Homens vazios

Foto: Ranulfo Pedreiro

 

Por Ranulfo Pedreiro

 

Os tempos eram de homens tristes vagando nas madrugadas com cigarros silenciosos e amores guardados no bolso como retratos amarelados de cemitério.

 

Moças de épocas distantes, já um tanto irreais, conferiam o mínimo de afeto para existências pesadas e corpulentas.

 

Pois os amores dormiam já em algum lugar do passado, desidratando os sentidos, até que um oco imenso se estabelecesse no peito com a difusa certeza de que a vida é nada mais que ilusão.

 

Mas ainda assim se encontram, fumam, bebem e dão risadas. Reúnem-se nos bares para esquecer a mais profunda solidão, companheira antiga e exigente. Jogam sinuca, beliscam algum aperitivo, contam piadas cuja falta de graça acalma seus ouvidos.

 

Caçam, nos copos baratos de cerveja, restolhos de vida. Trata-se de artigo escasso e peculiar. Quanto mais se procura, menos se encontra. Bebe-se muito por insignificantes momentos de alegria, expressos em sorrisos bem próximos do choro.

 

Logo, porém, os homens vazios perdem seus olhares, mirando um horizonte imaginário além do balcão velho de fórmica, dos azulejos descoloridos na parede, do pano verde da sinuca, da folhinha de 1987, da mosca aprisionada na estufa junto ao salgadinho de ontem.

 

É quando as dores ressuscitam em segredos trocados à meia voz, bagunçando as lembranças empilhadas no sótão da razão.

 

O sol batendo na parede da cozinha à tarde, na infância, amarelando o ambiente enquanto o bolo ainda quente exalava o cheiro inconfundível do fubá com erva-doce.

 

As lágrimas fogem, aos poucos, de mãos dadas, escalando as pálpebras para ganhar o rosto, da mesma forma que a vida escapou entre os dedos para iluminar pequenas maravilhas cotidianas.

 

Eis que os bares fecham e os homens vazios voltam à estrada sem rumo, com seus cigarros, represando o passado, sempre ele, apertando no bolso a foto esmaecida de ninguém.

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