Evinha: uma voz além do tempo

Evinha por Robson Galdino (Maison Minigam)

Evinha por Robson Galdino (Maison Minigam)

 

Radicada na França, cantora carioca que integra o Trio Esperança está lançando um disco intimista com o marido, o pianista Gérard Gambus

 

Ela ainda era uma criança quando conheceu o sucesso, ao lado dos irmãos Mário e Regina Correa, formando o Trio Esperança no Rio de Janeiro em 1958. Já nos anos 60, Evinha (Eva Gambus) era frequente nos programas de auditórios de rádio e tevê, marcando presença no famoso Jovem Guarda, apresentado por Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa.

 

O Trio, reconhecido pela harmonia vocal, funcionou como uma escola de afinação. Evinha aprendeu a usar com precisão todos seus recursos vocais, sem levar o timbre ao limite. A técnica foi preponderante para que esta cantora carioca, radicada na França, preservasse a voz com incrível durabilidade. Ainda hoje, ela canta nos tons originais. É como se o tempo não tivesse passado.

 

 

Em 1968, Evinha seguiu carreira solo – o que não implicou no fim do Trio Esperança, que permanece na ativa e já passou por algumas formações, sempre composto pelos músicos da família Correa, já famosa por gerar os Golden Boys.

 

Depois de lançar vários discos – Eva 2001 (1969), Eva (1970), Evinha (1973) e Eva (1974) –, ela trabalhou com o orquestrador francês Paul Mauriat durante uma turnê pelo Japão. Foi quando conheceu o pianista Gérard Gambus, com quem se casou, fixando residência na França.

 

Quase quatro décadas se passaram até que ambos, Evinha e Gérard, produzissem um disco intimista, apenas em duo.

 

Uma voz, um piano, lançado pela Des Arts, traz músicas que Evinha não deixa de cantar, como Teletema, Cantiga por Luciana e Casaco Marrom. Mas vem, também, com inéditas de Caetano Veloso, Fernando Brant, Ivan Lins e Antonio Adolfo, entre outros. O disco tem distribuição nacional e pode ser encontrado em plataformas como o Spotify.

 

Em julho, Evinha esteve no Brasil e conversou, por telefone, com a Máquina do Som.

 

 

O novo disco (Uma voz, um piano) traz canções inéditas e sucessos que marcaram sua carreira. Mas a grande novidade, talvez, é o fato de você gravar com seu marido ao piano…

EVINHA – Exatamente, esta ideia veio depois de um show que nós fizemos em São Paulo no início do ano passado. O show tinha um momento com duas ou três músicas em piano e voz e o público adorou.

Fomos jantar depois do show e o produtor Thiago Marques Luiz sugeriu gravarmos um disco em piano e voz. Isso amadureceu, e depois eu falei: “Olha eu tenho uma vontade muito grande de cantar uma música inédita”.

Aí eu me comuniquei com o Ivan Lins e ele imediatamente falou: “Ah, eu te dou duas músicas que tenho guardadinhas”. Aí me empolguei toda, o Gérard – que é meu marido – também.

De repente, o Antonio Adolfo e o Tibério Gaspar me disseram que dariam uma canção também, eles são os autores de Teletema, com quem eu me entendo muito bem. E a gente se conhece há 40 anos.

A partir daí, tem Dalto com Fernando Brant, eu acho que foi a última letra do Fernando Brant antes de ele morrer. Foi a última letra que ele fez, eu fiquei muito orgulhosa de cantar uma letra do Fernando Brant que fala do amor. E tem Guarabyra, Renato Correa [irmão de Evinha]… O Gérard fez também uma música para mim com Carlos Colla.

E o disco acabou tendo várias inéditas, em vez de uma inédita e várias releituras.

Trabalhamos de uma maneira completamente diferente. Há muito tempo que eu não gravava, mas nós conversamos muito antes de elaborar esse trabalho e chegamos à conclusão de que seria realmente piano e voz. E o Gerard fez não somente o acompanhamento como o arranjo pianístico. Ele é o homem-orquestra.

Eu gostei muito desses arranjos que ele fez ao piano porque a gente não mistura muito vida de marido e mulher e vida profissional.

Então foi muita conversa sobre como a gente iria abordar as músicas e deu tudo certíssimo.

