Victor Biglione: “Da verdadeira MPB, eu toquei com todo mundo”

Victor Biglione por Nando Chagas

 

A terceira noite do 7º Festival Blues de Londrina reúne dois mestres no palco do Bar Valentino, hoje (dia 4/8) a partir das 21h: Victor BiglioneTony Gordon. Nascido na Argentina – sua família escapou do golpe militar de 1962 -, mas criado no Brasil, Biglione tem uma fantástica maleabilidade: jazz, bossa nova, MPB, world music, rock, blues. Todas as linguagens musicais passam por sua guitarra, menos aquelas mais comerciais, das quais faz questão de manter distância.

 

O guitarrista, que cursou a Berklee Collegge of Music em Boston por indicação de Tom Jobim, tocou com todos os grandes nomes da música brasileira nos anos 70 e 80, além de estabelecer parcerias com Andy Summers (The Police), Manhattan Transfer e Wagner Tiso, é integrante do Som Imaginário e tem um disco inédito com Cássia Eller – gravado há 25 anos e nunca lançado por um desses mistérios que pairam sobre o universo das grandes gravadoras.

 

Acompanhado pelo baixista Jefferson Lescowich e por Roberto Alemão (bateria/percussão), Victor Biglione apresenta um repertório entre o jazz, o blues e o rock dos anos 60, sempre com muito improviso.

 

 

O que você vai nos mostrar no Festival Blues de Londrina?

VICTOR BIGLIONE – Eu sou um cara eclético, meu trabalho é muito eclético. Então vou abordar principalmente jazz e blues, com todas as suas variantes. Vou incluir um pedaço de meu tributo a Jimi Hendrix, vou incluir números instrumentais de um tributo ao B.B. King e alguma coisa de classic rock dos anos 60, que é a fase que eu mais gosto do rock, mais ligada à guitarra.

 

 

Vai ter alguma coisa de Mercosul, seu último disco?

Esse que foi indicado ao Grammy? Não, esse disco utilizou muitos instrumentos de percussão. Usando a palavra certa, é world music. Como eu tinha que abordar um continente, eu usei percussão e vários violões, várias guitarras. Em Londrina vai ser uma coisa mais no formato de trio: guitarra, baixo e bateria. Comigo, vai um cara aí da região, o Jefferson Lescowich (natural de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina), um excelente baixista. Vou levar o que vocês têm de melhor. E vai o Roberto Alemão na bateria e percussão, que é o cara que coproduziu Mercosul comigo. Vou levar uma guitarra maciça e uma semi-acústica para as coisas mais jazzísticas. Vou fazer o Take Five (Paul Desmond), do Dave Brubeck, uns clássicos, músicas de jazz conhecidas. Quando a coisa pender mais para o lado do rock eu pego o modelo Stratocaster.

 

 

Você tem uma história incrível, já tocou com todo mundo.

Eu corro atrás, mesmo. A mídia brasileira, de uns 20 anos para cá, passou a misturar negócio de peito e bumbum com música. Disso aí eu não conheço as pessoas. Mas da verdadeira MPB, eu toquei com todo mundo. Não tem ninguém que eu não tenha tocado ou gravado. Elis Regina, Gal Costa, esses nomes todos. Eu tive a sorte de ser dessa época, é uma felicidade muito forte para mim.

 

 

E não só na MPB, mas na música instrumental também…

Na música instrumental também. Eu falo MPB incluindo todos os estilos. Estou lançando um disco agora com Wagner Tiso, que é meu irmão. Nós gravamos na Finlândia, é o The Finland Concert. Fizemos a sala Baden Powell no sábado passado. Eu faço parte do Som Imaginário há cinco anos, tenho um Grammy com o Milton Nascimento, tenho um Grammy com o Manhattan Transfer, fui candidato ao Grammy com meu disco (Mercosul). Eu trabalho com cinema também, um dos trabalhos que mais me fascinam é fazer música para cinema.

 

 

De onde vem essa facilidade em falar diversas línguas musicais?

