Para lembrar de Antônio Maria

Antônio Maria: escritor, jornalista e compositor

Antônio Maria: escritor, jornalista e compositor

Desenterrei, do baú de tempos universitários, o livro Com vocês, Antônio Maria (Ed. Paz e Terra, 1994). Trata-se de uma coletânea do radialista, produtor, jornalista, compositor e cronista Antônio Maria. Quem? É justamente este o problema. Ninguém mais conhece Antônio Maria. Outras coletâneas (Benditas sejam as moças e O diário de Antônio Maria, lançadas pela Civilização Brasileira em 2002) não foram suficientes para difundir a prosa talentosa do gordo solitário de muitos amigos e inimigos.

Artigos de jornais celebraram o escritor por conta dos 50 anos de morte, em 2014. Mas a obra de Antonio Maria permanece afastada das prateleiras. Com muita sorte, ainda é possível encontrar nas livrarias virtuais um ou outro exemplar de Um homem chamado Maria (2006), lançado por Joaquim Ferreira dos Santos pela Editora Objetiva (240 pgs).

Nascido no Recife em 1921, Antônio Maria tinha 15 anos quando bebeu, em aposta, uma garrafa de cachaça. Caiu alcoolizado na praia e a maré subiu, já o levando, não fosse a intervenção de um pescador. Do botequim, nunca mais saiu. Sua noite começava com o dia, como lembrou Vinícius de Moraes no texto Oração para Antônio Maria.

Foi para o Rio de Janeiro como radialista, montando república com Fernando Lobo (pai de Edu Lobo) e Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Passou fome, conheceu a miséria, foi preso. Um dia, encontrou uma fã do jornalista Carlos Heitor Cony e se passou pelo próprio, arrastando-a para a cama. Contou, depois, para Cony, que reagiu: “E como foi?”. “Ah, Cony, você broxou.”

Como compositor, fez o sucesso dor-de-cotovelo Ninguém me ama, gravado por Nora Ney e Nat King Cole. Com Luís Bonfá, escreveu a fenomenal e schumanniana Manhã de carnaval.

Foi apaixonado pela atriz Tônia Carrero, amor compartilhado pelo amigo Rubem Braga. Deu briga. Dizem que Rubem não esboçou qualquer reação ao saber da morte súbita de Antônio, enfartado aos 43 anos, em 1964.

Antônio Maria fez do jornalismo poesia. É um texto atualíssimo e fundamental, daqueles que contradizem a efemeridade da crônica.

Deixou o que poderia ser um epitáfio: “A humanidade não está escolhendo entre o matar-se e o continuar vivendo. (…) Antônio Maria, brasileiro, 43 anos, cardisplicente (isto é: homem que desdenha o próprio coração). Profissão: esperança”.

 

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