Palavras e sonhos de Luiz Tatit

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Parece simples: pegue algumas palavras picadas no som, enfileire em sílabas mínimas, tempere com paixão. Eis a receita de Luiz Tatit para se fazer uma canção. Não está muito completa, claro, porque cada cozinheiro/compositor tem lá seus truques, seus segredos. E Luiz Tatit tem o domínio de casar sílabas e melodias. Basta ouvir Palavras e sonhos, a faixa que encerra o CD homônimo, que acaba de sair pela Dabliú.

É interessante como um acadêmico de vasto embasamento teórico consegue atingir um nível de simplicidade que toca diretamente o ouvinte. Vejam bem, simplicidade aqui deve ser entendida como aquela capacidade de se livrar dos penduricalhos e chegar à essência, ao cerne carregado de sentimentos que estrutura qualquer canção.

Essa manufatura trabalhosa ganha muitas vezes um aspecto mítico, cercado de musas e sonhos, como se a arte repentinamente incorporasse no artista em pura genialidade. Esse aspecto é um dos temas de Palavras e sonhos. Um compositor que trata a canção como artesanato louvando as musas. Um contraste rico e bem-humorado.

Paulistano de Pinheiros, Luiz Tatit é um dos fundadores do Rumo, em 1974. Paralelo ao trabalho com o grupo, Tatit formou-se em Letras e em Música. E vem investigando a canção, principalmente como ela deriva da fala. Teoricamente, interessou-se pela semiótica, fazendo mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde também fez o doutorado, voltado à canção popular brasileira.

Com o Grupo Rumo, foram sete discos: Rumo (1981), Rumo aos antigos (1981), Diletantismo (1983), Caprichoso (1985), Quero Passear (1988), O sumo do Rumo (1989) e Rumo ao vivo (1992). Em carreira solo, lançou Felicidade (1997), O Meio (2000), Ouvidos uni-vos (2005), Rodopio (2007) e Sem Destino (2010).

Como pesquisador, escreveu O cancionista: composição de canções no Brasil (1996), Musicando a semiótica: ensaios (1997), Análise semiótica através das letras (2001), O século da canção (2004), Todos entoam – Ensaios, conversas e canções (2007), Elos de melodia e letra – análise semiótica de seis canções (2008) e Semiótica à luz de Guimarães Rosa (2009).

Sem falar nas aulas como professor titular do Curso de Linguística da USP – onde se aposentou – e nas parcerias em livros, DVDs, CDs e shows. O currículo é mesmo extenso.

Palavras e sonhos vem conquistando merecidamente a crítica pelo país afora. Por telefone, sempre solícito, Luiz Tatit conversou com a Máquina do Som.

 

Palavras e sonhos, seu novo disco, fala sobre o próprio ato de compor?

Luiz Tatit – De fato, tem um pouco dessas menções à criação. E nessas faixas retorna o tema da inspiração, da musa. Tem duas canções em que menciono diretamente a ideia de musa. A própria canção-título, que é Palavras e sonhos, de certa forma faz uma relação entre os sonhos e os desejos que acabam se tornando palavras.

Mas na hora de compor conta muito o trabalho de se lapidar a palavra, não é?

A ideia da inspiração dá um bom mito, uma boa lenda para criar situações inventadas. Mas eu acho que nunca fiz uma canção que tivesse passado pela inspiração como a gente conhece. Na verdade, eu vou tentando fazer a letra e a melodia, fazendo as duas casarem entre si de uma forma quase que braçal, insistindo diariamente. O tema da inspiração e da criação mais onírica dá ótimas letras e serve mais nesse sentido do que propriamente determina a produção.

Não tem aquela coisa divina que baixa e, de repente, você faz uma canção maravilhosa? Nunca saiu uma canção de um sonho?

Para mim nunca aconteceu [risos]. Eu acho que isso dá espaço para o desenvolvimento do próprio mito. É uma delícia trabalhar com essas ideias, que na verdade são tradicionais, vêm de outras áreas, da literatura, principalmente. A música erudita usa muito a ideia de um mito de inspiração ou criação que é um pouco transcendente. A gente pode brincar com isso o quanto puder porque dá muito pano para a manga.

A própria canção Palavras e sonhos fala da receita de compor…

Exatamente, tem a ideia de transformar as palavras em matéria-prima, os grãos que vão formando as palavras, que vão tendo significados e, de repente, vai formando a ideia da canção. E os sonhos alimentariam isso de alguma maneira, por isso as pessoas não podem parar de sonhar. Volta à questão do mito que aparece com certa constância em todos os processos de criação, que acaba alimentando isso que a gente conhece como poiese. Poiese é o artesanato que leva ao produto final.

