A ascensão de John Coltrane

coltrane a love supreme

Por Ranulfo Pedreiro

Quando a família de John Coltrane chegou à Filadélfia, em 1946, enfrentou um problema. O filho não largava o saxofone e o som do instrumento atravessava as paredes finas do apartamento, incomodando os vizinhos. Foi então que um pastor cedeu uma chave ao garoto: ele poderia ensaiar quando quisesse na igreja do bairro. Pode-se dizer que a essência de A love supreme, o álbum histórico que Coltrane lançou em 1964, nasceu naqueles ensaios. Por um lado, havia a preocupação com o apuro técnico para alcançar maior liberdade musical. Por outro, o desenvolvimento espiritual de um homem que mudou a história do jazz.

“Quero ser uma verdadeira força do bem”, diria John Coltrane 20 anos depois dos ensaios na igreja, quando A love supreme já se tornar um marco – o ápice na busca do homem que tentava se unir ao seu Deus.

https://www.youtube.com/watch?v=_qt435yF2Qg

Se em Kind of blue – A história da obra-prima de Miles Davis, o crítico Ashley Kahn demonstra-se um minucioso explorador dos aspectos técnicos, em A love supreme – A criação do álbum clássico de John Coltrane, o sentimento fala mais alto. O livro  pela Barracuda (282 páginas, R$ 44) e não deixa de ser uma extensão – um tanto independente – da obra anterior.

O fato é que há uma transição importante na vida de Coltrane quando o saxofonista passa a tocar ao lado de Miles Davis. Primeiro, Coltrane é obrigado a abandonar o vício em drogas e álcool. Depois, retoma febrilmente a busca pela expressão máxima, uma evolução do garoto inseguro para o gênio determinado a fazer o bem por intermédio do sax.

Coltrane era um obstinado que testava escalas e dedilhava o sax incessantemente, mesmo nos intervalos dos shows.

Para se livrar das drogas, internou-se sozinho na casa dos pais. E só saiu quando estava limpo.

Nesse meio tempo, aproximou-se de Thelonius Monk em um verdadeiro aprendizado harmônico. Observou a ascensão de Ornette Coleman e a incrível liberdade com que ele trabalhava melodia e ritmo. E, após a experiência modal de Kind of blue, Coltrane caminhava rumo ao ápice: uma suíte devocional, repleta de modulações e de plena liberdade interpretativa. Um discurso religioso de muitas histórias, mas sem os dogmas dos que buscam impor sua fé.

Muito de A love supreme vinha das palavras. Tanto que a melodia, em Ackowledgement, a primeira faixa do álbum, desembocou no cântico grave, como uma oração, reforçando as três palavras: “A love supreme” – uma escala de blues transformada em prece, repetida em ostinato como um mantra.

O disco fecha com Psalm, quando o saxofonista tenta “ler” musicalmente um poema devocional: “Mantenha seus olhos em Deus./ Deus é./ Ele sempre foi, ele sempre será”.

A love supreme é uma bíblia do jazz que continuará a render audições infinitas de fãs ardorosos.

Muito de A love supreme vinha das palavras. Tanto que a melodia, em Ackowledgement, a primeira faixa do álbum, desembocou no cântico grave, como uma oração, reforçando as três palavras: “A love supreme” – uma escala de blues transformada em prece, repetida em ostinato como um mantra.

O disco fecha com Psalm, quando o saxofonista tenta “ler” musicalmente um poema devocional: “Mantenha seus olhos em Deus./ Deus é./ Ele sempre foi, ele sempre será”.

A love supreme é uma bíblia do jazz que continuará a render audições infinitas de fãs ardorosos.

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