A cidade das lendas

Foto: Ranulfo Pedreiro

Foto: Ranulfo Pedreiro

Ontem o dia amanheceu chuvoso e cinza. E me lembrou de União da Vitória, onde a chuva fazia estragos e causava tremenda preocupação.

A cidade paranaense fica numa curva do Rio Iguaçu, que costuma transbordar e provocar enchentes. Nos idos da década de 70, isso era sinônimo de falta de energia elétrica e, claro, muitas lendas.

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Meus amigos de escola viram o Boitatá passando feito uma bola de fogo por baixo da imensa ponte. Quem há de negar?

Também foi lá que ouvi pela primeira vez sobre a Loira do Banheiro – até hoje não sei qual era o perigo, já que todos corriam antes que o fantasma pudesse ao menos se manifestar.

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O colégio de freiras onde eu estudava foi construído em um terreno de acentuado declive e, por isso, tinha imensas paredes.

O pátio do recreio ficava em um aterro elevado, cercado por profundos e silenciosos corredores habitados por um… vampiro. Eu sei, vampiros e freiras não se bicam, mas era assim.

Um dia, cometi a imprudência de derrubar a lancheira. Ela caiu silenciosamente para os confins do desconhecido.

Como o além não me causava mais medo do que minha mãe, lá fui eu descer as escadas misteriosas.

Mal tinha dado alguns passos e vi, juro que vi, uma sombra sinistra, um urubu gigante!

Corri feito nunca, sem ao menos me certificar do perigo: uma inocente e assustada freira.  

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União da Vitória mistura-se a Porto União e faz a divisa entre Paraná e Santa Catarina. Eu vivia a estranha rotina de morar no Paraná e estudar no estado vizinho.

Um dia, em frente de casa, houve um curto-circuito: o fogo saía da fiação e ia estourando as luzes dos postes em altos estrondos. Coisas de União da Vitória.

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A casa tinha um quintal imenso e uma piscina de cimento eternamente vazia. Dentro, pintamos peixes com tinta guache. Tudo era cercado por um muro extenso e largo, por onde caminhávamos diariamente em busca de aventuras.

Havia um canto do quintal cheio de entulho e tijolos velhos, logo transformados no Super Secreto, clube cuja entrada se dava pelo teto, afastando as telhas de Eternit.

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Outra peculiaridade desse tempo era um pintinho amarelo que minha irmã ganhou. Surpreendentemente, o bicho cresceu e virou um gordo e bravo galo.

O quintal era seu território. Apenas minha irmã podia se aproximar sem sofrer ataques.

O galo me odiava. Eu o ouvia correr com as patas pisando firmemente o solo em minha direção: bum-bum-bum. E logo me atacava em voo rasteiro e esporas em riste. Uma vez me bicou perto do olho. Ser dos infernos.

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Mas de todas as histórias e lendas de União da Vitória, a que mais me marcou dizia que a cidade era construída sobre um vulcão adormecido. Um dia ele acordaria, entrando em erupção.

Sinceramente? Eu tinha mais medo desse vulcão do que qualquer Guerra Fria, invasão alienígena, Skylab ou Bomba H.

União da Vitória era demais.

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