Trio Paineiras: olhos e ouvidos voltados para o novo

Trio Paineiras por Cyntia C dos Santos

 

Um bem-te-vi apareceu na janela da compositora americana Rami Levin, alegrando o dia. Ela, sem perder o voo da inspiração, transformou o pio em uma obra com dois movimentos: Bem-te-vi e Sabiá, registradas no disco Trio Paineiras interpreta compositores de hoje. O título do CD, bastante louvável, representa um ponto fora do curva. Poucos autores contemporâneos têm a sorte de serem gravados, ainda mais por uma formação de timbres tão variados quanto a obtida por Batista Jr. (clarinete/clarone), Marco Catto (violino/viola) e Marina Spoladore (piano) no Trio Paineiras.

 

O projeto é de Sergio Roberto de Oliveira, compositor carioca falecido precocemente em julho em decorrência de um câncer. Empreendedor incansável, Sergio Roberto produziu muitas obras, mas também promoveu encontros capazes de celebrar a vitalidade da música contemporânea, como o que vemos no disco do Trio Paineiras, lançado pela gravadora A Casa. A morte de Sergio abriu uma lacuna evidente na produção cultural brasileira. Mas, como autor prolífico e dedicado, ele deixou muitas obras a serem redescobertas.

 

Sergio Roberto Oliveira, compositor e produtor cultural (Divulgação)

 

Com um interesse profundo por árvores, Sergio Roberto comparece no CD com a obra Paineira (Barriguda). São três movimentos representando diferentes estágios da planta. No primeiro, surgem referências africanas e o grave do clarone faz as vezes de um preto-velho. Entre ritmos sincopados, a árvore ainda jovem exibe o caule protuberante, capaz de armazenar água. O contraste é evidente no segundo movimento, quando as painas flutuam pelo ar até tocarem o solo em notas longas e etéreas. Por fim, no terceiro movimento, a paineira é habitada por passarinhos em um agitado cotidiano.

 

As traduções visuais/sonoras contemplam grande parte das obras, incluindo Três Telas de W.M. Turner. Em três movimentos, o compositor Marcos Lucas, do grupo GNU, transforma em sons os sentimentos das pinceladas. A primeira, irônica, é Ulisses zombando de Polifemo, na qual o herói de A Odisseia, aprisionado em uma caverna pelo ciclope, engana o monstro com vinho para furar-lhe o olho. Ulisses tripudia de Polifemo, filho de Poseidon, e sofre a vingança do deus dos mares, que se esforça para atribular ainda mais a volta do herói à Grécia. 

 

O movimento seguinte é ainda mais impressionante: Rain, steam and speed – The great west railway ganha tons impressionistas e longas notas graves, desenhando o contorno de um trem perdido entre a fumaça, prestes a sair da estação. Como na tela, a música insinua mais do que revela, deixando espaços para alimentar a imaginação do ouvinte.

 

The fighting temeraire, o último movimento da obra, também é sutilmente impressionante, misturando sentimentos como nostalgia, lembranças e resignação ao retratar um velho navio sendo retirado do mar para ser desmontado. As notas agudas e extensas conotam a dolorosa passagem do tempo, enquanto o fim se aproxima.

 

 

Outro compositor, Liduino Pitombeira, busca no cromatismo das 12 notas traduzir os sentimentos do poema A paineira e o poente, de J.G. de Araújo Jorge, na obra Paineiras. Encontramos aqui uma estrutura interessante e desafiadora: a agitação do primeiro movimento é contraposta à reflexão do segundo, gerando um terceiro movimento em que os dois sentimentos, quase contraditórios, se associam.

 

O disco encerra com um experimento voltado à forma e ao conteúdo, como explica o autor Pauxy Gentil-Nunes, no encarte, sobre a obra Tríptico. São três peças semelhantes, interligadas como se fossem siamesas, mas com sutis diferenças que despertam o ouvinte.

 

SERVIÇO

Trio Paineiras interpreta compositores de hoje – Trio Paineiras

Gravadora A Casa Discos

Distribuição: Tratore

 

 

Para falar sobre o disco Trio Paineiras interpreta compositores de hoje, eu conversei com a pianista Marina Spoladore. Confira:

 

Como surgiu o trio?

MARINA SPOLADORE  Nós três não somos cariocas. O Batista (Júnior, clarinete/clarone) é de Aracaju, Sergipe; eu sou do Paraná, de Cascavel; e o Marcos Catto é de Tatuí, no interior de São Paulo. Nós três viemos ao Rio em períodos diferentes e nos encontramos aqui. Começamos a nos conhecer na UFRJ, onde eu e o Batista fizemos nossa graduação. Mais tarde, o Marcos Catto chegou ao Rio e, mais recentemente, e a gente teve a ideia de formar esse trio. A gente fez uma ou duas apresentações do trio, apenas, e chegou esse convite para gravar um CD com músicas de compositores de hoje. Isso aconteceu em 2014, e em 2015 começamos o processo de gravação, que foi bastante interrompido, não só pela questão do Sérgio [Roberto Oliveira, compositor e produtor], que descobriu um problema de saúde no meio da gravação do CD, mas eu fiquei grávida e, no período em que meu filho nasceu, a gente teve que dar uma interrompida nas gravações. 

É um trio muito versátil em termos de timbre. Além de ter clarineta, violino e piano, ou seja, ter instrumentos de famílias diferentes, o Batista toca clarone e o Marco toca viola. Então, além da versatilidade da formação, que é bem singular, a gente tem a possibilidade da troca de instrumentos.

 

Esse projeto era do Sérgio Roberto de Oliveira?

