Norah Jones retorna ao jazz em Day Breaks

Reprodução/Capa do disco

Reprodução/Capa do disco

Confesso que olhei meio torto para Norah Jones quando o disco Come away with me (2002) saiu e logo foi aclamado pelos críticos como uma “revelação” do jazz.

O que me incomodou naquela época foi a discussão em torno de uma provável renovação do jazz quando o álbum estava mergulhado no pop de tal forma que acabou despertando uma nova direção para a gravadora Blue Note, que voltou a investir em jovens talentos.

Houve um tempo em que o jazz era pop, especialmente nos anos 1930. 

Mas no início dos anos 2000 o pop despejava seus clichês em emissoras como a MTV. Nessa época, o jazz era uma espécie de refúgio para quem não estava interessado no sucesso passageiro.

O tempo traz curas e soluções cultivadas pela paciência.

Hoje, livre do filtro do purismo, gosto de Come away with me.

***

Norah Jones está de volta com Day breaks (2016), um disco autoral que remete ao clima de Come away with me, mas com o benefício da experiência. Assim como o rosto da pianista/compositora não é mais de menina, seu apuro musical foi desenvolvido após uma série de andanças e desapegos.

Um deles foi o piano. Após Come away…, Norah passou a compor a maior parte de suas canções na guitarra, levando-a a outras linguagens, como o folk, o country e o indie/pop. Esse afastamento é perceptível em discos como Feels like home (2004) ou Little broken hearts (2013).

Paralelamente, a pianista desenvolveu projetos como a girl band Puss N Boots e o coletivo The Little Willies. São linguagens distantes da estreia com Come away e experiências válidas para que Norah Jones chegasse onde está hoje.

Há muitas diferenças entre Little broken hearts e Day breaks, por exemplo. A principal delas, talvez, sejam os dois filhos que Norah Jones teve em 2014 e 2016.

Pois foi na lida diária de cuidados com os bebês que Norah voltou a compor em um piano colocado na cozinha de sua casa.

Nas madrugadas que passava acordada, acabava tocando. Assim, novas canções surgiram com o surpreendente aconchego reavivado de Come away with me.

As músicas de Norah Jones ao piano têm intimidade imediata com o ouvinte: parecem cantadas ao pé do ouvido em tom confessional, como se contassem um segredo.

Há certo açúcar, mas não o suficiente para melar a composição. Especialmente porque, em Day breaks, os temas fogem da esfera romântica para alcançar tons políticos.

Afinal, ao contrário do que ocorre em nossa MPB, a música americana costuma refletir seus momentos sociais, particularmente a oposição Hillary-Trump.

Para completar, Day breaks conta com grandes instrumentistas: Brian Blade assume a bateria em diferentes faixas e o disco ainda traz participações de Wayne Shorter, lenda do saxofone, e Lonnie Smith, lenda do órgão Hammond.

O disco abre com a intimista Burn, sincopada pelo contrabaixo e mostrando como o jazz voltou a falar mais alto na carreira da compositora/pianista. É redonda, em acordes abertos e melodia bem desenhada, com o piano em primeiro plano e a serenidade de quem ganhou cancha com a vida na estrada.

Mas, em se tratando de Norah Jones, onde há jazz também há pop, soul, blues e folk. Mais radiofônica – o termo não surge aqui como uma crítica, mas pela capacidade de “grudar” no ouvido -, Tragedy ganha uma levada suavemente soul.

Flipside reforça o ritmo e destaca o teclado de Lonnie Smith. É a faixa mais pop e de pegada mais tensa inclusive no tema, com incursões sócio-políticas e refrão bem marcado.

It’s a wonder time for love surgiu por inspiração do hit Compared to what, de Les McCann, embora o resultado seja bem diferente, menos explosivo, inclusive no crescendo meio bluesy que destaca novamente o piano.

Day Breaks guarda ainda três covers muito bem resolvidos. O primeiro é Don’t be denied, que Neil Young gravou em Time fades away (1973). Norah se apropriou bem da música em versão com forte apelo melancólico.

O outro cover é uma homenagem ao pianista Horace Silver em Peace, quando Norah Jones aparece acompanhada por Wayne Shorter, Brian Blade e John Patitucci no contrabaixo. É de Shorter, aliás, o solo estonteante capaz de mostrar as entranhas da melodia.

Day Breaks fecha com Fleurette Africaine, de Duke Ellington, a faixa mais ousada do disco. A a melodia é apenas cantarolada com lábios fechados, enquanto o instrumental se encarrega do clima cheio e rico, característico de Ellington.

É o desfecho emocionante de um álbum minuciosamente trabalhado e concebido, um disco à parte na história de Norah Jones e por isso um turning point: a pianista/compositora volta para casa, mas já não é a mesma. Sua bagagem está repleta de experiências que os olhos não mostram, mas os ouvidos desejam.

Serviço

Day Breaks (2016), de Norah Jones (Blue Note). Disponível na Amazon, Google Play, Spotify, iTunes, Norah Jones Store.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *