Kamasi Washington: o guardião do jazz

Kamasi Washington (Divulgação/Janice Wang)

Kamasi Washington (press image from Janice Wang)

No alto da montanha há um portão guardado por um guerreiro. Em sua vigília constante ele observa, lá embaixo, um grupo de jovens treinando arduamente. Um dia, um deles subirá para enfrenta-lo. Se o desafiante tiver desenvolvido rapidez, força e sabedoria com equilíbrio, sairá vencedor. E será o novo guardião, completando, assim, o ciclo da vida.

Transporte essa história para a música, acrescente talento, uma vontade feroz de transcender os limites do jazz e teremos Change of guard, o tema de abertura do álbum triplo The Epic (2015), consagrado como um dos mais interessantes lançamentos do ano passado, assinado por Kamasi Washington.

Você logo perceberá uma dose de pretensão em delimitar uma nova era, um novo tempo.

Kamasi Washington sabe o que está fazendo. São dele as partituras que preenchem os 172 minutos do disco, divididos em três CDs. Ele escreveu para sua própria banda, para um coro e para uma orquestra de cordas.

E contou uma longa história onde se apresenta como protagonista à troca de guarda. Sim, é ele o desafiante que somou rapidez, força e sabedoria para vencer o passado e decretar um novo tempo.

Claro, nem tudo é tão lúdico e incrível como uma parábola. Kamasi Washington faz, a todo o tempo, referência a mestres como John Coltrane e Pharoah Sanders. Veste-se com roupas africanas e tem influência declarada do afrobeat. Sem falar do namoro com o hip hop e o soul.

Este jovem saxofonista gosta de histórias. Em uma delas, narrada no site oficial, um Kamasi Washington de apenas 13 anos pega às escondidas o saxofone alto do pai e interpreta, sem nunca ter tocado o instrumento, um tema de Wayne Shorter.

Depois veio a fase de estudos arraigados, incluindo a graduação na UCLA (University of California), período em que consolidou amizades com a maioria de seus colaboradores atuais.

Com embasamento teórico e prático, Kamasi Washington tornou-se um grande saxofonista e passou a olhar a composição com a seriedade necessária. Para completar, tocou com gigantes como McCoy Tyner, Freddie Hubard, Kenny Burrell, Quincy Jones e até popstars como Lauryn Hill e Chaka Khan. Brilhou com mérito no disco To pimp a butterfly (2015), de Kendrick Lamar, e partiu para voo solo, levando os amigos.

São eles: Stephen Thundercat Bruner (baixo elétrico), Ronald Bruner Jr. (bateria), Miles Mosey (contrabaixo acústico), Tony Austin (bateria), Brandon Coleman (teclados), Cameron Graves (piano), Ryan Porter (trombone) e Patrice Quinn (voz). Com uma ou outra diferença de formação, esses instrumentistas formam dois coletivos: a The Next Step e a The West Coast Get Down.

A formação é essa mesmo: duas baterias, dois baixos (elétrico e acústico) e dois teclados (eletrônico e acústico), além de sopros, voz, um coro do qual fez parte a cantora brasileira Thalma de Freitas e uma orquestra de cordas.

O resultado é grandioso, com Kamasi e companhia oscilando entre caminhos mais tradicionais até flertar com o free jazz. Muito do que o disco apresenta, e apesar do esforço coletivo pela inovação, vem do cenário jazzístico dos anos 60, quando o jazz modal virou febre com A love supreme (1964), de John Coltrane. A capa retrô, por exemplo, lembra os álbuns em que Sun Ra buscava outras dimensões.

Mesmo sem delimitar uma nova era no jazz, como pretendia seu autor, The Epic é um ótimo disco. Feito com maestria, construído com inteligência, com admiráveis costuras a trançar vozes diferentes, apresentando climas que vão da apoteose épica cercada de cordas ao groove dançante de um teclado soul/funk, o álbum triplo traça uma continuidade entre as inovações dos anos 60, especialmente harmônicas.

Será que essa nova geração decidida a se arriscar pelo jazz, saindo da zona de conforto, consolida a troca de guarda proposta pelo disco? Talvez ainda seja cedo para concluir. The Epic é menos revolucionário do que se pressupõe. Mas gera boas expectativas por apresentar um autor disposto a seguir o caminho mais difícil.

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