Era um projeto do Sérgio. Eu acho que a iniciativa começou numa conversa dele com a Rami Levin, que é a compositora americana do projeto. Ela é radicada no Brasil e casada com um brasileiro. Ela queria muito criar um vínculo maior com os compositores do Brasil e o Sergio falou: “Vamos fazer um CD!”. E chamou os compositores Marcos Lucas, Pauxy Gentil-Nunes e o Liduino Pitombeira. Foram esses cinco [contando Sergio Roberto Oliveira e Rami Levin] que fizeram as peças do CD. Foi muito interessante porque o Pauxy e o Liduino também são da UFRJ, e o Marcos Lucas é professor da UniRio, assim como eu. Então todos nós éramos já bastante conhecidos. O Pauxy é bastante amigo da gente há muito tempo. Ficou uma convivência muito bacana, as pessoas são ótimas.

 

No século 20 a música tornou-se mais provocativa e surgiu um espaço entre o público e a música contemporânea. Agora, ouvindo o CD, tive a impressão de que a música contemporânea busca se reaproximar do ouvinte. Parece que está chamando o ouvinte de volta, e o Sergio Roberto Oliveira costumava fazer esse trabalho de reaproximação.

Logo depois do falecimento do Sergio, ocorreram várias homenagens e concertos. Em um deles, a Cora Rónai falou uma coisa muito interessante: “Eu pedi ao Sergio para compor coisas que as pessoas queiram tocar”. E acho que ele seguiu à risca. As músicas dele são supertocadas, ele tem uma obra extensa que não ficou só no papel, muita gente toca. Ele tinha esse projeto do Prelúdio 21que tinha concertos mensais, com um público já cativo. E não acho só que a música contemporânea está se aproximando do público novamente. Tem uma via de mão dupla aí. A música tem, de alguma forma, um perfil um pouco mais acessível, talvez. Principalmente de alguns compositores, não são todos. Tem aqueles com propostas em uma linguagem não muito familiar. Mas tem muita gente querendo se aproximar sim, e o ouvinte está se abrindo um pouco mais, também.

 

 

 

 

Vocês pretendem fazer um circuito com esse repertório?

A gente fez alguns concertos no lançamento e agora estamos fechando uns concertos para o ano que vem. O Batista, que é o nosso clarinetista, está indo para Portugal para fazer o doutorado, e a gente vai precisar concentrar os concertos em temporadas, quando ele estiver no Brasil. Isso vai acontecer por volta do meio do ano que vem.

 

A gente estava falando do Sérgio Roberto Oliveira e eu gostaria que você comentasse sobre a falta que ele faz para o cenário da música contemporânea brasileira.

O Sergio vai fazer muita falta, sim. Já está fazendo. Além de ser uma pessoa muito empreendedora, profissionalmente falando, ele era um cara muito engajado com a música contemporânea, muito engajado com os artistas, muito engajado com o grupo de compositores, com o Prelúdio 21 especialmente, que era o grupo do qual ele fazia parte. Ele tinha um projeto que pouca gente tem coragem de levar adiante, que é um estúdio, uma gravadora, um selo. A gente não sabe como vamos ficar sem a presença dele. Era uma pessoa extraordinária, muito querido, muito divertido, sempre de bom humor e ótimo de se trabalhar. Vai fazer muita falta.

 

Gostaria que você comentasse sobre as obras do CD.

Começa com as músicas da Rami Levin. O Bem te vi era um passarinho que ficava na janela dela e inspirou essa música. Depois tem o Sabiá, que na verdade é uma compilação de vários cantos de pássaros do Brasil. Em seguida tem o próprio Sergio, com Paineira. Ele tem várias músicas com tema de árvores e incluiu a Paineira nesse conjunto de obras. São três movimentos: a Paineira Barriguda e seus espinhos, que é a paineira jovem; depois são as Painas, como se as folhas da paineira caíssem no chão de forma bastante suave; e o terceiro é Os passarinhos e seus ninhos, quando a paineira perde os espinhos e os passarinhos começam a morar na árvore. A terceira faixa é do Liduíno. Ele se inspirou em um poema chamado A paineira e o poente. As frases que dão títulos aos movimentos foram tiradas desse poema: Lembranças em turbilhão, Saudades ao redor e Dispersos. É uma obra bastante interessante, o segundo movimento é um palíndromo, como se funcionasse em espelho, começa e termina da mesma maneira e as ideias vão se encontrando no meio do movimento. O último movimento é um pouco mais agitado, mas tem essa lembrança do segundo movimento como uma coisa nostálgica. Em seguida a gente tem o Marcos Lucas, com As três telas de William Turner. Ele se inspirou em três quadros desse pintor inglês pré-impressionista e os títulos dos movimentos são os títulos das obras. O primeiro é Ulisses zombando de Polifemo, que é bastante representativa. O segundo é Chuva, velocidade e vapor – A grande ferrovia do Oeste, você vê a névoa e o trem fica lá no fundo, é quase uma impressão de um trem. E isso é bem representado na música. O último movimento é um navio de guerra sendo desmontado. É como se Turner estivesse refletindo sobre o final da sua própria vida. Por último, tem o Pauxy Gentil-Nunes com Tríptico, que é uma peça baseada em um único elemento trabalhado de formas diversas e bastante contrastantes. Esse material é formado por 17 blocos que vão variando sutilmente entre eles e sempre na mesma ordem, na mesma sequência, só que o material é trabalhado de forma tão criativa que você acaba, do ponto de vista da forma, percebendo bastante contraste. Eu espero que o CD faça mais gente curtir a música contemporânea.

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