Familiaridades

Foto: Ranulfo Pedreiro

Foto: Ranulfo Pedreiro

 

Ela abriu os braços, à soleira da porta, e tascou: “Voltei!”.

 

Ele se espantou a ponto de as mãos sobrarem, pupilas dilatarem e o raciocínio engasgar. “Sorria”, ordenou-se calado. Mas a boca hesitou, os músculos se contraíram mal esboçando os dentes amarelos. Saiu uma careta.

 

Não se viam há anos.

 

Ele se perguntava se ainda eram amigos de infância, companheiros de estripolias que entraram na adolescência carregados por uma profunda descrença na humanidade, antes de engatarem um romance.

 

Ainda traziam – mais na memória do que nos atos – reflexos desse espírito, agora isolado por um grande deserto chamado Distância.

 

Mas, se formos especular na época das bebedeiras proibidas, das noitadas adolescentes, das aventuras inventadas, encontraremos uma discreta e quase invisível rusga.

 

Disfarçada pelo companheirismo, a diferença encontrava uma brecha nas discussões eternas sobre bandas de gosto duvidoso. Ele gostava de Slade, Quiet Riot e Twisted Sister. Ela preferia Warlock, Styxx, Icon e Mötley Crüe.

 

Os brincos se multiplicaram nas orelhas, as tatuagens encheram os braços, mas o casal raramente se entendia. O cotidiano era de idas e vindas, brigas e reconciliações.

 

Estavam nesta fragilidade quando apareceu o playboy de cabelo penteado e camisa por dentro, falando sobre carros esportivos e hotéis internacionais. Não é que ela caiu no papo?

 

***

 

Os anos se passaram, os piercings sumiram e ele trocou a guitarra por um violão. Embalava churrascos universitários tocando músicas de protesto.

 

No fim das festas, cantava uma canção própria, discreta e romântica, sobre amor renegado, varrido para baixo do tapete.

 

Teve um rolo ou outro, namorou raras vezes. Julgava-se imune a relacionamentos.

 

Até ela bater na sua porta e cutucar essa nódoa entranhada lá onde a razão se perde.

 

Lembrou de João Cabral: “Uma faca só lâmina”.

 

Pois as mágoas brotam de sentimentos sepultados, crescem, ganham corpo e ramificações, galhos, folhas, raízes, e costumam ser cultivadas secretamente.

 

E agora havia, à sua frente, a mais bela mágoa, imensa e sorridente, encarando-o com olhos cinzas em busca de familiaridades do passado.
Mas era tarde. Já não se conheciam.

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