Nós estamos supercontentes com o resultado porque são músicas de compositores amigos e meu irmão Renato, músicas com melodias maravilhosas e letras maravilhosas. Deu tudo certinho, foi com muito orgulho que a gente gravou esse CD.

 

E por que vocês não tiveram essa ideia de gravar voz e piano antes?

Há muitos anos eu não gravava um CD de músicas inéditas. A partir do momento em que fui morar na França, nós formamos – Regina, Marisa e eu – uma terceira formação do Trio Esperança. Antes era o Mário, a Regina e eu. Depois foi Marisinha, Mário e Regina.

Na terceira formação da Trio Esperança, nós gravamos lá na Europa. Gravamos vários CDs, fomos disco de ouro, nossa carreira foi superbem. E nós continuamos fazendo shows.

Isso me afastou um pouco da carreira solo. Foi justamente no ano passado nós [Evinha e Gérard] fizemos três shows em São Paulo e foram um sucesso, o público gostou.

 

Sua voz casa muito bem com o piano.

A ideia foi dele [Thiago Marques Luiz], mas foi muito prazeroso fazer esse disco, foi com muito carinho, muito bem pensado, para o público mesmo.

Nós queríamos dar ao público esse sentimento que a gente tinha. E eu acho que o disco está sendo bem aceito.

 

Você vem ao Brasil com certa frequência, acho que duas vezes por ano, mais ou menos.

No mínimo duas vezes por ano.

 

Como é voltar ao Brasil? Você sente que as coisas mudaram?

A emoção é a mesma. Infelizmente a crise prejudicou muito tudo aqui. A primeira palavra que me veio na cabeça quando você me perguntou isso é emoção.

Porque eu fico nove meses lá e três meses aqui, digamos. Das três vezes que eu venho, fico um mês a cada vez. E neste mês eu fico observando e me observando em relação ao carioca. Eu sou carioca e morei no Rio.

Quando eu venho – a não ser que tenha show com meus irmãos, a gente viaja e tal –, fico radicada no Rio. Eu adoro e infelizmente não saio muito da minha casa ou da parte da praia, mas eu sei que tem violência agora. A violência existe em tudo lugar do mundo.

Eu não faço ostentação. Venho para ver minha família, para curtir, para tomar um chopinho.

A gente veio em dezembro do ano passado e foi uma coisa maravilhosa, eu trouxe minha filha e nossa neta, que tem três anos e veio conhecer o país da avó. Eu achei muito emocionante isso e tudo aconteceu otimamente bem.

 

 

Como você sente o ambiente musical de hoje, principalmente no Rio de Janeiro?

Eu fiz um show na Net Rio em 5 de julho e, antes desse show, eu me isolei da música porque eu nunca tinha feito um show com piano e voz. Nós começamos a ensaiar 24 horas por dia, quase, para sair tudo direitinho.

Sabe, é uma nova maneira de cantar, uma nova maneira de interpretar as músicas. Depois disso, eu levei mais uns três dias para me recuperar da emoção.

Eu ouço muito as pessoas falarem que a música brasileira infelizmente virou aquelas músicas que não têm muita harmonia e belas melodias como existiam antes.

Eu tenho grande respeito por outros compositores e outros cantores, mas seria tão bom se eles fizessem uma música de qualidade, como tinha até a geração de Djavan, Ivan Lins, Marcos Vale… Esse pessoal todo compôs muitas coisas lindas.

Tem muitos talentos jovens que cantam músicas de uma sociedade de consumo. Pega a música, ouve, faz sucesso e pronto, acabou. Ninguém lembra mais, infelizmente.

 

Você surgiu num ambiente de efervescência, os anos 60 foram muito transformadores para a música brasileira.

Foram, foram. Eu não me dava conta disso porque eu era criança. E quando eu me tornei adulta, eu entendi o que era.

Eu ia para São Paulo fazer o programa do Roberto Carlos e era pura festa, então nunca me dei conta desse movimento.

Nós fizemos uma carreira e tivemos muita sorte porque foi sempre uma oportunidade que vinha, e a gente pegava o bonde andando. Eu não me dava conta de que a gente tinha um nome forte.

 

Como é que a música brasileira chega na França hoje? Como é que vocês veem a música brasileira por lá?

Poucos compositores chegaram lá depois de Vinícius, Baden Powell e Tom. Esse pessoal foi superconhecido lá, como Jorge Benjor. Djavan chegou a fazer bastante sucesso.

