Crônica: A Academia

Foto: Ranulfo Pedreiro

 

A escadaria íngreme e antiga, encerada em vermelho, levava ao corredor de velhos escritórios. À esquerda, ficava a academia, cujo nome foi devorado pelo tempo. Tinha sala ampla e equipamentos antiquados, pintados de branco e azul para ganharem aparência de novos. Anilhas e barras acumulavam-se à direita. À esquerda estavam roldanas e supinos, de frente para o espelho. Ao fundo, coladas às janelas largas e vistosas, repousavam as barras mais pesadas e as bicicletas ergométricas de molas nos bancos.

 

Dos janelões, via-se a Rodoviária e, mais abaixo, a antiga Ferroviária. Depois o terreno se inclinava levemente, exibindo ao norte conjuntos habitacionais cada vez maiores, até que o horizonte se tornasse finalmente agrícola.

Julinho mostrou tudo isso com um indisfarçável orgulho. Era um garotão empenhado em gerenciar o local na ausência do dono, um fisiculturista aposentado cujas fotos amareladas pairavam acima dos espelhos.

 

De óculos Rayban espelhados e revista pornô às mãos, Julinho ensinou o caminho do banheiro, uma portinha de madeira ao fim do corredor. Falava e gesticulava, mas só se aproximava dos aparelhos para fins didáticos, cultivando uma barriga precoce.

 

A academia era frequentada por antigos halterofilistas, policiais e jovens cheios de hormônios, mas descontentes com a magreza persistente.

 

No primeiro treino, Julinho empurrou aos magrelos uma barra reta, sem anilhas, pesos ou qualquer traço de dignidade, provocando piadinhas entre os fortões.

 

Euler era o mais empolgado. Utilizava um cinturão de couro para firmar a coluna nos agachamentos e, durante os intervalos, contava suas aventuras como PM. Certa vez ficou cara a cara com um bandido. Jogou a arma de lado e resolveu a questão no braço.

 

Aldair só parava de falar em mulher para reclamar da musculatura das pernas. Era ciclista, mas foi atropelado. Tentava recuperar a velha forma para manter a namorada, cuja gostosura propagava com detalhes aos companheiros de treino.

 

Quando soube que andavam ciscando em seu terreiro, escondeu-se, usando a namorada com isca. Ao primeiro gracejo do galanteador, Aldair apareceu não se sabe de onde, já despregando murros. Contava a história e gargalhava, mostrando o dedo machucado pelos dentes do paquerador.

 

Ambos, Euler e Aldair, não saíam da janela. Mexiam com qualquer garota que passasse. “Gostosa!”, “vem aqui!”, “tesouro!”, gritavam lá do terceiro andar.  Às vezes, uma desavisada deixava escapar um sorriso. Era o suficiente para que a rapaziada descesse as escadas em tropel, a fim de disputar a atenção e se exibir na rua.

 

Quando as coisas estavam tranquilas lá fora, Euler e Aldair dedicavam-se a séries extenuantes, urrando a cada exercício completado. Aos poucos, foram aceitando os novatos. Ensinavam a comer ovos crus, a respirar na hora certa durante o esforço e davam dicas de luta.

 

Um dia, Julinho chegou de olho roxo. A academia ficou em polvorosa. Fosse quem fosse o agressor, teria revide. Mas a verdade, para decepção geral, era que Julinho errou um cavalo-de-pau com seu Fusca, acertou um poste e bateu a cara no volante.

 

Aquela pequena tribo de iniciados na musculação viu com desconfiança o surgimento de modas histriônicas acompanhadas de tênis tecnológicos e cores berrantes. Satirizava os rebolados da aeróbica, os gritinhos de u-huu em falsete e o som bate-estaca ditando o ritmo dos exercícios. Preferiu, conscientemente, permanecer no passado.

 

Os magrelos finalmente perceberam a falta de afinidade com o halterofilismo. Apareciam esporadicamente e, mesmo assim, testemunharam a queda de movimento que permitiu às garotas atravessarem a rua com o devido sossego.

 

A graxa do aparelho para remada horizontal secou. As anilhas já não tilintavam em seu curto choque com as barras, os ovos sumiram do frigobar e o álcool, utilizado para limpar colchonetes, evaporou silenciosamente dentro dos frascos.

 

Dizem que Julinho foi o último a sair, levando a coleção de revistas embaixo do braço, disfarçando a tempestade nos olhos com o inseparável Rayban.

 

(Texto e foto: Ranulfo Pedreiro)

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