Caio Fernando Abreu: quando a vida grita pelos cantos

Caio Fernando Abreu e Paula Dip

Caio Fernando Abreu e Paula Dip

Caio Fernando Abreu e Paula Dip se encontraram pelas redações da vida no início dos anos 80. Ele era um escritor que buscava sustento no jornalismo. Ela, uma jovem repórter a descobrir os horizontes e percalços da profissão. A amizade se intensificou e perdurou até a morte de Caio, em 25 de fevereiro de 1996, há 20 anos.

Autor capaz de conectar o leitor com uma sinceridade direta e provocativa, Caio Fernando de Abreu escreveu muito, o tempo todo. Mastigava as palavras até absorvê-las em contos, novelas, crônicas, peças de teatro e poemas. Sua obra inquieta não deixa o leitor dormente: vive a cutuca-lo, de uma forma ou outra, em batalha constante contra a apatia – talvez por isso sua coletânea de crônicas chamou-se A vida gritando nos cantos

Ainda morava em Porto Alegre quando foi admitido, de forma surpreendente, em um concurso para trabalhar na revista Veja

A postura combativa nos anos 70 acabou despertando a ira da ditadura. Caio Fernando Abreu conseguiu abrigo na casa da escritora Hilda Hilst, aprofundando uma relação artística que foi muito além da admiração mútua.

Místico, apaixonado, emotivo. Caio Fernando Abreu tornou-se voz da geração dos anos 80, mas não se restringiu a ela. Seus textos permanecem atraindo novos leitores duas décadas após sua morte, em decorrência da Aids.

Em 2009, Paula Dip lançou o livro Para sempre teu, Caio F. (Editora Record, 504 páginas), em que reuniu cartas, bilhetes e depoimentos, retratando a amizade e traçando um perfil biográfico do autor. Posteriormente, Paula transformou o livro em roteiro, dirigido por Candé Salles. O longa, também chamado Para sempre teu, Caio F., traz depoimentos, imagens raras e inclui diversas personalidades interpretando textos ou falando sobre o autor: Camila Pitanga, Bruna Lombardi, Marcelo Rubens Paiva, Maria Adelaide Amaral e Guilherme de Almeida Prado, entre outros.

O filme foi finalizado em 2014 e será exibido neste sábado em Londrina, com a presença de Paula Dip e Candé Salles (leia mais sobre a sessão no fim do post). Por e-mail, Paula Dip conversou com o jornalista Ranulfo Pedreiro.

 

Você conviveu intensamente com Caio Fernando Abreu. A proximidade facilitou a tarefa biográfica?

O livro Para sempre teu Caio F., cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu (Record, 2009) é, mais que uma biografia, o relato da nossa convivência, da amizade que nos uniu, um mergulho nas cartas que trocamos durante 20 anos. Em 1983 ele me escreveu uma carta em que combinamos de escrever esse livro. Foi algo para que me preparei durante 10 anos depois da morte dele, em 1996. Fomos muito próximos, trabalhamos alguns anos juntos, em redações de jornais e revistas, e essa proximidade facilitou nossa intimidade, mas não há nada que facilite a tarefa biográfica, que é sempre um trabalho enorme. Na verdade, escrever sobre Caio não foi apenas uma tarefa, foi um evento muito prazeroso. E intenso: fiz muita pesquisa, muitas viagens, entrevistas, visitei arquivos, descobri coisas que não sabia sobre ele. Foi uma verdadeira descoberta.

Caio Fernando Abreu não parece ser um sujeito fácil de decifrar… Como era o convívio com alguém tão produtivo, tão cheio de sentimentos e, ao mesmo tempo, inspirá-lo?

