Captain Beefheart e a desconstrução do rock

Captain-Beefheart

Era uma vez dois doidões talentosos que se conheceram no deserto de Mojave ainda na adolescência. Don Van Vliet e Frank Zappa tinham o mesmo tino sarcástico, em que a ironia ganhava força no humor freak, mas musicalmente bem construído. Uma composição que, digamos, não era feita para agradar aos ouvidos, mas para incomodá-los. Atonalismo, divisões temporais inusitadas, rock de garagem e free jazz alimentavam letras imprevisíveis.

Zappa, felizmente, é mais conhecido, enquanto Van Vliet virou Captain Beefheart, morto em dezembro de 2010 em decorrência de esclerose múltipla. Ambos levaram o rock a extremos da irreverência, azucrinaram os clichês, sapatearam sobre o conceito de sucesso e imprimiram uma marca que, se não chegou ao mainstream, influenciou tanto o punk quanto o rock progressivo; tanto o pós-rock quanto a música contemporânea.

O marco de Beefheart é um disco produzido por Zappa: Trout mask replica (1969). Frownland, a primeira faixa, parece construir um abismo entre andamento e melodia, com se brigassem para confundir o ouvinte. A porra-louquice esconde uma estrutura que cruza com o free jazz carregando a referência das gravações toscas do blues rural. É possível ouvir o nascimento de Tom Waits em Pachuco Cadaver e China Ding. Tudo é provocação e ousadia. Mas a aparência freak revela temas como Dachau Blues, um marco underground sobre o massacre étnico-religioso da Segunda Guerra. Sim, atrás daquela esquizofrenia musical, Beefheart cutucava as feridas da humanidade.

E o fazia permeado por uma revolta ácida que contrasta com a intolerância atual ao politicamente incorreto. A inadequação musical de Beefheart não lhe rendeu tilintares na conta corrente. Sua bílis efervescente desconhecia estratégias de marketing. Sua arte não fazia concessões.

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