A velha Rural

Foto: FCA Press - www.fcapress.com.br

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Era uma Pick-Up Willys 1975, verde-oliva, derivação da Rural, com três marchas no câmbio grudado ao volante – a quarta era ré, apertava-se um botão para engatar. Chegava no máximo a 70 por hora.

Mesmo assim iluminava aquelas manhãs – todas as manhãs deveriam ser iluminadas aos 15 anos, não fosse a adolescência a mais tempestuosa das idades – em que eu saía logo cedo de Cambé rumo ao sítio, em Arapongas, pegando a BR-369 e rezando para não cair numa blitz.

Uma vez na roça, tudo era trabalho: carregar sacos de estopa cheios de casulo de bicho-da-seda até a valente Rural alertar para o excesso de peso entortando os amortecedores num gemido.

Jogava-se a lona azul por cima, apertava-se com o nó Carioquinha, colocando todo o peso do corpo para segurar a carga e impedi-la de se deslocar no caminho.

Então eu tocava (naquela época o verbo dirigir era facilmente substituído por tocar) para a Bratac, em Londrina, para vender a safra na empresa de fiação de seda. Sem carteira de motorista.

Numa tarde, o Sol já se despedindo, veio a chuva. O limpador de para-brisa capenga dançava fora do compasso e, pior, enlameava o vidro, fragmentando os faróis que vinham em sentido contrário na estrada de pista simples.

Enquanto a rodovia ganhava contornos abstratos, a caminhonete foi pendendo para a direita até estalar a carroceria. Parei.

Um nó mal dado se desfez e a carga ameaçava despencar. Foi preciso empilhar novamente os sacos enquanto a chuva gelava o corpo.

O Carioquinha é um conjunto de vários nós, formando uma espécie de alavanca para prender melhor a sacaria. Mas a água escorria pelos braços e fazia a corda escorregar entre os dedos.

Em algum momento, naquele acostamento enlameado, a infância finalmente se despediu.

Era preciso chegar à Bratac antes de molhar ainda mais a carga, e o jeito foi seguir com amarração improvisada e insegura, em velocidade mínima.

O vidro embaçava ou sujava de lama, era necessário abrir a janela e passar o pano pelo lado de fora do para-brisa sem parar de dirigir. E o povo preocupado em casa.

Até que a Bratac surgiu feito aparição do lado esquerdo da pista, após o imenso trevo entre Londrina e Cambé.

Ainda foi preciso negociar o preço, já que parte dos casulos estava molhada. O dinheiro veio pequeno.

Mas estava no bolso e a caminhonete foi embora como os velhos cavalos trotam sozinhos para o curral após um dia de trabalho.

Hoje não há mais sítio, nem Pick-Up Willys verde-oliva.

Restou uma noite de luzes confusas a se distanciar na memória.

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