E a melodia vem saindo das próprias palavras, há uma naturalidade nisso…

A melodia sai principalmente da entoação. Essa entoação do dia a dia, essa maneira que já está na fala acaba definindo as direções melódicas. É mais da entoação do que propriamente dos fonemas. Isso vale para todos os compositores que fazem melodia. Mesmo sem saber, eles estão se inspirando na própria maneira de falar.

Era um recurso que vocês usavam bastante na época do grupo Rumo.

No Rumo isso era até explícito, uma espécie de manifesto que a gente fazia mostrando que toda essa ação tem uma entoação por trás. Mas é o caso de todas as canções, mesmo as que os compositores não consideram isso.

Essa entoação, que no Rumo era mais radicalizada, parece hoje que você trabalha de uma forma mais tranquila.

É isso mesmo, não há necessidade mais de fazer disso um núcleo de proposta. A entoação é sempre um pouco evidente nas canções que a gente está fazendo, mas não tem mais a necessidade de tornar explícito o processo, o procedimento. Agora é como a composição de qualquer canção.

O que te atraiu para a canção? Foi essa ligação entre letra, entoação e melodia? Quando você ser apaixonou pela canção?

Eu sempre gostei muito de ouvir. A minha geração foi muito alimentada pela canção porque a canção grassava nos meios de comunicação, principais de uma forma que hoje seria correspondente à novela. A canção era motivo para festivais, para programas de artistas. Chico Buarque, Wilson Simonal, Elis Regina, Ronnie Von, o pessoal da Record, Roberto Carlos, todos tinham seu programa de televisão. Você ligava a televisão e tinha música. Era muito forte na minha geração, era quase uma definição do Brasil. O impacto da canção foi muito forte numa fase de adolescência e de crescimento. Depois eu comecei a perceber, já quando fazia faculdade, que a linguagem da canção não era a linguagem musical. Os compositores, com uma ou duas exceções, não eram músicos. Os compositores [de canções] em geral não são músicos. Não é o que determina ser um bom compositor, o fato de ser músico ou não. Virou uma espécie de objeto de estudo para mim. Eu fiz todas as teses universitárias tentando explicar esse fenômeno, que é afinal a linguagem da canção e a relação entre melodia e letra. E tem que ter canto, por isso é canção. E depende de uma outra competência que geralmente os músicos não têm, precisam adquirir, eles têm que treinar muito esse artesanato de melodia e letra para chegar a uma canção boa. O fato de ser músico ajuda um pouco, mas não ajuda muito. Chega ao ponto de alguns compositores preferirem compor em instrumentos que não sabem tocar. Como é o caso de um dos meus parceiros, o Marcelo Jeneci. Ele é um excelente sanfoneiro e pianista, tudo quanto é teclado ele domina, tem uma musicalidade fantástica. Quando ele vai compor aquelas melodias lindas que ele faz, procura um instrumento que não maneja bem, o violão. Ele compõe no violão. Depois pode até fazer arranjos nos teclados. Mas você vê que interessante… Parece ter que abstrair a música para sair uma boa canção.

Essa característica coloca a canção num lugar particular…

Completamente. É uma linguagem autônoma. Por isso é que os literatos e os músicos, por si só, jamais serão bons cancionistas. A pessoa [compositor de canções] não faz poesia, faz letra. Não adianta fazer uma grande poesia que não combina com a melodia. É realmente uma outra linguagem. Isso eu explorei bastante em teses, trabalhos acadêmicos, até hoje meus livros tocam nesse assunto. Mas, principalmente na primeira fase do Rumo, era o que você reparou. Era uma explicitação do procedimento que está por trás de qualquer canção. Agora não precisa mais. Mas não significa que a canção não tenha essa origem fincada muito mais na entoação da fala do que nos recursos musicais.

No disco você faz referência a dois autores que têm muito essa entoação da fala. Um é Noel Rosa, em Feitiço da Fila, e outro o Angelino de Oliveira, em Tristeza do Zé.

O caso do Feitiço da Fila é uma referência no título [à canção Feitiço da Vila, de Noel Rosa e Vadico]. O Noel tem os valores dele, os valores do Rio de Janeiro, a vila; e nós temos os nossos valores aqui, a fila. Tem um caráter um pouco irônico porque claro que ele está exaltando algo, digamos, mais nobre do que eu estou exaltando. Mas São Paulo é assim mesmo e a gente precisa observar o que há de bom nisso. No caso da Tristeza do Zé eu comecei fazendo algumas estrofes que acabaram falando da tristeza daquele tempo que vai tomando conta das regiões e até do próprio país. Daí o Zé Miguel Wisnik gostou da ideia e começou a fazer também uns versos ligados a lugares do Brasil, a capitais, a cidades que podiam render naquele refrão e a gente começou a ampliar. Já que a tristeza tinha prevalecido, eu comecei a fazer menção à música Tristeza do Jeca [de Angelino de Oliveira]. Depois, quando ele gravou essa música no disco Indivisível, mas ela está incompleta porque ele resolveu diminuir um pouco, ela ficou muito comprida. Então ele preferiu repetir uma estrofe a colocar tudo que estava lá. Eu achei que ficou faltando as referências a Tristeza do Jeca. Quando eu fiz a minha gravação, eu reintroduzi as estrofes que tinham ficado de fora. Então a minha está completa. A ideia das remissões acaba acontecendo no final do processo. Quando você está fazendo, nem está pensando que vai resultar nisso. Quando eu vi que estava caracterizada a questão da tristeza então fiz referência explicitamente. Mas no começo não, no começo era uma ideia de tristeza que eu estava elaborando.