Depois disso, os jovens daqui não chegam nem de brincadeira lá, simplesmente não conhecem.

Mas a música brasileira é muito querida, respeitada demais.

Nós [Trio Esperança] fizemos um repertório no último disco mostrando a música brasileira e a música francesa, em homenagem à França pelos 20 anos que a gente faz uma carreira lá, e foi muito bem aceito.

Nós fizemos versões de músicas francesas em português, o português do Brasil é muito bem aceito por lá.

 

Como você se sente cantando músicas como Teletema, Casaco Marrom e Cantiga por Luciana, que marcaram também uma geração? Você se emociona ainda?

É claro, né? Essas músicas fazem parte da minha vida. Até eu não puder mais cantar, vou cantar essas músicas porque elas fazem parte de meu sangue, quase.

 

E também, agora, chegam a novas gerações.

Exatamente. A Sandy, cantou Cantiga para Luciana e eu achei isso muito bonitinho. A gente não se conhece e ela cantou num programa, acho que foi em São Paulo. Por acaso alguém me mandou essa versão dela. Eu achei muito bonitinho a nova geração cantar uma música que tem 40 e poucos anos já.

Tomara que com essa novo disco… Eu vou vir mais vezes, eu vou vir esse ano, se Deus quiser, fazer mais shows e justamente falar para essa nova geração que a gente está aí. E tá tudo direitinho ainda, mesmo sendo avó.

 

E a intenção, voltando para a Europa, é mostrar o repertório por lá? Você já fez isso?

Eu tive uma proposta de uma gravadora independente, de lá, para lançar o disco na França. Pouco antes da vir para o Brasil dessa vez, eles nos propuseram esse lançamento.

Então estou pensando muito, claro que é uma oportunidade, uma gravadora que chega para você e fala: “Olha, queria lançar o seu disco aqui”. Então é ótimo, claro. Assim que nós chegarmos, nós vamos estudar essa proposta e pesar os prós e os contras e ver qual seria a reação das franceses com um primeiro disco piano e voz.

 

O tempo passa mas a voz continua a mesma. Você se cuida muito? Como é que você faz? Tem alguma dica para preservar a voz?

 

Com o Trio Esperança nós cantamos essencialmente a cappella, às vezes acompanhadas pelo Gérard ao piano.

O máximo que tem é um piano, então isso exige muito exercício, muita disciplina também. Não é uma disciplina de ficar todo dia, como os cantores líricos, fazendo exercício, não é nada disso… Mas a gente conserva um pouco as cordas vocais, que são músculos.

Não sei porque que minha voz não mudou, que bom ouvir isso. As pessoas falam: “Não mudou nada a sua voz”, eu não sei.

O exemplo que tenho é que eu canto Cantiga para Luciana, Casaco Marrom ou Teletema no mesmo tom que eu cantava quando tinha 20 e poucos anos.

 

Serviço

Uma voz, um piano (2016), de Evinha.

 

Faixas

1 – Alguém cantando (Caetano Veloso)

2 – Ilha deserta (Zé Rodrix)

3 – Lição de amor (Dalto/Fernando Brant)

4 – Do jeito que você tem (Ivan Lins/Eduardo Gudin)

5 – Foi de graça (Renato Corrêa/Guarabyra)

6 – Uma ponte entre Rio e Paris (Gérard Gambus/Carlos Colla)

7 – Aprender com o mar (Ivan Lins/Abel Silva)

8 – Caminho da razão (Bach/Gérard Gambus/Eva Gambus)

9 – Teletema (Antonio Adolfo/Tibério Gaspar)

10 – Cantiga por Luciana (Edmundo Souto/Paulinho Tapajós)

11 – Em cima da hora (Gérard Gambus)

12 – Virou lágrimas (Luiz Wagner)

13 – Meu canto (Antonio Adolfo/Tibério Gaspar)

14 – Casaco Marrom (Renato Corrêa/Danilo Caymmi/Guarabyra)

 

Ficha Técnica

-Produção: Gérard Gambus

-Produção executiva: Des Arts

-Piano: Gérard Gambus

-Gravado e mixado no estúdio Malambo (França) em fevereiro de 2016

-Gravação: Quentin Gilet

-Mixagem: Laurent Compigne

-Masterização: Julio Castanheira (Estúdio ômega, Niterói/RJ)

-Design Gráfico: Raphael Imenes

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *