Benny Goodman, o Rei do Swing

Benny Goodman em Hamburgo (Heinrich Klaffs CollectionWikipedia Commons).jpg

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Foi preciso um clarinetista branco de origem judaica para mostrar ao mundo que o jazz era mais do que música de entretenimento. Benny Goodman, o Rei do Swing, levou o jazz ao Carnegie Hall e até hoje influencia instrumentistas de todo o mundo com seu clarinete limpo e melódico.

Para entender como Goodman, nascido em 1909, se tornou um dos nomes mais populares da música, é preciso retornar à década de 20, quando vários mestres deixavam New Orleans para tocar em Chicago, onde o clarinetista vivia. Esse movimento migratório permitiu que Benny Goodman conhecesse de perto a música de Jelly Roll Morton, King Oliver e Louis Armstrong, entre outros.

Filho de imigrantes judeus, Goodman começou a tocar clarinete na sinagoga, mas logo passou para grupos populares. Era um talento precoce. Com 12 anos, já era profissional. Aos 14, trocou a escola pela música.

Uma transformação já se anunciava no trompete de Armstrong, capaz de brincar com a batida forte dos compassos em um ritmo todo próprio, imprimindo um sopro vigoroso a uma melodia maleável. Goodman aprendeu tudo isso. E levou para a sua orquestra.

Nos anos 30, a rádio NBC apresentava o programa Let’s Dance com três orquestras: uma leve, outra latina e a terceira hot – a “quente” era justamente a de Benny Goodman. Assim, o jovem clarinetista era ouvido de costa a costa nos Estados Unidos.

Além de ótimo instrumentista, Goodman era um bandleader de visão empresarial – dizem que era pão-duro na hora de pagar –, capaz de aglutinar talentos. Tanto que atraiu o baterista Gene Krupa e convenceu um rival a escrever arranjos exclusivos: Fletcher Henderson.

Se o negócio era fazer dançar, a orquestra de Goodman o fazia com arranjos fervorosos e inesperados, abrindo caminho para os grandes solistas. Os músicos eram obrigados a ler partituras e obedecer dinâmicas que pertenciam à música erudita. Surgia a Era do Swing. Com ela, o jazz deu um salto técnico. E deixou de ser uma música “étnica” para ganhar popularidade.

Mas a divulgação trouxe preconceitos. Frequentemente, o swing era considerado música descartável de pretexto dançante. É claro que as orquestras baixaram a guarda para manter o sucesso, mas muita coisa boa também foi produzida. Tanto que bandleaders como Duke Ellington e Artie Shaw entraram no terreno erudito – o próprio Goodman andou solando em filarmônicas.

O clarinetista fez tanto sucesso que foi apelidado – por Gene Krupa – como Rei do Swing. Mas a Segunda Guerra explodiu, muitos músicos se alistaram, veio o racionamento e as big bands (caras e de difícil manutenção) foram se desmembrando em grupos menores.

Avessos à popularidade do swing e buscando um espaço maior – e mais abstrato – para a expressão do solista, um grupo de músicos começou a inovar. Surgia o bebop. Quando a guerra acabou, swing e bebop rivalizavam. Ninguém imaginava que, nessa briga, ganharia espaço um estilo básico e rebelde, tocado em apenas três acordes: o rock’n’roll.

Benny Goodman seguiu tocando até sua morte, em 1986, de ataque cardíaco. Nos anos 60 e 70, reuniu seu quarteto magistral, com Teddy Wilson (o lendário pianista que toca ao lado de Billie Holiday em Strange Fruit), Gene Krupa (bateria) e Lionel Hampton (vibrafone). Mesmo caracterizando toda uma época, a música de Benny Goodman suplantou o tempo e permanece com incrível vitalidade.

Carnegie Hall, a aclamação

Benny Goodman conseguiu algo impensável em 1938: levar sua orquestra, composta por negros e brancos, para um megaconcerto no Carnegie Hall, até então um templo da música erudita. O concerto foi histórico e ajudou a romper com alguns preconceitos que ainda estigmatizavam o jazz, conferindo credibilidade – além de despertar um novo público – inédita ao gênero. Histórico, o concerto virou disco e teve repercussão mundial. No Brasil, ganhou uma versão bastante conhecida em LP lançado pela coleção Gigantes do Jazz, da Abril Cultural – hoje está disponível em serviços de streaming (Spotify e Deezer). 

Goodman provou que, mesmo dançante, sua música ia além do modismo. Basta ouvi-lo hoje para comprovar que, mais de um século depois, está bem conservado.

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