Harmonitango estreia em CD buscando a essência de Piazzolla

Harmonitango por Cicero Rodrigues

 

Mesmo acostumado a grandes produções para orquestras, o compositor argentino Astor Piazzolla viveu uma de suas fases mais criativas ao lado de um quinteto que ficava entre o jazz e a música clássica, além, claro, do tango.

 

Os quintetos de Piazzolla surgiram quando ele voltou para a Argentina, após uma temporada em Nova York, em 1959. Poucos anos antes, o compositor já havia testado um octeto (dois bandoneons, dois violinos, contrabaixo, cello, piano e guitarra elétrica), com o qual trouxe o tango para a música contemporânea. Mas o Novo Tango se firmaria mesmo com a formação bandoneon, guitarra, violino, baixo e piano, levando a estrutura composicional à essência para ganhar ainda mais clareza na lapidação das ideias.

 

Inspirados nos quintetos de Astor Piazzolla, três músicos brasileiros encararam o desafio de interpretar a obra do argentino em uma formação ainda mais reduzida: José Staneck (gaita), Sheila Zagury (piano) e Ricardo Santoro (violoncelo) formam o Harmonitango, cujo primeiro disco saiu há pouco tempo pela gravadora A Casa, do Rio de Janeiro, com o título Músicas de Astor Piazzolla.

 

 

A adaptação transferiu as linhas do bandoneon para a gaita. O violoncelo apossou-se das melodias do violino e o contrabaixo foi adaptado ao piano, que também incorporou os acordes da guitarra. Claro que essa divisão, aqui retratada a grosso modo, contou com a maleabilidade necessária para favorecer e realçar a execução. O desafio era conseguir, com tão poucos instrumentos, o vigor e a intensidade que a música de Piazzolla exige.

 

Dessa forma, o Harmonitango levou ao âmago as tensões presentes na obra do grande compositor. E, por isso, o disco veio com uma força concentrada, uma espécie de extrato do que há de mais importante nessa estrutura tão densa e comovente, mesmo mantendo um clima de música de câmara.

 

 

É um resultado surpreendente, que só poderia partir de uma compreensão ampla e profunda dos temas interpretados. Piazzolla não permanece apenas intacto, mas rejuvenescido pela ousadia brasileira.

 

Há também um caráter sentimental, uma vez que o disco do Harmonitango foi a última produção realizada pelo compositor Sergio Roberto de Oliveira, o mentor do estúdio e da gravadora A Casa. Sergio faleceu de câncer em julho de 2017, deixando uma lacuna no cenário da música contemporânea brasileira.

 

Por telefone, a Máquina do Som conversou com o gaitista José Staneck, que esclareceu todo o projeto e ainda falou sobre a gaita na música brasileira – popular e de concerto. Confira a conversa.

 

Como surgiu o grupo?

JOSÉ STANECK – A gente já se conhece há muito tempo e tocamos juntos em outras formações. Teve um ano em que eu substituí, aqui no Rio de Janeiro, um bandoneonista chamado Daniel Binelli (músico argentino), um cara superbacana, num projeto com peças só do Piazzolla. Eu já tocava algumas coisas do Piazzolla, mas não assim tão intensamente. Quando eu fiz esse trabalho, pensei: “Preciso fazer isso continuamente”. E aí chamei o (violoncelista) Ricardo Santoro, a gente toca junto há muito tempo, inclusive com o Duo Santoro, e a (pianista) Sheila, que é amiga e parceira há 25 anos. Eles toparam e a gente começou a montar esse repertório para mostrar o quanto a música do Piazzolla é forte, quantas nuances ela tem e quantas vertentes pode alcançar. Não só na questão de improviso, contestando a forma de concerto ou de fuga, e quase sonata, às vezes. Então é uma coisa muito rica. E estamos tocando juntos há uns 4 ou 5 anos.

 

 

Como foi adaptar o repertório para os três instrumentos?

A ideia principal é baseada nos arranjos do quinteto, é o que ficou mais característico de Piazzolla. Ele foi fazendo outras formações, mas quando ficou no quinteto, foi quando ele se consagrou. A gaita fica na região do bandoneon, às vezes chega a uma ou outra linha do violino. Mas quem vai para a linha do violino é o violoncelo. E o piano faz também as linhas de baixo e às vezes a harmonia da guitarra. Então o violoncelo fica entre o violino e algumas coisas de contrabaixo, o piano segura a onda toda e eu faço o bandoneon. A ideia é reduzir os arranjos do quinteto para o trio. Fica uma coisa mais camerística, é muito interessante, a gente tem gostado bastante de tocar.

 

E vai na essência, também…

É, fica tudo muito claro. Quando você reduz o número de instrumentos, só pode ficar o que é realmente importante no arranjo. Então fica tudo muito cristalino, e acho que isso dá um diferencial. A gaita é um instrumento bem mais leve do que o bandoneon e os arranjos ficam mais cristalinos. Porque tanto a gaita, o bandoneon e o acordeom são originários do mesmo instrumento. É o que eles chamam de instrumentos de palhetas livres. Então existe uma similitude de timbres, nas suas características, claro. Por isso propicia muito a sonoridade, fica muito próximo.

 

 

Mas, em termos de execução, como é essa transposição do bandoneon para a harmônica?