Você pretende fazer uma turnê com o novo disco?

No começo sempre tem um grande espetáculo que tenta reproduzir o disco, é o que a gente chama de lançamento. Vou fazer isso agora em abril aqui nos Sescs em São Paulo. O problema é que tocar com toda a banda que participou do disco é muito caro. Então começa a haver restrições, sabe? É difícil fazer turnê levando a banda inteira. Nós temos aqui o Sesc que é muito produtivo, mesmo com crise e tudo eles mantêm um cachê mínimo para você convidar os músicos. Eu não sei como sair daqui se não tiver esse cachê. Então turnê eu nem penso. Tem algumas possibilidades que estão delineadas, mas são poucas.

Você não pensa em fazer esse repertório com voz e violão?

Eu faço muito show só no violão. Algumas músicas podem ser interpretadas. Claro que empobrece bastante, mas dá para apresentar, sobretudo essas que são mais baseadas na letra.

Você tem gravado vídeos em voz e violão…

Eu tenho escolhido algumas canções que dependem daquele tipo de violão para ficarem harmonizadas. No meu caso não adianta muito passar cifra. As cifras não dizem o que o instrumentista faz no violão. Então eu estou tentando deixar um pouco essas canções já filmadas, sobretudo essas 40 que eu escolhi, para mostrar como é o violão original. Muita gente me pede cifra [acordes], mas não adianta passar cifra porque a pessoa faz de outro jeito. Na verdade, eu tinha começado esse projeto para mim mesmo, para não esquecer. São canções que às vezes eu não toco mais e acabo esquecendo. Então era para mim mesmo. Mas o Jonas, que estava fazendo as gravações, falou: “Já está filmado, está tudo certinho, porque não colocar no YouTube”? Ele teve a ideia de montar um projeto para o YouTube e agora está na rede, e ficou mais fácil para mim para resolver essa história de passar cifras.

Como você vê a canção hoje?

Vejo que tudo só melhora, está cada vez mais rico o panorama da canção popular. Só cresce. Muito mais gente hoje pode produzir o próprio disco, então tem muito mais possibilidade de chegar a um estágio bem desenvolvido de composição, de arranjo, de execução, de espetáculo. Tudo isso cresceu demais, não tem nem comparação com a minha época ou com a época anterior a mim. Hoje é infinitamente melhor. O que mudou muito é que, na época da minha geração, a canção era mais simples, mais centralizada em alguns meios de comunicação, como o rádio, principalmente, e a [TV] Record neste período que eu comentei com você, quando praticamente as canções ocupavam o espaço das novelas de hoje. Era quase que a linguagem brasileira, como hoje é a novela. Havia uma concentração muito grande, e dá a impressão, para a gente, de que aquelas figuras que apareceram – Chico Buarque, Milton Nascimento, Roberto Carlos, Caetano – só poderiam existir numa época em que a canção era melhor. De forma alguma. Hoje tem muito mais gente produzindo coisas boas. Tudo o que eu vou assistir aqui eu fico de queixo caído porque vou esperando uma coisa e é sempre muito melhor. Acho que a canção está infinitamente melhor do que era, com muito mais compositores. Só que de uma maneira dispersiva. Não tem mais um canal de TV, uma emissora de rádio especializada. Você tem que procurar na internet, no YouTube. São coisas muito bem feitas, mas estão dispersas. Dependem de você ir atrás. Mas eu acho a canção hoje muito mais fecunda do que já foi. E os recursos são muito maiores.

E hoje não é tão difícil conseguir visibilidade para difundir o material…

Pois é. Começou com todo mundo podendo gravar, o que já é uma mudança tremenda com relação ao passado. No passado, chegar ao disco era uma proeza. Atualmente, um adolescente de 15 anos no seu estudiozinho dentro de casa já faz o primeiro disco. Começa por aí. Quando ele chega aos 30 anos, já tem diversos CDs que ele mesmo fez e produziu. E agora com as imagens, que acabam revigorando mais ainda. Hoje está um espetáculo. Só que, para o artista, aumentou muito a concorrência, porque todo mundo faz. Isso de fato ficou mais difícil, a concorrência. Mas a qualidade das coisas é muito boa.

