Toca Andanças?

paris texas

O garçom trouxe o bilhetinho já rindo, depositando-o na estante de partituras. Ao fundo, atrás de mesas barulhentas, uma jovem olhava esperançosa para o cantor, que leu:

-Toca Andanças, por favor!

Desde que começara na noite, aquela música, marcada pela voz de Beth Carvalho, o perseguia. Não havia um dia sequer que Andanças não fosse tocada pelo menos quatro vezes. E o povo embalava no coro com tanto entusiasmo que nem percebia o automatismo do intérprete, enfastiado da composição.

Andanças era o hino do tempo em que a música ao vivo, no formato banquinho e violão, imperava nos bares. Marcou gerações. Não raro, o público fazia o contraponto do refrão com olhos fechados:

-Me leva amoooor!

Até a frase apoteótica:

-Por onde for, quero ser seu par!

Era quando os olhares se cruzavam maliciosos, a deixa para a pegação embalada à cerveja.

Todos curtiam. Menos o cantor. Ele conhecia a história da canção e, num passado pouco distante, também foi um entusiasta.

A parceria de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós surgiu na casa de Beth Carvalho, que ainda não se destacava como sambista. Mistura de samba e toada, falava de um andarilho apaixonado, perdido por um grande amor.

Tinha tudo a ver com o espírito “pé na estrada” que se fortaleceu na música brasileira a partir de 1968, quando a repressão do governo militar realmente mostrou os dentes – e andar sem destino virou sinônimo de fuga e rebeldia.

Andanças pegou o terceiro lugar no Festival Internacional da Canção daquele ano, e caiu na boca da juventude. Não estava, porém, preparada para o desgaste do tempo, após inúmeras execuções em violões mal tocados.

Enfim, a canção ícone de uma época envelheceu, especialmente na cabeça do nosso cantor/violonista.

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Mas havia algo naquela letra redondinha, com um coraçãozinho esperançoso debaixo do ponto de exclamação, ilustrando o bilhete.

E os olhos pequenos da garota sozinha, quase escondidos atrás da garrafa de cerveja, despertaram uma nostalgia rara em nosso intérprete.

Ele, por minutos, recuperou o vigor adolescente, o sonho de ir para o Rio de Janeiro, a vontade juvenil de encarar aventuras.

Ah, os olhinhos… Eles sorriram quando a voz começou com indisfarçada animação:

-Vi tanta areia, andei…

E logo veio o coro alimentar aquela balbúrdia.

***

Sem querer essa crônica lembrou-me Paris, Texas, sucesso nos anos 80. Dirigido por Wim Wenders em 1984, o filme conta a história de um andarilho (Harry Dean Stanton) em busca de seu grande amor (a maravilhosa Nastassja Kinski), que desapareceu sem deixar notícias.

O caminhante, em sua simplicidade feito pedra (assim diria João Cabral de Melo Neto), apenas quer uma resposta. Encontra-a em um prostíbulo, onde sua amada exibe-se ao preço de um níquel. Separados por um espelho que não a permite vê-lo, o diálogo transforma-se em cruéis revelações.

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Nosso cantor, porém, levou a melhor. Elegeu a garota de olhos horizontais como musa, dedicando a ela o repertório da noite. Num dos intervalos, decretou:

-Dez minutinhos e a gente volta já já.

Não voltou.

Escaparam abraçados.

E ele já não se lembrava de sua caminhada pelas noites vazias.

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