Airto Moreira volta revigorado em Aluê

Airto Moreira por Janis Wilkins/Divulgação

 

Quando a cantora Flora Purim mudou-se para os Estados Unidos, em 1967, foi seguida pelo percussionista Airto Moreira. Ele estava apaixonado a ponto de deixar o Brasil pela sua futura esposa. Esse ímpeto de dobrar-se à paixão também move sua música.

 

Aluê, o novo disco do grande percussionista, é consequência dessa entrega sentimental e intuitiva. Airto Moreira não consegue fazer música se não ouvir nela as suas verdades.

 

 

É uma verve que encontra expressão na música ao vivo, realizada com a vibração do momento, sem a racionalidade das depurações digitais que torna o processo de gravação muito mais técnico do que emotivo.

 

Por isso, Aluê foi praticamente gravado em um único take. Airto conseguiu, no estúdio, a espontaneidade da música ao vivo, cultivando o improviso em que a percussão se torna uma orquestra, extrapolando em muito a questão rítmica para ambientar todas as faixas com sons primordiais, fundamentais, essenciais.

 

 

Não que fosse muito diferente antes, nos tempos de Quarteto Novo, ao lado de Hermeto Pascoal, Theo de Barros e Heraldo do Monte, trabalho reconhecido internacionalmente no meio do jazz. Já era evidente, ali, a busca pela essência da construção coletiva, o prazer de tocar em conjunto.

 

Nos Estados Unidos, o percussionista catarinense – que cresceu em Curitiba – juntou-se a mestres como Cannonball Adderley, Lee Morgan, Wayne Shorter, Chick Corea, Miles Davis, Dizzy Gillespie, John McLaughlin e Keith Jarrett – o currículo seria muito extenso mesmo para o espaço farto da internet.

 

Lá, também, gravou e lançou todos seus discos solos, entre eles Natural Feelings (1971), de onde extraiu a faixa Aluê, que dá título ao novo disco – o primeiro gravado no Brasil com músicos brasileiros. Retomar uma faixa gravada originalmente há 47 anos mostra que Airto Moreira não parou no tempo. Pelo contrário.

 

 

A Aluê de Natural Feelings é memorável. Mas a versão do novo disco vem acompanhada pela experiência.

 

Airto está mais sábio no uso dos inúmeros recursos disponíveis – a percussão tem a capacidade de se adaptar a qualquer material ou tecnologia –, utilizados sem excesso, mas ainda assim fartos, abrindo novos e surpreendentes caminhos para a música.

 

É essa visão, do Airto de hoje sobre o Airto de ontem, que marca grande parte do disco. O autor revê suas próprias ideias com uma capacidade absurda de sintetizar referências nem sempre muito claras, mas constantemente ligadas à terra, ao chão, à raiz. 

 

 

Estamos falando, portanto, de um alto nível de execução, em que a técnica apenas favorece a atmosfera captada e transformada em música. Um clima que apenas músicos gabaritados conseguem proporcionar. Sizão Machado (baixo), Fábio Leandro (piano), Vitor Alcantara (sax), José Neto (guitarra) e Diana Purim (voz) estão impecáveis no disco. Aluê foi gravado em 2017 e saiu agora pelo Selo Sesc. Já está à venda em livrarias e disponível em serviços de streaming.

Aos 76 anos de idade, Airto Moreira está em plena forma.

 

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