Bene Chireia: o sopro do blues

 

Duas atividades caminhavam lado a lado na vida do jovem Bene Chireia, em Curitiba, no início dos anos 90. O emprego formal era na área de processamento de dados, hoje tecnologia da informação (ou TI). Mas a música, mais especificamente a harmônica ou gaita de boca, foi ganhando cada vez mais espaço. Quando a renda obtida com o instrumento superou o salário como processador de dados, Bene soube exatamente qual rumo seguir.

A ideia não era apenas “tirar um som”, como muitos fazem. Bene queria tocar corretamente o instrumento utilizando todos os seus recursos. Assim, profissionalizou-se com muito estudo, tanto que lançou, ainda jovem, um método de harmônica voltado para o blues em português, numa época em que o escasso material disponível vinha em inglês.

Integrante da Orquestra Harmônicas de Curitiba e de diversas formações em diferentes gêneros, Bene Chireia está hoje (3/11) em Londrina para tocar ao lado do Acústico Blues Trio e da banda Grande Elenco, às 21h no Bar Valentino. A parceria, já antiga, preparou uma apresentação voltada para o público. com um repertório que vai do blues ao jazz. Por telefone, Bene Chireia conversou com a gente.

 

 

Como será o show?

BENE CHIREIA – A relação que eu tenho com o Acústico Blues Trio é antiga e, apesar da distância, volta e meia a gente está tocando junto. Pela formação instrumental do grupo, a harmônica entra como instrumento solista. Dentro do gênero do blues, a gaita é realmente muito importante. É talvez o gênero musical onde a gaita mais se encaixe bem. E eu me encaixo no repertório do Acústico Blues Trio, que também é baseado no blues. Tem outras coisas, mas o blues é o principal. É a colocação de um instrumento diferente da formação do Acústico Blues Trio com a característica de ser um solista. Como todo bom e velho blues, é muito baseado também na improvisação. Claro que temos os ensaios e tudo o mais, mas o forte mesmo do blues é a capacidade de improvisação, que é praticamente uma criação instantânea.

 

Quer dizer que, se o público for caloroso, terá essa interação com a plateia e o show pode deslanchar de uma forma diferente?

Não tenha dúvida. É uma das coisas mais interessantes que acontecem porque um show de blues nunca é igual ao outro. Mesmo que a gente tenha uma certa experiência e uma certa competência musical é sempre uma novidade, cada noite é uma noite diferente. A interação da banda com o público é fundamental para que o show seja bom, médio, ruim ou ótimo. E Londrina, pelo público, é de bom para ótimo. Até os ingressos são vendidos com antecedência. O público é excepcional porque gosta do estilo, conhece o estilo. É uma responsabilidade tocar para um público que conhece o gênero, mas também é um prazer, porque é sempre uma festa.

 

 

Mas Curitiba também tem um histórico bacana com o blues. Como anda o cenário na cidade?

O cenário aqui está muito menor do que era. Eu acho que isso é um fenômeno nacional ou até mundial. Coisas como falta de segurança pública, a proibição do cigarro – independente de frescurite ou não, isso bateu bastante na noite – , e além dos preços e valores, está tudo muito caro hoje. E eu acredito que a geração mais nova, essa geração de 20 anos, ainda não despertou para esse tipo de música. A geração dos anos 1990 e do começo dos anos 2000 era muito presente, só que essa turma hoje está com 40 ou 50 anos e já não sai tanto. O cenário realmente encolheu aqui em Curitiba.

 

E a carreira solo, como está?

Eu tenho vários trabalhos. Trabalho com a Orquestra de Harmônicas de Curitiba, que existe desde 1979, e hoje eu sou o coordenador desse grupo. Estamos lançando um disco novo agora em novembro, está chegando da fábrica. É um grupo com dez músicos, é uma orquestra muito tradicional. Eu também tenho trabalhos em duos e trios dedicados ao choro e ao samba. Tenho um duo que faz música instrumental com diversos gêneros musicais como blues, jazz, tango e música brasileira. Além disso, sou autor de um método para harmônica, um audiobook que foi lançado em 1996 e até hoje é comercializado, foi responsável por formar 500 ou 600 profissionais do instrumento, fora aqueles que são amadores. Isso deve ter atingido, de 1996 até hoje, umas 10 mil pessoas. E também trabalho com a questão didática, sou professor particular de harmônica, dou aulas em meu estúdio aqui em Curitiba. Então eu me divido em todas essas atividades. Faço apresentações com diversos grupos musicais, sou professor e faço outras coisas que envolvem a profissão de músico, como gravação de jingles e participações em discos de outros artistas.

 

 

Esse método foi considerado pioneiro no ensino da harmônica no blues do Brasil, não é?

Sim, esse método foi pioneiro mesmo. Em 1996 não existia nenhum material em português, existiam só os métodos gringos.

 

Como você decidiu pela gaita?

Antes eu trabalhava com TI (tecnologia da informação), na minha época era chamado de processamento de dados. Eu trabalhava com computador, era meio nerd de computador. Ao mesmo tempo, com 17 anos, eu comecei a estudar harmônica com os professores aqui da Orquestra de Harmônicas. Tive dois professores importantes, um chamado Ulysses Cazallas e o outro Ronald Silva. Mas a princípio foi uma coisa de hobby, de ter um instrumento para tocar sem pretensões profissionais. Aí eu montei a banda Mister Jack, que durou 20 anos aqui em Curitiba. Eu levava o trabalho com a banda junto com o trabalho de TI. Logo em seguida entrei na Orquestra de Harmônicas de Curitiba. No primeiro mês em que ganhei mais tocando gaita do que o meu salário, eu pedi as contas. Não é uma história muito romântica, mas é basicamente isso. E já se vão 25 anos.

