Leo Nantes celebra o presente no álbum instrumental As it is now

 

A guitarra distorcida e estradeira que abre o disco As it is now marca uma mudança na forma de Leo Nantes tocar. Especialmente porque ele migrou do violão cultivado nos tempos de faculdade de Música na UEL para os captadores incendiários das bandas de garagem das quais fazia parte no início de carreira.

 

Ouvindo o disco mais atentamente, percebe-se que as linguagens não estão isoladas, mas fundidas, concentrando vivências musicais diferentes que compõem o presente. É o primeiro álbum solo do guitarrista, violonista, produtor e compositor, ex-integrante do Farofa Duo, e traz, sob a pegada roqueira, um leque amplo de gêneros que inclui o maracatu, a valsa e o samba – além, é claro, do rock.

 

As it is now será lançado com show de Leo Nantes neste domingo (18/02), às 20h, no Sesc Cadeião, em Londrina (entrada gratuita – ingressos devem ser retirados no local com 1h de antecedência).

 

Para você que mora em outra cidade, a Máquina do Som preparou um pacote completo com entrevista, podcast, vídeo e texto para você conhecer a música de Leo Nantes sem sair de casa – o CD já está no Spotify, Deezer, iTunes e Google Play. Confira.

 

 

É o seu primeiro disco?

Esse é o meu primeiro disco solo. O primeiro trabalho que eu fiz mais significativo foi com o Farofa Duo, que era um dueto de violões. Era instrumental, também, mais voltado para a música brasileira. Mais recentemente eu andei tocando e gravando com o Zazou Wave, que é o Daniel Bussi, um cantor de blues radicado em Londrina. Eu produzi e toquei as guitarras e os violões do último disco dele, temos algumas músicas em parceria, também. Agora foi a primeira vez que eu peguei minhas músicas sozinho. Esse disco (As it is now) eu gravei sozinho em casa, com o tempo eu fui montando um home studio. A maioria dos instrumentos, eu toquei: o baixo, programei as baterias. Apesar de no CD haver uma faixa com o Leonardo Cacione na bateria, a maioria das baterias são programadas.

 

Gostaria que você contasse um pouco da sua história com a música.

Eu comecei por volta de 1998. Acho que faz exatamente 20 anos que eu comecei a tocar. Comecei bem influenciado por bandas de rock mais setentista, como Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin… Comecei tocando violão mas querendo tocar guitarra, com 13 ou 14 anos. Logo fui para a guitarra e fiquei mais nessa coisa do rock, bandas de garagem, bandas covers… Eu entrei na universidade em 2004 (Leo Nantes fez o curso de Música na Universidade Estadual de Londrina), já estava começando a tocar na noite e tinha necessidade de tocar outras coisas, conhecer MPB, aí você vai abrindo o repertório. Por um lado é bom porque te enriquece. Por causa da universidade, comecei a me interessar também pelo violão clássico. Muda muito a pegada, o guitarrista de rock é mais duro, mais agressivo, e o violão exige um refinamento. Você acaba mudando até o jeito de tocar guitarra. Acho que o retrato dessa época de universidade é bem o que o Farofa Duo fez naquela época, em 2009. Era uma farofa de coisas com tudo o que a gente aprendeu e vivenciou. Agora é mais ou menos aquilo também, só que mais pesado, justamente por causa desse interesse de voltar a tocar guitarra – e tentar misturar essas coisas todas com guitarra distorcida -, é uma coisa mais moderna.

 

Então vamos falar da primeira música (Cuttin’ the road), que abre com um pique de estrada, uma guitarra bem distorcida, um rock quase metal…

Ela foi uma das últimas músicas que fiz para o disco. Eu sentia que precisava de uma música mais direta, com um convite mais acelerado para começar o disco. E pintou essa ideia, essa levada, que me lembra estar correndo com o carro na estrada, parece programa de esporte radical. Essa coisa de composição é engraçada, parece que um passarinho sopra no seu ouvido e você vai deixando a coisa te levar. Não gosto muito de forçar a barra. Às vezes a música já nasce com uma cara e você tem que seguir aquilo. Não adianta colocar tudo o que você sabe numa música só que ela não vai soar bem. Você vai compondo, respeitando aquilo que a música está ditando. Tem que deixar a coisa fluir. Se for fazer alguma coisa muito diferente, tem que começar outra música. Eu prefiro dividir, por isso talvez o disco seja tão eclético neste sentido.

