Nelson Freire encontra Arthur Rubinstein

Artur Rubinstein em 1968

Artur Rubinstein em 1968

O pianista Nelson Freire costuma dizer que, para um concerto valer a pena, é preciso ao menos um momento de sublimação.

Quando Arthur Rubinstein – de quem Freire é admirador confesso – entra aristocraticamente no palco da Orquestra Filarmônica de Londres para interpretar o tortuoso Concerto nº 4 em Sol Maior (Beethoven), temos certeza: para ele, o sublime era fácil – ao menos parecia.

Tudo se deu em 1967 e chegou a ser registrado no DVD Heifetz-Rubinstein-Piatigorsky, da EMI Classics, antes de ir para o YouTube.

Antes que o leitor se assuste com os nomes – um tanto eruditos –, vale frisar que se trata de música boa e acessível.

Rubinstein interpreta uma peça em que o virtuosismo tende a aparecer mais do que o conteúdo, se for maltratada.

Mas o grande pianista não cai nessas armadilhas. Dribla os penduricalhos explorando um lirismo todo pessoal.

Beethoven ganha um tratamento sincero, nada exibicionista. Em 1967, Rubinstein estava com 80 anos e continuava em forma.

Assistindo, dá para entender por que o grande Nelson Freire tremeu nas bases quando foi visitar Rubinstein. O concertista veterano já estava doente. Freire foi apresentado pela argentina Martha Argerich.

Conversa vai, conversa vem, Rubinstein pede para Freire tocar um pouquinho. Fecha os olhos, sorvendo a música, até pedir ao brasileiro um prelúdio de Chopin que o próprio Rubinstein tocava maravilhosamente. Freire mandou ver, e foi elogiado. Um elogio inesquecível.

Rubinstein morreu aos 95 em dezembro de 1982 – há 34 anos. Nada menos que 57 anos foram dedicados aos concertos.

Quando ele morreu, eu só pensava em ouvir heavy metal.

Sei que nada substitui a música ao vivo, mas ainda bem que a tecnologia conseguiu congelar o tempo para que Rubinstein chegasse até nossos olhos.

E ouvidos.

Aliás, o documentário Nelson Freire, dirigido por João Moreira Salles e lançado em 2003, também está na íntegra no YouTube. Ainda não viu? Não perca tempo:

 

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