Comentário a respeito de Belchior

 

As lufadas de liberdade almejadas pelo sonho hippie chegaram ao Brasil, ironicamente, em plena ditadura.

 

Daí a música popular mais aguçada ganhar um aspecto melancólico, angustiante mesmo, principalmente ao tratar de temas como cair na estrada para ver a vida – uma liberdade paradoxalmente inatingível.

 

Ao mesmo tempo, boa parte da canção nacional ainda encarava o jovem sob o estereótipo ingênuo da jovem guarda. A mera curtição, tão caricata, foi atropelada pelos dramas do pensamento cerceado.

 

Belchior compreendeu tudo isso. Tirou a juventude do clichê para lhe dar a carga necessária de complexidade, carregada de dúvidas, rebeldia e desespero.

 

A canção ganhava, assim, um teor psicológico que traduzia a geração que viveu sob o regime militar.

 

Uma rebeldia interiorizada, sem roupas espalhafatosas ou carros velozes, mais concreta e enraizada na falta de lugar, na peça que não se encaixa, na resistência à realidade capaz de banir singularidades.

 

Belchior encarnou esse desajuste de forma intransigente. Daí os sumiços, os conflitos com a mídia, a vontade expressa de ser um antipopstar.

 

Quando seu nome voltava à baila, sendo redescoberto por novas gerações, Belchior poderia ter entrado na onda. Mas fez o contrário. O sucesso o apavorava.

Pouco importou a derrocada financeira. Buscou explicitamente a vida simples, o anonimato. 

 

Seguiu exatamente o que cantava: pôs o pé na estrada, esqueceu-se do dinheiro, sumiu no mundo sem dar satisfações. 

 

Morreu sem perder a coerência.

 

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