Samuca do Acordeon: redescobrindo o fole

 

Samuel Costa começou a tocar o acordeon por volta dos 13 anos em Santo Antônio da Patrulha (RS). Logo tomou gosto pela coisa, tornando-se um jovem talento a brilhar nos CTGs (Centros de Tradição Gaúcha).

 

O tempo logo abriu-lhe os horizontes, os estudos se aprofundaram e Samuca do Acordeon decidiu que o instrumento – visto com certo preconceito pela ampla utilização na música regional – deveria se dedicar a um repertório mais abrangente.

 

Resolveu então reinserir o acordeon no choro, gênero brasileiro primordial e base sedimentar da música regional. Assim, aos poucos, o instrumento vai retirando o véu do folclore para também – uma coisa não exclui a outra e sabemos que a música regional merece respeito – ocupar novos espaços na cultura nacional.

 

É esse o tema da entrevista que o músico concedeu à Máquina do Som. Samuca do Acordeon se apresenta em Londrina neste dia 18 ao lado dos irmãos Giovana (flauta) e Gabriel (cavaquinho e percussão) – os detalhes do show estão logo abaixo.

 

 

Eu gostaria que você falasse um pouco do seu convívio com o instrumento, que começou muito cedo, não é?

Eu comecei a tocar acordeon e uns três dias depois comecei a mamar, né? Na verdade eu comecei a tocar acordeon com uns 13 anos, por aí, e participei por muito tempo dessa coisa dos CTGs (Centros de Tradição Gaúcha) – no Rio Grande do Sul tem bastante -, e concursos de acordeon – são cerca de 70 troféus dessa época, até 2001, 2002, mais ou menos. Participei de algumas bandas de baile. A música começou a acontecer para mim de uma maneira mais séria quando fui morar em Porto Alegre, em 2007, e em 2008 e 2009 eu comecei a conviver com o pessoal da música instrumental, comecei a estudar mesmo, levar a coisa mais a sério. Eu digo que a minha carreira começou mesmo profissionalmente em 2010. Foi quando eu lancei meu primeiro disco, comecei a conviver com alguns músicos que me ensinaram muito – e alguns ainda me ensinam muito, os que estão vivos. Então, para ser convencionado, não é muito tempo, de 2010 para cá. De lá pra cá eu tenho um CD solo (De tudo um pouco – 2010), um DVD (Fala agora – 2013), um CD com o Ricardo Herz (Novos Rumos – 2016), que é um violinista lá de São Paulo, e agora tem este CD com o Regional Imperial (2017), com participação de Yamandu Costa (violonista). Eu vou estar praticamente lançando o disco aí. O lançamento oficial foi neste ano, então eu vou levar para quem quiser adquirir.

 

 

Qual a origem do acordeon e como ele veio parar no Brasil?

O princípio do acordeon é da China, coisa de 3 mil anos antes de Cristo. Mas o modelo que a gente tem hoje é de 1840, por aí, e foi desenvolvido na Alemanha. Hoje o mercado se concentra na Itália. É onde tem o maior número de fábricas de acordeon. O acordeon está presente na música regional de praticamente o mundo inteiro. Na América e na Europa, toda a música regional tem o acordeon presente.

O acordeon entrou no Brasil com os imigrantes?

Isso, os imigrantes italianos e alemães trouxeram logo que vieram. Os alemães vieram primeiro, em 1840 ou 50, mais ou menos. Então eles trouxeram o acordeon para cá.

É um instrumento complexo na execução, com o sopro, o fole, a harmonia… Os músicos geralmente consideram difícil de tocar…

O acordeon é um instrumento difícil de aprender porém é fácil de tocar bem. O violão, por exemplo, é um instrumento fácil de aprender, mas é difícil de tocar bem. É muito comum a gente ver violonistas que não são grandes violonistas. O acordeonista, para ser profissional, precisa ter um nível mais elevado, são processos inversos. O violão é mais fácil de aprender e mais difícil de tocar bem, e o acordeon é o contrário. É mais difícil de aprender porque tem teclas, baixos e foles, são três coisas para cuidar ao mesmo tempo, mas depois ele se torna um instrumento fácil de tocar porque tem bastante recurso, serve como solista, como acompanhante…

 

 

Existe uma contribuição brasileira para o acordeon?