Caio não era difícil, dava-se a conhecer rapidamente, suas amizades eram como paixões à primeira vista. Foi assim comigo e com a maioria de seus infinitos amigos. Ele tinha um afeto enorme por todos os amigos, demonstrava isso, escrevia muitas cartas diariamente aos irmãos, aos pais, aos colegas de trabalho. Devo lançar ainda esse ano um outro livro, sobre a “paixão literária” que aconteceu entre Caio e Hilda Hilst, poeta e escritora paulista que viveu na Casa do Sol em Campinas durante a maior parte de sua vida. Eles foram grandes amigos, se influenciaram mutuamente, e ela o acompanhou até o último dia de vida; trocaram muitas cartas e é justamente nessas cartas que se baseia o meu novo livro. Era uma delícia conviver com a força produtiva do Caio, com o vulcão de sentimentos e ideias que ele nos inspirava.

Bruna Lombardi no filme Para sempre teu, Caio F.

Bruna Lombardi no filme Para sempre teu, Caio F.

Os anos 80 são vistos hoje por intermédio de uma série de clichês (cabelos, roupas, gírias). Ao mesmo tempo, o aspecto libertário, ousado e criativo da década parece menos difundido. Como você vê a maneira como os anos 80 são interpretados hoje?

Falo muito dos anos 80 em meu livro, discordo dos clichês, alguns chamam os 80 de década perdida, mas para mim não foi nada perdida. Foram os anos da abertura, libertários, ousados e criativos, como você mesmo diz. Foi nosso auge, ele lançou Morangos Mofados [reeditado em 2105 pela Nova Fronteira, 224 páginas] , escreveu seus livros mais conhecidos, testemunhamos o nascimento de muitas ondas, desde o punk até o computador, foi um período poderoso, que adoro relembrar. E manter viva essa memória é um dos meus maiores objetivos.  Acho que os anos 80, com suas limitações e ao mesmo tempo com seu enorme potencial de mudança, cada vez mais deve ser visto como uma década inovadora e romântica.

Caio Fernando Abreu era um escritor bastante intenso, romântico, dedicado mesmo. Os blogs se multiplicam na internet, mas me parece que a preocupação dos blogueiros é diferente – e não há muitos traços de perseguição literária. Quer dizer, hoje é muito mais fácil difundir um texto, mas os autores parecem mais preocupados em contar para os amigos o que comeram no almoço. O que você acha dessas transformações?

Sei lá, difícil analisar o tempo em que vivemos, acompanhei de perto a vida do Caio num tempo pré-internet, e todas essas transformações são consequências naturais do progresso, e a gente precisa ter a cabeça aberta e muita disciplina para evoluir junto. Às vezes fico imaginando como Caio se sentiria se ainda estivesse vivo, o que faria, o que estaria pensando nesse momento. De certa forma seu pensamento está nos livros, filmes e teses que são feitos sobre ele, é campeão de citações na internet, e na verdade, ele está em silêncio, há 20 anos. Como viveu intensamente sua literatura e sempre esteve muito adiante do seu tempo, seus textos ainda vivem, falam conosco, e acho que falarão eternamente aos jovens, às pessoas que têm sede de amar e de viver.

Caio Dulce

Você acompanhou a transformação da biografia em filme. O que achou do resultado?

Não apenas acompanhei como também roteirizei o filme que é baseado no meu livro, tem até o mesmo nome. O filme estava na minha cabeça há muito tempo, mas foi meu encontro com Candé Salles, o diretor do filme, que fez tudo acontecer. Nos conhecemos no lançamento do livro no Rio, em 2009, e tivemos uma amizade imediata, uma empatia incrível, como aquelas do Caio, e o trabalho fluiu de maneira muito especial. Dizíamos que o Caio estava ali ao nosso lado, fazendo tudo acontecer. O resultado não poderia ter sido melhor. O filme está aí, lindo, elogiado pelo público e crítica, a gente viaja para muitos lugares para exibi-lo, fazemos encontros e debates sobre literatura e cinema. Um sucesso. O filme continua sendo exibido no Canal Brasil e na plataforma NOW, da NET. Ganhamos, em 2014, o prêmio de melhor  filme do festival MIX Brasil, aqui em São Paulo, temos convite para exibir o filme na Argentina, na Itália, e espero que ainda venham muitos outros prêmios.

Você acha que Caio Fernando Abreu é difundido entre as novas gerações, ou esta é uma das missões do livro e do filme? O autor tem o reconhecimento que merece?

