Rosa Marya: “O dom da arte não é uma coisa aprisionante”

 

Ela tem uma voz de afinação perfeita e um incrível acento jazzístico. Mas a cantora Rosa Marya Colin não se encaixa perfeitamente em gêneros, e chegou a sofrer críticas no início de carreira justamente por não fazer parte de nenhuma turma. Rock, jazz, blues, MPB, bossa nova, spirituals… É um clichê dizer que uma cantora transita por diferentes gêneros, mas neste caso, a afirmação se comprova no palco.

Rosa Marya é uma das atrações de hoje da 7ª edição do Festival Blues de Londrina (saiba mais abaixo). E, com muito carinho, ela conversou com a gente:

 

 

Você está fazendo um show com jazz, blues e spirituals. O grande público conhece esse seu lado mais jazzístico?

ROSA MARYA COLIN – Quem conhece o meu trabalho conhece esse lado. O grande público não. Mas quem me acompanha sabe que eu sou muito versátil. No início da minha carreira eu era muito criticada exatamente porque não tinha um estilo definido e cantava de tudo. Comecei cantando Hello, Dolly. Fiz o meu primeiro compacto duplo na Odeon com Hello, Dolly; Walk on by da Dionne Warwick; um bebop e Você, que era uma bossa nova do Roberto Menescal. Eu canto em oito idiomas. Não falo os oito, mas canto. O dom da arte não é uma coisa aprisionante. Você usa o seu dom de diversas formas, é isso o que eu faço com meu dom.

 

 

De onde veio essa diversidade, essas referências musicais?

Sou filha de uma aspirante a cantora. Minha mãe sempre quis ser cantora, mas não conseguiu. Ela gostava de cantar músicas de Dalva de Oliveira, de Angela Maria e as cantoras da “fossa”, que a gente chamava na época. O meu pai era a alegria das festinhas. Meu pai era o único negro que entrava em lugares de ricos e brancos. Ele era muito simpático, cantava muito bem e tocava violão. Então ele estava sempre animando as festas. Com o decorrer do tempo, eu fui parar no Juizado de Menores com 12 anos. E essa casa onde vivi era subsidiada pelos Diários Associados, TV Tupi e Rádio Difusora. Chamava-se Pensionato Maria Gertrudes. E eles mandavam para casa todo final de ano os discos que eles não queriam mais na rádio. E eu, que era muito vidrada em música, cuidava dos discos. Da Rádio Tupi e Rádio Difusora vieram vários discos de musicais. Eu aprendi a gostar de música clássica, de música folclórica de vários países. O meu conhecimento de jazz e de spiritual também vem daí.

 

 

Quando você começou a cantar?

Eu sempre quis ser cantora, desde pequeninha. Eu lembro que, com 3 anos eu me deitava no chão, batendo o pé na parede, e fazia músicas. Quando fiz 18 anos, vim para o Rio de Janeiro. Eu morava em São Paulo e fui criada lá. Vim para o Rio de Janeiro morar com a minha mãe, que reencontrei depois de muito tempo. No Rio, eu dava aulas de inglês na parte da manhã e, na parte da tarde, trabalhava em serviço público. À noite, dava aula de português para estrangeiros. E aos sábados e domingos eu ia batalhar minha carreira de cantora. Comecei indo a um programa chamado Papel Carbono, onde me propus a imitar a Angela Maria e fui gongada logo de cara. Mas não desisti. Eu nunca soube imitar ninguém. Continuei a minha batalha e fui ao programa de Rossini Pinto, na Rádio Tupi, e cantei Hello, Dolly em inglês, e uma versão de Run around que eu mesma fiz em português. Ele gostou, passou a me convidar para o programa todos os sábados e assim fui fazendo a minha mídia. Até que o Rossini me apresentou ao Jair de Taumaturgo, que tinha um programa na Rádio Mayrink Veiga. Jair de Taumaturgo, depois de um tempo, me levou para a TV Rio. Comecei a fazer o programa dele de televisão e era sempre chamada para defender músicas americanas. O Erlon Chaves começou a me chamar… Enfim, antes de ser uma cantora com disco gravado, eu já era chamada por todos os programas de televisão para defender músicas da parada de sucessos.

 

 

E como começou sua carreira de atriz?

Começou bem mais tarde. Oito anos depois de eu já ser cantora, eu tinha voltado para São Paulo, e um dia o filho do Maestro Cipó (Orlando Silva de Oliveira Costa) chegou em minha casa com um jornal pedindo atores negros que cantassem e dançassem. Eu entrei na fila para fazer o teste para o (musical) Hair, a primeira montagem. Foi assim que começou minha carreira de atriz, fazendo Hair.

 

 

No começo de sua carreira, nos anos 60, você pegou uma época de bastante efervescência musical. Tinha Jovem Guarda, Bossa Nova…

TInha sim, eu comecei cantando Bossa Nova. Quem produziu meu primeiro disco foi Roberto Menescal e André Midani, que era um grande produtor da época.