Tem muita coisa que não dá para fazer porque tem a questão dos acordes. Mas a linha melódica principal dá para fazer praticamente toda. O bandoneon, quando você abre o fole, produz uma nota. E quando você fecha, produz outra. É como a gaita, quando você aspira é uma nota e quando sopra é outra. No acordeom, você aperta uma tecla, abre e fecha o fole e é a mesma nota. Então o acordeom tem uma sonoridade mais fluida que o bandoneon e a gaita não têm. Eu particularmente acho a gaita mais próxima do bandoneon do que do acordeom, por causa dessa fluidez. O Tango Novo surge praticamente com uma diferença de 6 meses com a Bossa Nova. O Canção do amor demais, aquele disco tão famoso, com a Elizeth Cardoso, Tom Jobim e João Gilberto, foi gravado com diferença de 6 a 7 meses de um disco que foi a base do Tango Novo, com um octeto de bandoneons. Então eles estão muito próximos. E como a gente tem muita influência da bossa nova, isso se converge. A gente já fez coisas misturando Tom Jobim e Piazzolla, são coisas muito bacanas, são dois movimentos muito importantes.

 

A ideia do Harmonitango é voltada exclusivamente para Piazzolla?

Para Piazzolla. Eu gosto de dizer que sei tocar Piazzolla, mas não sei tocar tango.

 

E tem tanta coisa do Piazzolla para ser redescoberta e trabalhada…

Muita coisa. O que tem de lado B dele que é muito bacana… O Piazzolla modificou a maneira de tocar, principalmente através do ritmo. E essa mudança é que faz a grande diferença. Não é só a questão da respiração, da melodia, dessa tensão e dessa sofreguidão que o tango tem, e ele captou isso de forma maravilhosa, mas ele mudou um pouquinho a pulsação. Quando ele muda a pulsação, a música dele passa a não ser dançante. E quando ela não é dançante, perde o sentido como tango. Por causa dessa mudança no ritmo. E aí você toca Piazzolla numa sala popular, ele é muito hermético. Você toca numa sala de concerto, podem achar que é popular. Então ele fez uma coisa que ficou sem colocação. Até hoje. Mas por outro lado a música é boa, enérgica, emociona muito e vale a pena.

 

 

Como está o espaço para a gaita na música brasileira? A gaita ainda tem que provar alguma coisa?

Na música popular e em especial na música instrumental brasileira tem uma turma muito bacana tocando. Tem gente em Brasília, Porto Alegre, Rio, São Paulo, Fortaleza, Recife… Várias pessoas vêm fazendo um trabalho muito bacana dentro dessa linha de música instrumental mais brasileira. Muita gente do choro. E dentro do blues, onde a gaita já tem um alcance muito forte. Agora, quando a gente vem para a música de concerto, aí não é tão utilizada e você ainda tem que provar algumas coisas, porque as pessoas simplesmente não conhecem. Eu fiz quatro concertos com a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). E você está na Sala São Paulo com a Osesp, que é um dos grupos mais importantes que a gente tem, e as pessoas dizem: “Nossa, eu nunca ouvi gaita com orquestra!”. Eu faço muita coisa com gaita e cordas, piano, faço muitas transcrições, buscando repertório. Eu hoje tenho aproximadamente 20 músicas dedicadas para mim. Porque eu vou atrás, eu conheço um compositor e pergunto se ele já compôs para gaita, para que fique um repertório no ambiente da música de concerto. O Tom Jobim, antes de começar o movimento da Bossa Nova, começou a escrever um concerto para gaita. Ele gostava, ele tocava gaita. Ele começou a rabiscar um concerto, mas parou e nunca mais mexeu nisso. Eu resgatei esses rascunhos. E o Aluísio Didier (compositor) pegou os rascunhos, junto com a anuência da família, do Paulinho Jobim e tudo, e fez um concerto. E a estreia dele foi em Londrina, junto com a orquestra da universidade (Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina – Osuel), a regência foi de um italiano, o Alessandro Sangiorgi. Em Londrina eu lembro também de tocar com o Alceu Bocchino muitos anos atrás. E tem o projeto Palcos Musicais, da Irina (cravista e produtora Irina Ratcheva), que eu fiz duas vezes. Uma vez com os Solistas de Londrina e outra vez com o Duo Santoro. Tenho muitos amigos em Londrina, é uma cidade muito querida.

 

O disco foi a última produção do Sérgio Oliveira?

O Sérgio Oliveira, que infelizmente nos deixou há pouco tempo, ficou enlouquecido [com o projeto Harmonitango]. A gente fez a gravação e foi o último disco que ele produziu antes de deixar a gente. Então o disco carrega também uma coisa muito carinhosa, foi uma pessoa muito bacana e muito especial.

 

 

 

Ficha Técnica

CD Harmonitango – Músicas de Astor Piazzolla 

Distribuição nacional pela Tratore.

Com José Staneck (gaita), Sheila Zagury (piano) e Ricardo Santoro (violoncelo).

Produção: Sergio Roberto de Oliveira.

Gravação, mixagem e masterização: A Casa Estúdio/RJ.

Engenheiro de gravação, mixagem e masterização: Matheus Dias.

Assistente de estúdio: Clawber Brasil.

Projeto Gráfico: Ana Luisa Vieira.

Fotografias: Cicero Rodrigues e Andre Pinnola.

Produção fonográfica: A Casa Discos.

Produzido e gravado em 2017.

 

 

 

Músicas:

-La muerte del ángel

-Milonga del ángel

-Ressurrección del ángel

-Retrato de Milton

-Fuga y misterio

-Violentango

-Meditango

-Libertango

-Oblivion

-Deus Xango

-Adiós nonino

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