A enorme penetração do texto literário de Caio entre as novas gerações é fato comprovado, e foi um dos principais motivos de termos feito o filme. É uma espécie de missão, como você coloca. Caio está sendo reconhecido tardiamente, ele não era tão famoso em vida, sempre dizia que só faria sucesso depois de morto. Celebramos esse ano os 20 anos da morte dele e tanto seus contemporâneos quanto os mais jovens o adoram. É gratificante para nós e muito merecido para ele. Sua obra, que foi reeditada pela Nova Fronteira no ano passado, é maravilhosa. As pessoas não devem se contentar em ler apenas as frases e pensamentos dele na internet. Tem que mergulhar na obra, que é de uma beleza única. Caio escreveu seu primeiro romance Limite Branco [reeditado pela Nova Fronteira em 2015, 184 páginas], aos 17 anos, e o lançou em 1970, e seu segundo romance Onde andará Dulce Veiga [reeditado em 2015 pela Nova Fronteira, 256 páginas] é de 90. Nesses 20 anos ele escreveu contos, crônicas, poemas, cartas, joias inigualáveis que vale a pena resgatar e conhecer.

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Você é uma jornalista que, seja na tevê ou no impresso, procurou a informação relevante, analisando e aprofundando fatos. Como você vê o jornalismo hoje? Porque parecemos incapazes de sair desta interminável crise profissional?

Sempre houve crises no jornalismo, isso acontece com os ofícios, na verdade a crise é algo mais amplo, um reflexo do mundo em que vivemos e atinge a todos os setores. E essa crise atual é principalmente política, ética, econômica, e por isso todo mundo sofre com ela. O que mudou muito no jornalismo nos últimos 20 anos, é que hoje, com a famosa “aldeia global” que Marshall McLuhan apregoou nos anos 70, as notícias se espalham em segundos, “viralizam”, como se diz por aí. E no meu tempo, e do de Caio, era tudo muito mais lento, não havia computador, e-mail, nem celular, imagine! A notícia nos chegava pelos jornais diários, as revistas semanais, o veículo mais ágil era o rádio e depois vinha a televisão. Não conheço o desafio de ser jornalista em tempos de internet, nem consigo imaginar. Hoje sou escritora, roteirista, faço colagens, me apaixonei por cinema. Mas quem tem alma de jornalista sempre vai estar atrás da informação relevante, da análise profunda dos fatos, da notícia. Isso não muda, é uma espécie de curiosidade que nasce com a gente. Mas não basta ir atrás da notícia. É preciso ler muito e sempre, só assim se exerce bem qualquer profissão ligada à escrita. Caio devorava livros desde muito jovem, leu o Don Quixote de Cervantes aos 12 anos, idade em que começou a publicar seus primeiros contos na escola. Clarice Lispector, que foi sua musa, dizia: “Escrever é ler”. Esta semana vi um documentário maravilhoso, no festival É tudo verdade sobre o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, Nobel de literatura. No final do filme, respondendo a uma pergunta sobre como se preparar para o inevitável fim da vida , ele diz que o único antídoto para a morte é “escrever muito.” Lindo né? Caio também dizia isso.

Filme será exibido em Londrina neste sábado (16/04)

Dirigido por Candé Salles e roteirizado por Paula Dip, autora do livro homônimo, o longa-metragem Para sempre teu, Caio F. (2010) será exibido em Londrina neste sábado. O filme retrata a obra e a personalidade do escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu, autor de obras como Morangos Mofados (1982) e Onde andará Dulce Veiga (1990). Caio Fernando Abreu morreu em 1996, aos 47 anos, em decorrência da Aids.

A sessão será realizada às 19h30 com a presença da escritora e do diretor no Centro Cultural Sesi/AML (Praça Primeiro de Maio, 130), em frente à Concha Acústica, em Londrina. Os ingressos custam R$16 (inteira) e R$8 (meio).

A exibição do filme é uma promoção do duo Iggy & Rafa, formado por Igor Diniz e Rafa Vella. Confira abaixo o clipe da música Pra me acompanhar (2013).

 

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