Na verdade essa mistura de etnias que formaram a música brasileira, como a música europeia, a música africana – ou seja, uma questão melódica e harmônica europeia com uma questão percussiva africana -, esse resultado foi muito positivo para todos os instrumentos que estavam inseridos no início deste movimento que deu origem à música brasileira. Se a gente for pensar, o choro veio passando pelo tango brasileiro, passou pelo maxixe, passou por vários processos até chegar a esse choro que foi praticamente concretizado através do Pixinguinha. Nesse resultado, com certeza eles desenvolveram uma maneira muito diferente de tocar acordeon. Toda música regional brasileira deve muito ao choro. A música regional é do acordeon. Na música nordestina tem a sanfona, na música do Sul tem a gaita, e todos esses movimentos culturais sofreram influência da música brasileira. Na época, o choro ocorria no Rio de Janeiro porque era a capital do Brasil, então todo movimento musical, para acontecer, tinha que partir de lá. Mas é um fenômeno que contribuiu para a música regional. E o músico regional contribuiu para a música nacional.

Como é a batalha para tirar o acordeon do clichê de instrumento regional?

No início eu sofri um certo preconceito porque as pessoas realmente não entendiam que choro se tocava com acordeon, que choro se tocava no Rio Grande do Sul, achavam que tinha só música gaúcha. Eu comecei a fazer algumas pesquisas, palestras e oficinas. E tenho conseguido, há algum tempo, provar que a música gaúcha veio do choro, do tango e da milonga argentina. Com isso, as pessoas passaram a respeitar um pouco mais, e hoje está tendo uma aceitação muito boa. Hoje eu sou um dos professores da Oficina de Choro do Santander Cultural, em Porto Alegre, onde a gente tem pelo menos 300 alunos de diferentes veias musicais, como a música gaúcha, o rock e o reggae. Estão todos ali estudando choro.

 

 

Quais são seus próximos projetos?

Nós temos um projeto em andamento, com algumas turnês já feitas no ano passado e neste ano, chamado Sobre rodas de choro e chimarrão. A gente faz, nas praças públicas, rodas de chimarrão e de choro. É uma conexão entre culturas. As duas culturas, a do chimarrão e a do choro, são feitas em roda. A gente apresenta choros de compositores do Rio Grande do Sul que tiveram influência na música nacional, e essa música veio a ser transformadora na música gaúcha. Após essa turnê, a gente vai gravar um disco.

Você também está no Spotify, Deezer, Google Play, iTunes e outras plataformas digitais?

Eu sou meio grossão, não entendo muito dessas coisas, mas estou nisso tudo. Estou no Facebook também como Samuca do Acordeon, quem quiser fazer contato pode entrar pelo Facebook mesmo. Estou sempre à disposição.

 

 

 

Samuca do Acordeon em Londrina

Revelação da música instrumental brasileira participa de show que vai contar também com Miguel Santos (acordeon) e Luciana Schmidt (flauta doce) dia 18 no Londrina Country Club

O SHOW

Giovana (voz e flauta doce) e Gabriel (bateria, percussão, cavaquinho e flauta doce) ainda são crianças, mas já possuem uma bagagem musical de respeito. Não é para menos. Filhos de Luciana Schmidt (flauta doce) e Miguel Santos (acordeon), eles cresceram cercados por música e instrumentos, geralmente misturados a muito carinho. Não é surpresa, portanto, que tenham seguido a veia musical da família.

No dia 18 de junho, às 20h30, na Sede de Inverno do Londrina Country Club, Giovana e Gabriel recebem, ao lado dos pais, um jovem destaque da música instrumental brasileira: Samuel Costa, o Samuca do Acordeon.

O show terá um repertório variado, incluindo músicas de diferentes épocas e países, passando pelo choro, baião, MPB, jazz e música barroca, entre outros gêneros.

A família se reuniu com sucesso no mesmo palco, em maio, quando lotou a Sede de Inverno em um show que foi além da cumplicidade entre os músicos, revelando um profundo embasamento teórico e técnico.

Desta vez não será diferente. Samuca do Acordeon vem fazendo um trabalho de reinserção do instrumento no choro. Nessa trajetória, ele já tocou ao lado de instrumentistas como o violonista Yamandu Costa – que faz uma participação especial no último disco de Samuca, gravado ao lado do Regional Imperial, de São Paulo.

Como Samuca é amigo da família, o encontro vai mexer com as emoções do público tanto pela qualidade musical quanto pelo afeto que une os participantes.

 

 

INGRESSOS

Os ingressos estão à venda no Flauta e Fole Estúdio Musical (R. Professora Delvina Borges, 425), na Multiterapias (R. Pará, 971, loja 16), no Brasiliano Bar & Cozinha (R. Espírito Santo, 655) e na Secretaria do Londrina Country Club (R. Fernando de Noronha, 977). Preços antecipados: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Preços no dia 18/06: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia). Informações: (43) 3029-0899 ou (43) 98426-9683.

 

 

 

Como surgiu sua ligação com Londrina?

