A musa do Bar do Vado

Foto: Ranulfo Pedreiro

Foto: Ranulfo Pedreiro

O boteco do Vado era assim: vendia pinga, cerveja e só. Talvez um amendoim para salgar.
Vivia cheio de picaretas, papudos, bêbados, um tré-lé-lé de palavras sem cacife.
Muvucava. A turma se entendia na falta do tostão. Vado não fiava. Mas a cerveja era barata que só e qualquer moedinha, somada, virava uma garrafa.
Som, não tinha. Cadeiras e mesas de lata enferrujada, patrocinadas por uma cerveja que já não existia. O jogo de damas era de tampinhas, com tabuleiro riscado a canivete. Ai de quem não decorasse as marcas do baralho. E tinha a sinuca, bola oito faltando, famosa pela descaída na caçapa esquerda ao fundo.
O vermelhão do piso foi substituído por cimento frágil, marcado por fregueses que não esperaram a massa secar. Pegadas. tampinhas, bitucas, rótulos, talheres e até uma fivela de cinto compunham o chão de aspecto arqueológico.
Mulheres atravessavam a rua. Não que faltassem convites, acintosos, praticados pelos cachaceiros espalhados na calçada: “Chega aí, tesouro”.
Melissa, porém, era soberana.

 

O vermelhão do piso foi substituído por cimento frágil, marcado por fregueses que não esperaram a massa secar. Pegadas. tampinhas, bitucas, rótulos, talheres e até uma fivela de cinto compunham o chão de aspecto arqueológico.
Mulheres atravessavam a rua. Não que faltassem convites, acintosos, praticados pelos cachaceiros espalhados na calçada: “Chega aí, tesouro”.
Melissa, porém, era soberana.

Pensam em mulher da vida? Que nada! Adevogada e gostosa. Aparecia em segredo, após expediente, para brilhar no palco particular. Patrimônio. Ninguém botava a mão.
Parava a caminhonete na esquina de cima, descia como quem não quer nada, olhava para os lados e tchuf!, entrava no botequim. A turma aplaudia.
Lá dentro, tratamento à altura.
-Minha princesa quer pinga?
-Quero.
Não aceitava cafuné, conversa mole, mão boba. Atrevidos eram expulsos a pontapés. Com a Melissa ninguém podia.
Se ela chegava discreta? Ave, sô! Largava o paletó do conjunto no carro e entrava num decote que por Deus! A calça justa expunha curvas de loucura, iluminando os desdentados, capazes de adivinhar roupas íntimas infinitas.
Respeito, porém, sobrava. Melissa era bem público, fonte iluminada em dia de quermesse. Ai de quem se atrevesse!
Piadinhas apimentadas faziam-na rir. Sem palavrão. Caso contrário, a desfeita assustava a dama e ela se ia, pisando forte. Já teve morte por causa disso.
Raros, como o Mané Carreteiro, conquistavam intimidade a ponto de cochichar borboletas no ouvido da musa. Ele esperava Melissa perder as estribeiras para exibir a tatuagem de bandeira, tremulante na contração do bíceps.
Ela gargalhava. E só.
Certo dia, a coluna social rodou de mão em mão, mais lida que o caderno de esportes.
Melissa casou-se com um eminente produtor de soja.
Mané Carreteiro mandou descer duas garrafas da branquinha.
E o bar do Vado fechou as portas com o silêncio dos mortos.

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