Draminha

Foto: Ranulfo Pedreiro

Foto: Ranulfo Pedreiro

Ela atravessou a rua e, do outro lado, acenou-lhe um tchau. Tudo estaria bem caso o pescoço não voltasse para revelar, entre cabelos balançantes, o olhar que mais pareceu um turbilhão de dúvidas.

 

Ele ficou se remoendo, até que um pensamento nasceu e se avolumou, fermentado por inseguranças obscuras, transformando a olhadela de Lisandra em uma discreta despedida. Sim, era isso. Um adeus!

 

Sentiu vertigem, o mundo perdeu a lógica. A calçada fragmentava-se sob seus pés enquanto Lisandra caminhava soberana pelo outro lado da rua, sem perceber que espalhava o caos.

 

O pobre rapaz se desconfigurava: dedos, braços e pernas ameaçavam flutuar aleatoriamente por dimensões inimagináveis de um universo em dissolução.

 

Os cacos já iam longe, mas foram reunidos subitamente por uma voz adocicada:

 

-Jefferson?

-Li-Lisandra?

-Você está no mundo da Lua…

-É que…

-Eu sabia que tinha esquecido alguma coisa… Tá aqui, é a chave de casa.

-Puxa, eu…

-Vai me dizer que já estava rolando um draminha?

-Claro que não, imagina, como você é exagerada.

-Te espero às oito, tá? Tchau!

 

Um beijo rápido na boca e as leis da física voltaram à naturalidade. O mundo era outra vez sólido e estável.
Ele enfiou as mãos no bolso e dobrou a esquina assoviando uma conhecida canção… de quem, mesmo?

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