, Dino, Frajola, Klebin, Fernando, André, Jango, Piu-Piu, Pedrin, o que poderiam nos contar? Nomes que se embrenhavam pelas rachaduras, descascados, tijolos, emendas, fiações.

Brigavam com os espaços vagos do esquecimento para construir um edifício de memórias.

***

O Cadeião de Londrina foi reinaugurado – após uma grande reforma – como centro cultural do Sesc, sob administração do Sistema Fecomércio Sesc Senac PR, em 12 de dezembro de 2014, quando Londrina completou 80 anos.

O lugar que era marcado pelo drama agora oferece diversas atividades culturais de forma acessível, além de um ótimo café, como Sesc Cadeião Cultural. Uma conquista para a cidade.

Foto: Sesc PR

Foto: Sesc PR

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