Nossa família é muito rica, não em dinheiro, mas culturalmente. Eu tenho descendência russa. Minha maior descendência não é italiana, eu tive apenas um avô italiano. O forte da minha descendência são os judeus ucranianos. É Aronovich Spivakow. Essa turma é muito forte culturalmente, então tinha muita música. E meu primo, o Claudio Slon, também nascido na Argentina, foi baterista do Tom Jobim e gravou Wave, aquele disco lindo da girafinha (na capa). Ele tocou 11 anos com o Sergio Mendes, tocou com Walter Wanderley, gravou o segundo Jobim-Sinatra, o Sinatra and friends… Lá em casa sempre chegou muita música. Chegava tudo o que o Claudio mandava para a gente. Bossa nova, jazz, rock e samba da melhor qualidade. E a música clássica por causa dos russos. Fui me apaixonando por isso tudo, não sabia o que era melhor, o que eu gostava mais. Eu gostava de tudo. Eu só não compactuo com cascata, negócio de armação, eu estou fora. Mas falou em boa música é comigo.

 

 

Foi por aí que você conheceu o Tom Jobim? Tem aquela história que ele te indicou para a Berklee College of Music…

Foi um pedido do meu primo. Em 1977, o Tom desceu a R. Codajás, aqui no Leblon, e falou: “Você é o primo do Claudio Slon, o que você quer?”. Eu falei: “Vou para a Berklee em Boston, vou fazer um curso de verão, e uma carta de recomendação tua vai matar a pau”. E ele falou: “Me dá a carta”. Assinou e falou: “Meu querido, boa sorte para você, um abraço”. Eu cheguei lá com moral, os caras não acreditavam! Meu primo tocou muito com o Marcos Valle também, com quem eu acabei fazendo um disco em Montreal. Levei o Marcos para o Canadá e fizemos um disco muito bonito lá. Meu primo, o Claudio Slon, gravou com o Marcos Valle um disco muito bonito, com arranjo do Eumir Deodato – com quem eu tive também a alegria de trabalhar – chamado Samba 68. Só que o Marcos Valle chegou lá (nos Estados Unidos) em 1968 e foi convocado para o Vietnã. Apareceu um camarada de uniforme dizendo que ele ia para o Cambodja no dia seguinte. Imagina como o Marcos ficou, né? Aí ele falou com o Deodato e fugiu de Nova York. Disse que nunca sentiu tanto medo na vida. O disco acabou saindo com meu primo na batera. E eu fiz amizade com o Marcos Valle também.

 

 

E o disco com a Cássia Eller, que nunca saiu?

Aí é o problema de cada um com seu cada um. Eu falei: “Cássia, não estão querendo lançar o disco porque acham que vai te estigmatizar como cantora de blues….” Que bobagem! Eu saquei que ela ficou com medo da turma da gravadora. Deixa para lá. A vida segue. Eu fico com pena porque o disco é lindo. É um disco de estúdio com repertório, tudo bem gravado, bem acabado. E não sair nunca. Vai para 25 anos, um quarto de século. Cada vez que tentam lançar, aparece um mistério aí e o disco não sai.

 

 

Como você vê a nova geração de instrumentistas?

Está bem, tem excelentes instrumentistas, gente surgindo muito bem preparada. Se eu tivesse 19 anos hoje em dia eu não precisaria ir para a Berklee. Nós já temos várias escolas que possibilitam novos instrumentistas muito bem preparados. A única coisa que eu sinto falta nesses novos instrumentistas é um pouco de personalidade. Eles têm muito sabor de escola. É tudo tão mastigado… Na minha época tinha que tirar de ouvido, isso criava uma fantasia, um sonho, que dava mais personalidade ao instrumentista. Hoje vem tudo pronto em apostila, gravação, exemplo, que o cara acaba saindo igual a mais 50 ou 60. Que eles são bons, são. Mas é meio massificado.

 

 

SERVIÇO

7º Festival Blues de Londrina – Show com Victor Biglione (Argentina) e Tony Gordon (São Paulo). Sexta-feira, dia 4 de agosto, pontualmente às 21h no Bar Valentino (R. Pref. Faria Lima, 486). Os ingressos estão à venda nas lojas 5àSec ou pelo Disk Blues: (43) 3357-1392. Mais informações: www.festivalbluesdelondrina.com.br.

 

7º FESTIVAL BLUES DE LONDRINA – BAR VALENTINO (21h)

 

SEXTA (4 de agosto)

-Victor Biglione (Argentina)

-Tony Gordon (São Paulo)

 

SÁBADO (5 de agosto)

-Acústico Blues Trio (Londrina)

-Kynnie Williams (Rio de Janeiro)

-Aki Kumar (Índia)

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