 

 

E a segunda faixa, As it is now?

É a que dá nome ao disco. As it is now tem o sentido de “como está agora”. Esta música foi uma das primeiras que eu fiz pro disco neste período em que eu estava voltando a tocar guitarra. E eu estava ouvindo muito esses guitarristas revelados pela internet. Nesse formato de mídias que a gente está vivendo, muita gente acaba mostrando a cara mais online do que de qualquer outra maneira. Um guitarrista que me influenciou muito foi o Guthrie Govan, um inglês que é um cara fantástico, muito versátil. E esta música parece muito as músicas dele porque eu estava ouvindo demais. E acabei dando este nome porque mostrava muito como estavam minhas composições neste momento, como é a minha música agora. E essa música tem compassos quebrados, é um pouco intrincada para tocar. Inclusive o Leonardo Cacione tocou bateria porque eu não consegui programar a bateria no computador, ficava muito complexo. É uma música bem complexa no sentido de métrica e ritmo. Tem mais cara de rock progressivo.

 

Na sequência nós temos The Film.

Eu fiz essa música assistindo a um filme, de fato. E eu achei que ela ficou com uma cara de trilha sonora, tem umas progressões na parte harmônica que me lembram os filmes clássicos. É divertido dar nome para músicas instrumentais porque é aquilo que me remete, e para cada um vai remeter a uma coisa. Ela é mais rock, também, mas tem umas pitadas dessa onda mais fusion, com uma harmonia mais intrincada misturada com o rock.

 

E falando em título de música, a quarta música é Dzz? Como se pronuncia?

Disease, no sentido de doença. Eu achei que ia ficar muito dramático e acabei colocando como se fosse uma sigla. Mas de fato eu estava doente na época, estava até de licença. Eu tinha pego uma virose terrível e músico parado… fica tocando, né? É uma balada, com uma levada meio funky, meio soul.

 

 

A próxima, Cheiro de Campo, é mais brejeira…

Exato. Ela foi gravada com violão de aço e ele tem esse caráter de viola caipira, ele dá essa pegada mesmo que você não queira. Essa talvez seja a primeira desta leva de músicas porque eu ainda estava muito na pira de compor ao violão. É mais brejeira mesmo, tem um som que dá essa sensação de campo.

 

Em seguida vem Sunday.

Essa é uma balada de guitarra, mais pesada, em tom maior, uma coisa bem pra cima, com uma melodia bem pura, inocente, até. E eu tenho uma sensação de domingo, eu gosto muito do domingo. Inclusive ela está em Sol Maior. Domingo é dia de sol: Sunday, fico tentando fazer essas relações das características teóricas da música com o título.

 

 

E ela contrasta um pouco com a próxima, Fantasia Nº1, que já tem uma estrutura composicional mais complexa.

A gente fica fuçando na internet e eu estou vendo muita gente tocar guitarra pura, sem banda. É uma música que está nessa onda, como se a guitarra fosse tocada como violão. É a guitarra solo, sem distorção e sem banda. E nasceu dessa ideia de fantasia musical, de você ter um tema com variações e muitas vezes aceita até a improvisação. Ela tem uma estrutura que, talvez, se eu for tocar, não vai sair desse jeito de novo. Tem um tema, que é o comecinho, tem uma parte B, mas no meio eu dou umas piradas, tem uns climas, improviso algumas melodias e depois volto para o tema de novo. É um tema com uma improvisação bem livre no meio, diferente da improvisação do jazz e do blues, que tem uma forma. E é número 1 porque foi a primeira fantasia que eu fiz, foi uma tentativa de explorar essa forma de composição.

 

Baby Groove, na sequência, é bem experimental.

