Cristiano Alves lança CD em homenagem aos 90 anos de Osvaldo Lacerda

Cristiano Alves por Cinthia Pimentel (Divulgação/Cinthia Pimentel)

Cristiano Alves por Cinthia Pimentel (Divulgação/Cinthia Pimentel)

 

Cristiano Alves tinha dez anos e se apaixonou pelo clarinete ao ver a Banda de Música do Colégio Salesiano Santa Rosa passar pelas ruas de Niterói. Ele, que já estudava flauta doce, ficou impressionado com o som daquele “canudo preto”. Tanto que entrou para a banda.

A carreira do músico reflete a maleabilidade do próprio clarinete, instrumento com boa extensão de notas e versatilidade compatível com os mais diversos gêneros musicais.

Logo Cristiano Alves estava tocando ao lado de Caetano Veloso, Chico Buarque, Zeca Pagodinho e outros nomes do cancioneiro popular.

Também emplacou uma carreira acadêmica – fez doutorado pela Unicamp e é professor de clarinete na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de atuar como colaborador na Orquestra Petrobras Sinfônica (Opes), Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).

Seguindo o conselho de Radamés Gnattali, Cristiano Alves não faz distinção entre música popular e clássica. Como, de certa, forma, Osvaldo Lacerda, compositor homenageado pelo clarinetista no disco A música de Osvaldo Lacerda para clarineta vol. 1, lançado pelo selo A Casa com produção do compositor Sergio Roberto de Oliveira. O vol. 2 deve sair no ano que vem, quando Osvaldo Lacerda completaria 90 anos.

Ambos – Osvaldo e Cristiano – se conheceram por volta de 2008. O convívio foi importante para que o clarinetista conhecesse mais profundamente o pensamento do autor, alcançando uma compreensão mais ampla das obras.

Osvaldo Lacerda foi um compositor profundamente ligado às próprias origens, e desenvolveu sua linguagem sem flertar com os movimentos mais experimentais que surgiram na música do século 20. Seguiu clara e conscientemente seu rumo, sua sina, sua lida musical cada vez mais apurada e desenvolvida dentro da própria e infindável busca, que incluía um olhar apurado para a cultura popular brasileira, repleta de choros, modinhas e serestas, dentro da escola nacionalista.

Também sabia da importância do intérprete,

“intermediário indispensável entre compositor e público, pois é quem dá vida à música morta no papel”,

escreveu sobre o tema Improviso, incluído no CD.

A música de Osvaldo Lacerda para clarineta vol. 1 está à venda na Tratore. Também está disponível nas plataformas digitais Spotify, Deezer, Google Play e iTunes

Sobre o novo disco e a importância de Osvaldo Lacerda, Cristiano Alves conversou por e-mail com a Máquina do Som.

Cristiano Alves por Cinthia Pimentel (encarte do CD)

Cristiano Alves por Cinthia Pimentel (encarte do CD)

Você conviveu com Osvaldo Lacerda em 2008… Dizem que o maestro era um homem culto e afável. No encarte do disco, há várias citações do compositor. Ele falava muito sobre música? Discorria sobre a própria obra? 

Lacerda era, de fato, um homem extremamente culto e amável! Gostava muito de falar sobre música e arte em geral. Ouvi-lo discorrer sobre obras e particularidades de compositores e contextos artísticos era sempre uma verdadeira aula. Falava também sobre sua visão enquanto artista e cidadão brasileiro e sua obra retrata muito do que pensava, sentia e vivia.

O que está reservado para o segundo disco, que será lançado em 2017?

Constarão do volume 2 uma série de quintetos de sopros (três), além de uma peça solo, uma obra com piano e outra com marimba.

Cristiano Alves capa CD

A clarineta é, sem dúvida, um instrumento que chamava a atenção de Osvaldo Lacerda. Como o mestre tratava o instrumento em suas composições? As obras para clarineta de Lacerda são prazerosas de tocar ou trazem muitos desafios?

Lacerda conhecia bem a clarineta! Escrevia com extremo bom gosto, acurácia, elegância e suas obras revelam desafios artísticos muito interessantes. Aliar domínio de emissão do som, com demandas técnicas e fraseológicas bastante requintadas, exige do músico extremo conhecimento do conteúdo musical, bem como do entendimento de performance e interação camerística. Confesso que amo tocar as obras do mestre. Não há peça que não me agrade! Somos privilegiados por termos tão valiosa produção!

O que a música de Osvaldo Lacerda, que completaria 90 anos em 2017,  pode ensinar ao músico contemporâneo? Que lições podemos tirar de sua obra?

Particularmente, considero que uma das mais valiosas lições extraídas desta imersão na obra de Osvaldo Lacerda foi perceber que, acima de quaisquer preocupações ligadas a estilo, linguagem, vanguarda ou tendências, existe a verve pulsante do compositor comprometido com ideias e caminhos autênticos!

Não há clichês ou amarras, necessidade forçosa de aceitação ou comprometimento com futilidades. Sua obra retrata o que o mesmo deseja comunicar! Acho isso muito importante. Concessões rasas não lhes pareciam adequadas. Sua intenção era colocar sua impressionante capacidade artística, cultural, intelectual e cognitiva à serviço de composições “verdadeiras”, que estabelecessem elos consistentes entre os agentes envolvidos nesta cadeia. Sua obra me diz muito e busco, através do que entendo, estudo, sinto e vivo ao estabelecer contato com esta, expressar a essência do que imagino ser sua intenção maior!

https://www.youtube.com/watch?v=ekHXNq7qNiQ

A clarineta tem uma boa extensão e uma versatilidade que a leva do choro ao jazz, da música clássica às bandas… Como você vê a formação do clarinetista? O que é preciso para se tornar um bom clarinetista?

A clarineta é um dos instrumentos mais versáteis, ágeis e facilmente adaptáveis aos distintos estilos e gêneros. Isso é sensacional! Temos, no Brasil, uma história rica no concernente a grandes clarinetistas. Essa tradição segue firme, de norte a sul, leste a oeste! Em todos os campos de atuação, nossos artistas se destacam. Muito se deve à força das bandas de músicas, bem como a boas instituições de ensino e, sobretudo, a grandes mestres! Na busca por tornar-se um destacado clarinetista, acredito ser necessária a plena compreensão de que a qualidade da prática é de fundamental importância.

Estudar muito, comprometer-se, otimizar patamares de disciplina, planejamento e organização, além de boas ferramentas (cadernos de estudos, rotinas e ações deliberadas de crescimento artístico, bem como bons instrumentos e acessórios) são muito relevantes. Um professor qualificado é absolutamente valioso, assim como o desenvolvimento de uma sensibilidade artística aguçada, enriquecida por meio de uma visão do mundo, da profissão e da vida que revele generosidade, ausência de preconceitos e estabelecimento de objetivos belos enquanto natureza e contribuição social, não apenas pela mera grandiosidade de um desafio em si.

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