Mateus Gonsales e a arte do Trio

 

A faixa de abertura do disco Trio, lançado recentemente pelo pianista e compositor Mateus Gonsales, tem um sentido quase literal, caso palavras e notas pudessem se traduzir tão simultaneamente: Gratidão.

 

É simples. Mateus está grato pelo momento, pelo disco, pela vida. Dá para ouvir isso na faixa de acordes aconchegantes e melodia suave.

 

Também na primeira faixa revela-se a cumplicidade dos parceiros de empreitada, o contrabaixista Diogo Burka e o baterista Roger Aleixo, capazes de uma profunda compreensão dos caminhos buscados pelo compositor. Já de cara o entrosamento salta aos ouvidos.

 

Gratidão tem ainda o mérito de não escancarar o disco. Não está tudo ali, na primeira música. Pelo contrário. Trio tem camadas que vão se abrindo com a familiaridade.

 

Foi também o que revelou a conversa que tive com Mateus Gonsales em seu estúdio. É bom ver um compositor capaz de explicar tão tranquilamente a própria obra. Eu já havia gostado de Trio, mas o bate-papo revelou detalhes, tessituras e cozimentos que haviam escapado às audições.

 

Confira a entrevista no vídeo abaixo.

 

 

O desafio de gravar um disco com essa formação é destacado pelo próprio pianista. Pelo número reduzido de instrumentos, o trio abre espaços que podem ser bem resolvidos ou se transformar em incômodos vazios. Aqui, tudo se estrutura bem – incluindo improvisos certeiros -, seja pela qualidade dos instrumentistas, seja pelo entrosamento já destacado.

 

 

Como a formação já foi bastante explorada, havia o risco de se produzir mais do mesmo. Tropeço evitado em Trio com um curioso compromisso: Mateus Gonsales encomendou um disco a si mesmo.

 

As seis faixas autorais foram feitas em um fluxo criativo com momentos de relaxamento e tensão, que podem ser percebidos, por exemplo, se compararmos a bela Gratidão com o groove incisivo de Díspares.

 

O contraste é perceptível dentro das próprias composições. Díspares, por exemplo, sai do groove com mudanças de dinâmica para favorecer o respiro.

 

 

A única obra “emprestada” é Muita hora nesta calma, do pianista Paulo Braga, um solo de piano repleto de brasilidade.

 

Chama a atenção em Trio a estrutura harmônica capaz de surpreendentes mudanças de tons ou mergulhos modais, abrindo campo para que a melodia siga por caminhos nada óbvios. Também o ritmo, em andamentos complexos, tira o ouvinte do confortável 4×4, mas sem jogá-lo numa montanha russa de batidas. Tudo se casa sem sobressaltos.

 

 

E aí está outro segredo de Trio: a complexidade da forma não tira a naturalidade da música, que chega ao ouvinte com a devida força sedutora. 

 

Pode deixar tocando no carro, por exemplo. Logo você estará cantarolando alguns trechos. O ideal, porém, e sentar-se confortavelmente, abrir um vinho, e degustar Trio do começo ao fim.

 

O disco é imperdível para qualquer fã de música instrumental.

 

O CD tem distribuição da Tratore e também está disponível no Spotify, Deezer, Google Play e iTunes.

 

 

SERVIÇO

Disco: Mateus Gonsales – Trio

 

Mateus Gonsales: piano, rhodes e moog

Diogo Burka: contrabaixo

Roger Aleixo: bateria

 

 

Músicas:

1 – Gratidão (Mateus Gonsales)

2 – Díspares (Mateus Gonsales)

3 – Nuvens (Mateus Gonsales)

4 – Vitor (Mateus Gonsales)

5 – Introspecto (Mateus Gonsales)

6 – Muita hora nessa calma (Paulo Braga)

7 – De lá pra cá (Mateus Gonsales)

 

Gravado no Estúdio Primovere, em Londrina, em agosto de 2016.

 

Produção Geral: Mateus Gonsales

Produção Executiva: Leirton Marques

Produção de áudio: Júlio Anizelli

Direção de arte/projeto gráfico: Leonardo Faria

Fotografia: Ber Sardi

 

Patrocínio: Lei de Incentivo à Cultura, Moinho Globo, Almeida Mercados, Alex Canziani.

 

Realização: Ministério da Cultura e Instituto José Gonzaga Vieira
Apoio: Hemize Projetos e Primovere

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