Eu tenho um filho pequeno, que é o Arthur, e eu ficava brincando com os brinquedos dele. Criança pequena tem brinquedo espalhado pela casa toda. E às vezes eu ficava tentando tirar sons daquelas coisas, como patinho de borracha e xilofone de brinquedo. E eu tinha a pira de gravar uma música, mesmo que fosse uma coisa mais séria, usando isso. É um maracatu, e construí a levada com panelas, patinho de borracha, xilofone de brinquedo, tem de tudo. Fiz uma base, um chão, e fiquei brincando com a guitarra em cima. É um experimento, uma brincadeira, mesmo. Era bem a época que eu estava vivendo, com choro em casa e brinquedo espalhado. E a gente acha motivos para criar em cima da situação que a gente está vivendo. Como foi uma homenagem para ele, então Baby Groove seria a “levada do bebê”. É um maracatu-rock.

 

 

E Scared?

Essa é bem pesadona mesmo.

 

Mas lembra também uma fuga. Não exatamente uma fuga bachiana, mas fuga no sentido de um cara fugindo, correndo.

É uma música bem pesadona e tem a característica harmônica de heavy metal em que a gente usa muito o modo frígio, modo lócrio, com aqueles intervalos bem chocantes, então acaba tendo essa cara de suspense. É Scared nesse sentido de assustado, aterrorizado. Talvez seja a que tenha mais características de heavy metal. De fato, eu nunca tinha pensado nesse adjetivo que você colocou. E ela é bem intrincada, tem uma estrutura bem diferente, tem uma brincadeira que eu faço com os intervalos e o baixo acompanha, talvez por isso você teve essa sensação. Ela foi gravada a intenção de ser mais pesada, mais agressiva.

 

Depois vem uma improvisação livre (Pink Bird).

Essa também foi uma grande brincadeira de ir descobrindo as possibilidades que você tem com o computador. Tem um efeito que eu gosto, que é um delay na verdade, se você ouvir num aparelho estéreo, dará uma sensação de pingue-pongue, a nota começa de um lado da caixa e vai para outro. Tem uma espacialização interessante.

 

É meio psicodélica.

Muito psicodélica. Na verdade eu gravei como se fosse um improviso com esse efeito que eu estava gostando muito. No final, eu achei que tinha essa cara psicodélica e me lembrava Pink Floyd. E o jeito de frasear me parecia um passarinho. Eu fiquei com esse negócio do passarinho e do Pink Floyd. Aí deu essa ideia do Pink Bird. Ninguém vai entender mas para mim significa alguma coisa. É algo que provavelmente eu não consiga tocar mais. Achei interessante, coloquei no disco, mas não sei mais tocar aquilo. É uma brincadeira mesmo.

 

E a próxima é um samba, Last Chance.

Essa é bem recente, foi composta bem próximo de finalizar o disco, e é um samba mesmo, herança da época em que eu tocava mais violão. Apesar de eu ter gravado com violão, eu coloquei guitarra em cima, dobrando.

 

Tem alguma coisa de choro?

Ah, sim, é meio samba-choro, até porque tem uma flauta no final, acaba pendendo bastante pro choro. É mais meu lado MPB, que eu gosto de tocar ao violão. Eu gosto muito dessa praia, fico sempre pendendo entre a música brasileira e o rock, que são duas coisas muito fortes no meu jeito de tocar.

 

Para finalizar vem um bônus, Quimera. Por que é um bônus?

Eu acabei colocando como bônus porque talvez seja a que mais destoou do resto do disco, talvez seja uma sensação só minha. Essa é bem antiga, essa e a Cheiro de Campo. É uma valsa, com bastante arpejo, ela tem bastante esse caráter de música para violão solo. Eu gosto muito de Marco Pereira, de Guinga, é bem influenciada por essa galera. É o violão que se sustenta sozinho numa peça solo. Também dá bastante trabalho para tocar, mas eu gosto. Na época mais próxima ao Farofa Duo eu estava bastante ligado a esse repertório, agora nem tanto. Talvez por isso eu tenha chamado de bônus, é uma música que eu quis colocar mas não estou mais na fase de tocar isso. Acho que eu quis levar tudo isso para a guitarra e voltar mais com a guitarra do que com o violão. É a fase presente, pode ser que daqui a dois anos mude de novo.

 

 

 

SHOW

O show de lançamento do disco As it is now, de Leo Nantes, será realizado neste domingo (dia 18/02), às 20h, no Sesc Cadeião, em Londrina. Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados no local com antecedência.

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