A canção continua sendo um objeto de estudo? Você está preparando novos livros?

Já está na editora, eu estou até corrigindo as provas de um livro que vai se chamar Estimar Canções. O primeiro capítulo é dedicado à própria noção de sentido em semiótica. Esse estimar não tem apenas o sentido de gostar, mas de estimativa, de cálculo. É o cálculo que o compositor faz quando está compondo, no sentido de colocar um pouco mais música, um pouco mais fala, um pouco mais de romantismo ou um pouco mais de exaltação, porque isso vai mudando o gênero da canção. É um livro que examina essas oscilações que o compositor enfrenta na hora de compor e que acabam dando o produto que a gente conhece. Eu continuo, da mesma maneira, uma reflexão sobre isso, mas sempre associado ao pensamento semiótico, que é a base das minhas primeiras teses. Esse pensamento continua e eu tenho que responder a semioticistas, tenho que reinventar o modelo para adaptar canções, então me dá um trabalho teórico tremendo. Mas nunca deixo de aplicar em canções mostrando como o modelo funciona.

 

 

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Serviço

Palavras e sonhos – Disco de Luiz Tatit lançado pela Dabliú. À venda em lojas e livrarias e disponível em serviços de streaming como iTunes, Spotify, Deezer Google Play.

 

Faixas:

1- Mais Útil (Luiz Tatit)

2- Diva Silva Reis (Luiz Tatit)

3- Feitiço da Fila (Luiz Tatit)

4- Das Flores e Das Dores (Emerson Leal/Luiz Tatit)

5- Musa da música (Dante Ozzetti/Luiz Tatit)

6- Musa Cruza (Luiz Tatit)

7- Estrela Cruel (Marcelo Jeneci/Luiz Tatit)

8- Planeta e borboleta (Luiz Tatit)

9- Do meu jeito (Vanessa Bumagny/Luiz Tatit)

10- Tristeza do Zé (Zé Miguel Wisnik/Luiz Tatit)

11- Matusalém (Arthur Nestrovski/Luiz Tatit)

12- Quantos Desejos (Luiz Tatit)

13- Palavras e sonhos (Luiz Tatit)

 

Ficha Técnica:

Direção de produção: J.C. Costa Netto

Gerência de produção: Tatiana Bória Librelato

Produção fonográfica: Dabliú Produções Artísticas e Culturais Ltda.

Produção musical: Jonas Tatit

Engenheiro de gravação e mixagem: Jonas Tatit

Gravado, mixado e masterizado por Jonas Tatit no Estúdio Pratápolis, São Paulo.

A faixa Estrela Cruel foi gravada por Alexandre Fontanetti no estúdio Space Blues, São Paulo.

Fotos e projeto gráfico: Gal Oppido. Assistente: Iago Ferrão.

 

Músicos:

Luiz Tatit (voz e violão)

Lenna Bahule (voz em Mais Útil, Diva Silva Reis e Palavras e sonhos)

Gabriel Levy (sanfona em Mais Útil, Do meu jeito)

Sérgio Reze (bateria em Mais Útil, Diva Silva Reis, Feitiço da Fila, Musa Cruza, Do meu jeito, Matusalém, Quantos Desejos e Palavras e sonhos)

Webster Santos (guitarra em Diva Silva Reis)

Danilo Penteado (baixo em Diva Silva Reis, Musa Cruza, Quantos Desejos e Palavras e sonhos/ baixo e piano em Feitiço da Fila/baixo, piano e sanfona em Matusalém)

Nahor Gomes (trompete em Diva Silva Reis / flugelhorn e trompete em Palavras e sonhos)

-Gabriel Milliet (sax e arranjo de sopros em Diva Silva Reis/ flauta e arranjos de sopros em Palavras e sonhos)

Jonas Tatit (programações eletrônicas em Diva Silva Reis e Musa Cruza/ violão em Feitiço da Fila, Matusalém e Quantos Desejos/ baixo, violão, guitarra e programações em Planeta e borboleta/ guitarra e programação em Do meu jeito)

-Alex Braga (violino em Musa Cruza e Quantos Desejos)

-Sérgio de Freitas (cello em Musa Cruza e Quantos Desejos)

-Fábio Tagliaferri (viola e arranjo de cordas em Musa Cruza e Quantos Desejos)

Marcelo Jeneci (voz e piano em Estrela Cruel)

Ná Ozzetti (voz em Planeta e borboleta)

Maria Beraldo Bastos (clarinete e clarone em Palavras e sonhos)

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