SAMUCA DO ACORDEON – A minha ligação com Londrina começou através do projeto Rumos Itaú, que aconteceu entre 2010 e 2012, quando eu conheci o músico André Siqueira (compositor e instrumentista radicado em Londrina). Nós participamos de um show do Gilberto Gil juntos como banda base. E ele indicou meu nome para que eu fosse professor do Festival de Música de Londrina. Em 2015 e 2016 eu trabalhei como professor do festival. E no ano passado eu tive o privilégio de conhecer o Miguel Santos, que é acordeonista e toca choro, e o meu trabalho é voltado para o choro. Aí conheci ele, minha família conheceu a família dele e o trabalho que eles vêm realizando na música, com os filhos. Então, no ano passado, por uma semana, nos encontramos e tocamos bastante. E criou-se uma amizade. O resultado foi esse convite para retornar a Londrina, agora em junho, onde a gente vai fazer essa apresentação. Vou mostrar alguma coisa do meu trabalho solo e participar do show deles também.

E no dia 19 tem um bate-papo na Escola Dôminos…

Vou falar um pouco sobre acordeon, o trabalho sobre a reinserção do acordeon no choro. O acordeon foi muito usado no choro, que é a música mais autêntica brasileira. Depois, com a chegada da bossa nova e da jovem guarda, entrou em desuso. Hoje está retornando. Eu tenho um CD gravado neste ano com o Regional Imperial de São Paulo. É o primeiro disco de choro de acordeon e regional feito no Sul do Brasil. Na época em que era forte o movimento, os acordeonistas acabaram indo para o Rio de Janeiro, tudo partia de lá. Então é sobre isso que a gente vai falar.

Como será o show com a Giovana e o Gabriel? O que vocês vão tocar?

Vai ter música do mundo inteiro. A gente vai fazer desde choro a músicas americanas, baião, música nordestina, será uma mistura de tudo isso. Eu estou muito feliz de voltar a Londrina, são essas coisas boas que Deus me permite fazer através da música, conhecer novos amigos, conhecer novas cidades. Eu tenho dois sonhos na vida, mas os dois são muito caros: ou eu compro uma casa aí ou eu compro um helicóptero para ir mais rápido. Eu tenho um carinho muito grande por essa terra e estou muito feliz por voltar aí.

 

SERVIÇO

Giovana e Gabriel convidam Samuca do Acordeon – Show no dia 18 de junho, às 20h30, na Sede de Inverno do Londrina Country Club (R. Fernando de Noronha, 977). Preços antecipados: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Preços no dia 18/06: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia). Informações: (43) 3029-0899 ou (43) 98426-9683.

 

WORKSHOP

Samuca do Acordeon vai realizar um workshop em Londrina no dia 17 de junho, às 20h, no Flauta e Fole Estúdio Musical (R. Professora Delvina Borges, 425). A inscrição custa R$ 90 e inclui um ingresso para o show do dia 18 de junho. Informações pelo telefone (43) 98444-0899.

 

MÚSICOS

Samuca do Acordeon nasceu em Santo Antônio da Patrulha (RS) e ainda na adolescência venceu muitos concursos realizados no estado para seu instrumento, tornando-se um nome de destaque no cenário dos bailes gaúchos. Também participou de muitos festivais de música nativista até abrir os horizontes para outros gêneros, como choro, samba, bossa nova, jazz e tango. Discos lançados: De tudo um pouco (2010), Fala Agora (DVD – 2013), Novos Rumos (CD com o violinista Ricardo Herz – 2016) e Samuca do Acordeon & Regional Imperial (2016).

Giovana Schmidt dos Santos é vocalista do Projeto Música Criança da Universidade Estadual de Londrina, com coordenação de Helena e Mário Loureiro. Começou a frequentar o Festival de Música de Londrina aos 4 anos de idade e já fez cursos de Trilha Sonora para Cinema, Percepção Musical, Técnica Vocal para Adultos e Musicais.

Gabriel Schmidt dos Santos é baterista do Projeto Música Criança da UEL e também já fez diferentes cursos no Festival de Música de Londrina, entre eles Cavaquinho, Banda de Garagem, Bateria e Oficina de Choro e Jazz.

Luciana Schmidt é flautista (flauta doce) formada pela UEL e professora especializada em Educação Musical. Integra o grupo Camerata Café e a Orquestra Barroco Capriccio Stravagante. Também é colaboradora do projeto de ensino e extensão Música Criança, trabalha na capacitação para professores do Método Suzuki e é professora no Flauta e Fole Estúdio Musical.

Miguel Santos – é pianista e acordeonista formado pela UEL, integrante do grupo Forró Caviúna, cravista e acordeonista do grupo Camerata Café e cravista da Orquestra Barroca Capriccio Stravagante, além de professor no Flauta e Fole Estúdio Musical.

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