 

E você chegou a cantar muito no Beco das Garrafas?

Eu fiz duas temporadas lá. Na primeira temporada eu participei do show Simbora, do Wilson Simonal. O Wilson foi meu padrinho, ele fez a capa de meu primeiro LP e era quem tomava conta de mim. A boate lá era pequena, tinha muita fumaça, e uma noite eu saí. O Wilson Simonal, quando me viu ali fora, disse para eu entrar porque ali não era meu lugar. Quer dizer, ele me tratava como uma irmã mais nova. Ele tinha uma namorada em Copacabana e, para eu não ir para o subúrbio onde eu morava, ele arrumava para eu sair do Beco das Garrafas e dormir na casa da namorada dele. No dia seguinte eu ia para casa.

 

 

Você começou a cantar no exterior nos anos 70. Você continua viajando?

Hoje não muito mais, porque o manager que eu tinha lá (nos Estados Unidos) faleceu e eu perdi o contato. A minha carreira começou quando a Laís Pires, uma produtora que eu tinha aqui, me levou para fazer um festival numa casa chamada Ballroom (Nova York). Os donos da casa gostaram, eu comecei a levar público e fiz uma temporada grande. Isso foi nos anos 70. Na primeira vez que eu saí do Brasil, fui para o México, em 1971. Fui escolhida por dois empresários mexicanos que foram me ver no Hair. Fui inicialmente por três meses. Acabei ficando um ano e meio. De lá, fui para os Estados Unidos pela primeira vez. Depois fui para Paris, Itália, voltei ao México e retornei ao Brasil. Aí, nos anos 80 fui fazer essa casa em São Paulo, a Opus 2004. Então fiz teatro underground, off-Broadway, em São Paulo. Depois fui chamada para fazer Retrato de Mulher na televisão com Regina Duarte. Fui fazendo peças e peças. Até que, em 2005, o (diretor) Luiz Fernando Carvalho me chamou para fazer Hoje é dia de Maria 2. E fiquei na Globo fazendo novela até 2014.

 

 

Como foi aquele estouro de California Dreamin’ no fim dos anos 80?

Em 1986 eu estava no Rio fazendo Noviça Rebelde, uma peça do Wolf Maya. E o Zé Rodrix, em São Paulo, me chamou para fazer um comercial. Gravei 30 segundos de California Dreamin’, e esses 30 segundos começaram a fazer sucesso no rádio. Todo mundo pedia para tocar a música e não tinha a música inteira. Até que o Zé Rodrix me chamou para gravar toda a música. Fizemos um single com California Dreamin’ de um lado e Summertime 2 do outro lado, que eu tinha gravado com o (cantor) Tony Osanah um ano antes. E o selo Eldorado quis fazer um LP. Ganhei meu primeiro disco de ouro e passei a ser conhecida no Brasil inteiro.

 

Você pretende gravar esse show que vem a Londrina?

Na quarta-feira passada (19 de julho) eu fiz esse show no Teatro Rival, aqui no Rio de Janeiro, e um fã chegou na boca do palco, me deu umas flores e disse: “Isso tem que virar DVD!”. Eu acho que é uma possibilidade, se a gente conseguir patrocínio.

 

 

Jefferson Gonçalves/ Foto de Paulo Chaffin/www.jeffersongoncalves.com

 

Rosa Marya Colin sobe hoje ao palco acompanhada pelo gaitista carioca Jefferson Gonçalves. Considerado um dos nomes de relevo do cenário nacional, Jefferson Gonçalves também conversou com a gente:

 

Você vai participar do show junto com a Rosa Marya?

JEFFERSON GONÇALVES – Isso, é um show novo, nós começamos neste ano, fui convidado pela produtora da Rosa Marya para direcionar mais para a linha de blues e jazz, com releituras de algumas coisas folk e até rock’n’roll. Estamos tocando músicas do Cream, Janis Joplin e The Band. É uma pegada diferente. A Rosa se dá bem em todas as vertentes, tanto de música brasileira a jazz. E a maioria do público não conhece essa vertente dela cantando blues e jazz, que é sensacional. No primeiro show, ela fez uma parte solo e é impressionante, parece que você está no Harlem. Essa ida para Londrina é importante para a gente, porque é um festival onde eu tenho muita vontade de tocar. Eu vejo que está crescendo, vários amigos meus já tocaram aí. Chegar com esse show vai ser muito especial, porque é nossa estreia fora do Rio de Janeiro.

Rosa Marya tem muita estrada…

Eu fico impressionado com o quanto ela tem de qualidade musical e palco, porque também é atriz e interpreta muito bem. Ela está trabalhando direto, está com show de bossa nova e várias outras coisas. Ela está bem atuante.

Como anda a carreira solo, você está preparando um disco?

