Matita Perê

 

O Matita Perê cismou de cantar perto de casa. São apenas duas notas, de curta duração, que eu fantasiosamente associei a Debussy numa dessas madrugadas de insônia.

Ao longe, o debussyzinho confortou minha ansiedade com disciplina invejável. Desde então ouço seu canto pelas madrugadas, para irritação dos que preferem chamá-lo – com certa razão – de Sem-fim.

Eu o cacei com os olhos, mas qual o quê! O Matita Perê é fácil de ouvir e difícil de ver.

Seu concerto minimalista se prolonga por semanas a fio, preciso nas notas e no tempo. Posso ouvi-lo por horas sem me cansar.

Lembrei de Tom Jobim, que chegou a gravar um disco chamado Matita Perê (há quem escreva Matintapereira) em 1972. Além de citá-lo na letra de Águas de Março, ainda imitou o canto nos primeiros compassos das versões gravadas ao piano (com violão há um efeito parecido, mas não idêntico).

Jobim adorava Debussy, Villa-Lobos e Pixinguinha. Todos admiravam o canto dos pássaros e ouviam a natureza como uma obra musical infinita.

Por cantar escondido, o Matita Perê virou lenda. O povo da roça o associa com assombração e mau agouro, confundindo-o com o próprio Saci.

Os índios acreditavam que os pajés tomavam a forma do pássaro para praticar suas vinganças, como cita Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro.

O fato é que as duas notinhas tornaram-se companheiras. Basta o sol enfraquecer que começo a procurá-las, aguçando o ouvido.

De repente, elas surgem. Dá até um alívio: ele ainda está por aí buscando uma namorada para formar família. Não quer ficar sozinho, varando as noites em boêmia cantoria.

Ficamos amigos, creio. Se um dia seu canto faltar, será triste. A escuridão restará abandonada em solitário silêncio.

Mas não será hoje. O sol nem se pôs e o bichinho já está em atividade.

Deu até tempo de gravá-lo.

 

 

 

Texto, foto e áudio: Ranulfo Pedreiro

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P.S.: A foto é meramente ilustrativa.

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