 

 

A gente conversa com gaitistas brasileiros e alguns deles contam que o instrumento às vezes é visto com certo preconceito, como se não fosse um instrumento sério. Você sentiu isso na sua carreira?

Eu acho que não senti tanto assim. Isso se deve um pouco à culpa dos próprios gaitistas, não os profissionais, mas os amadores. É o cara que compra uma gaita, sai bufando em cima e acha que está tocando. Esse tipo de turma acaba contribuindo para essa fama. A gaita é o instrumento mais fácil de tocar e o mais difícil ao mesmo tempo. Porque qualquer um tira um som na gaita. Tocar realmente são outros quinhentos. Existe uma coisa de tonalidade na gaita de boca que é importantíssimo para você pelo menos tocar no tom da música. A maioria dos amadores não está nem aí para isso. A banda está em Mi, o cara está em Fá e está tudo bem. Não é assim. Acho que falta uma academia, por isso eu me dedico até hoje a ensinar. Falta ensinar direito essa rapaziada para que a gaita tenha respeito. Eu nunca tive esse problema porque, quando eu estava estudando, eu falava para todo mundo: “Olha, estou estudando, não estou bom ainda”. Quando eu saí mesmo da casca, eu já sabia tocar o instrumento. Eu acho que um pouco da culpa é dos próprios gaitistas que não valorizam, não dão a atenção devida ao estudo do instrumento.

 

A gente está vendo o blues se misturar a tantas culturas diferentes, como você vê o futuro do blues, para onde o blues está indo?

Eu acho que o blues tinha que voltar a encontrar suas origens em relação a falar sobre coisas da vida. Os blues da década de 40 e 50 têm sempre uma conotação de ser um jornalista musical da época. Falavam das angústias, dos problemas, do racismo, dos relacionamentos. As pessoas se identificavam com aquela letra: “O cara está falando da minha vida”. Hoje – e eu faço uma mea-culpa disso – o blues continua sendo tocado como se eu fosse um negão americano dos anos 40. Inclusive nas letras. O blues só vai conseguir um espaço maior aqui no Brasil quando as letras forem em português e as pessoas entenderem aquilo. Porque ninguém sabe inglês. Então a pessoa está ouvindo só a melodia, não está entendendo a letra, que fala de uma outra época. Se hoje você fizer um blues e falar sobre ansiedade e Facebook, as pessoas vão se identificar. O que falta não são músicos, a parte musical está feita. O que falta são os poetas. Você vê o blues que está na novela das 9 (O outro lado do paraíso), a abertura é um blues (Boomerang blues) do Renato Russo. Goste ou não do Renato Russo, independente disso, é um blues em português. E ele fala aquele negócio da lei do retorno, o que você faz um dia volta para você. Todo mundo escuta. A gaita dessa música é de um grande amigo nosso, que é o Flávio Guimarães, esse sim um pioneiro do blues no Brasil, na gaita. Então eu acho que passa pela letra.

 

 

Além da letra, você acha que o brasileiro já deu alguma contribuição ao gênero, musicalmente falando?

Ainda não. Existiram algumas tentativas de fazer uma mistura do blues com o baião. A estrutura musical do blues e do baião é idêntica, por isso eles conversam muito bem. Talvez essa seja uma contribuição que exista no Brasil, dentro da nossa lógica, de fazer essa mistura de blues com baião. Mas como o próprio Flávio Guimarães, do Blues Etílicos, costuma dizer, no Brasil a gente não toca blues. A gente faz blues rock. É diferente. E durante muitos anos as bandas ficaram muito tempo tentando imitar Stevie Ray Vaughan. Isso é apenas uma reprodução de um cara que foi um nome importante do blues. O blues no Brasil, do ponto de vista instrumental, está muito bem resolvido, tem músicos excelentes. Começando pelo Acústico Blues Trio, que tem dois guitarristas de mão cheia, tanto o JR (Elieser Botelho) quanto o Kiko (Jozzolino). E tem uma coisa rara, um cantor de primeira, que é o Vinicius (Zanin). Do ponto de vista instrumental, esse grupo está de igual para igual com qualquer grupo brasileiro ou gringo. Do ponto de vista vocal, o Vinicius dá de dez, porque a maioria das bandas não tem um vocalista específico, geralmente é o guitarrista que canta. O que a gente não apresenta são as nossas criações, porque o show do Acústico Blues Trio traz um repertório que é do conhecimento das pessoas. Nem todos estão dispostos a ouvir um show de música autoral. A gente faz um show bastante focado nisso. Nós tocamos Isn’t she lovely?, do Stevie Wonder, o que, para um blueseiro xiita, seria um pecado. Mas a gente está preocupado em satisfazer o público e é até legal porque dá uma quebrada no estilo.

 

SERVIÇO

Bene Chireia, Acústico Blues Trio & Grande Elenco – Show hoje (3/11), às 21h, no Bar Valentino (R. Pref. Faria Lima, 486), em Londrina. Informações pelo Disk Blues: (43) 3357-1392.

 

Músicos:

-Vinicius Zanin – voz

-Elaine Fiora – voz

-Elieser Botelho JR – Guitarra

-Kiko Jozzolino – guitarra

-Fabricio Martins – teclado

-Gabriel Zara – baixo

-Elthon Dias – Bateria

-Bene Chireia – Gaita

 

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