Eu lancei um disco em 2015/2016, que foi o 25 anos de carreira. Foi meu segundo projeto de crowdfunding. Comemorando 25 anos de carreira, eu fiz uma compilação de todos os meus discos. E fiz uma enquete para quem participou do crowdfunding escolher as músicas. E regravamos um clássico do Jimmy Reed (Shame, shame, shame) e uma do Muddy Waters (I can’t be satisfied). Mas fizemos nessa praia que eu venho insistindo desde 2004, que é misturar blues, rock, jazz e folk com ritmos brasileiros. Em Shame, shame, shame, a gente colocou um xote e tem um solo de cuíca. Quem está tocando com a gente é o Valdir de Oliveira, que é outra sumidade, o cara tem 76 anos. Ele é um percussionista que tocou durante oito anos com o grupo Chicago e ganhou um grammy; tocou com Nina Simone, participou da banda de Sergio Mendes e gravou o primeiro disco do Joe Cocker, na faixa Feelin’ Alright, em que ele toca uma conga e uma queixada. O cara já tocou com Hermeto Pascoal, Herbie Hancock, Jack DeJohnette, Miles Davis. De 2011 a 2015 eu lancei três CDs. Agora já estou maturando um CD completamente diferente com o multi-instrumentista Beto Lemos, ele toca percussão, guitarra, rabeca, violão, cello, toca todos os instrumentos. A gente resolveu fazer um CD autoral, mas só com música instrumental. Vai sair totalmente desta minha linha de blues e rock’n’roll, e vai para uma coisa mais brazuca. Acredito que devo lançar isso no final deste ano ou no ano que vem.

 

Você acha que existe uma forma brasileira de tocar blues?

Eu acredito que sim. Se você deixar de lado a coisa de ser purista, você tem isso desde a época do Celso Blues Boy, que para muitos não é blues, mas blues-rock. Na verdade, lá fora, ninguém mais está fazendo o real blues. Quem faz isso são os caras que viveram naquela época. Acho muito chato você tentar tocar um blues, principalmente um brasileiro, e tocar a verdade do outro. É a mesma coisa eu, como carioca, tentar tocar a verdade nordestina. Mas eu posso pegar os ritmos e fazer essa mistura. A galera tem que se ligar que a coisa de tocar o real blues não tem mais. O filho do Muddy Waters não toca blues como Muddy Waters tocava.

 

 

Tem um pouco de patrulha nisso, não é?

Tem, e isso é muito chato. Eu sofro muito isso. As pessoas falam: “O Jefferson toca música brasileira”. Eu não toco música brasileira. Harmonicamente, a minha parte não sai do 1-4-5, se mudar, muda pouca coisa. Não é uma bossa nova cheia de encadeamento de acordes. É só você mudar a levada, colocar um fraseado de rabeca, os caras já dizem: “Está tocando música brasileira, isso não é blues”. É engraçado, porque lá fora sou muito mais bem quisto do que aqui. Mas se não tivesse (uma forma brasileira de tocar blues) não estaria vindo tanto gringo para cá tocar com brasileiro. Tem Fernando Noronha, que viaja a Europa toda, tem o Igor Prado, vários músicos brasileiros  – bandas e artistas – que têm carreira lá fora. Então isso já é uma reflexo de que tem um blues da gente. Só que a gente não tem mídia, como eles também não tem. A realidade deles é bem parecida com a da gente. Tem mais festivais, mas a maioria toca em bar. Tem muitos artistas que vêm para o Brasil como atração principal que lá no país deles tocam em palco secundário. A gente tem grandes festivais, festivais de qualidade, e lá de fora eles olham para a gente e veem que tem um mercado bom e músicos bons. Mas o que está faltando é a gente mostrar: “Eu bebi disso aqui mas minha cara é essa”. Eu vejo muita gente querendo fazer igual. São poucos que tentam fazer uma coisa diferente. Tem muita gente fazendo um trabalho bom aqui, mas tem um policiamento radical.

 

 

 

SERVIÇO

7º Festival Blues de Londrina – Show com Luciano Leães & The Big Chiefs, Rosa Marya e Jefferson Gonçalves. Quarta-feira, dia 2 de agosto, pontualmente às 21h no Bar Valentino (R. Pref. Faria Lima, 486). Os ingressos estão à venda nas lojas 5àSec ou pelo Disk Blues: (43) 3357-1392. Mais informações: www.festivalbluesdelondrina.com.br.

 

7º FESTIVAL BLUES DE LONDRINA – BAR VALENTINO (21h)

 

QUARTA (2 de agosto)

-Luciano Leães & The Big Chiefs (Porto Alegre)

-Rosa Marya (Rio de Janeiro)

-Jefferson Gonçalves (Rio de Janeiro)

 

QUINTA (3 de agosto)

-Três Tigres Trio (Londrina)

-Allice Tirolla (Londrina)

-Igor Prado Band (São Paulo)

-Annika Chambers (Texas)

 

SEXTA (4 de agosto)

-Victor Biglione (Argentina)

-Tony Gordon (São Paulo)

 

SÁBADO (5 de agosto)

-Acústico Blues Trio (Londrina)

-Kynnie Williams (Rio de Janeiro)

-Aki Kumar (Índia)

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