Taryn Szpilman: a voz loura do blues

 

Basta bater um papo com Taryn Szpilman para perceber sua experiência no meio musical. Em pouco tempo ela está citando referências sólidas, nomes importantes, estilos musicais diversos, filmes e orquestras. Não é para menos, ela cresceu no meio dos ensaios da Rio Jazz Orchestra, comandada por seu pai, o maestro Marcos Szpilman.

Taryn conversou com a Máquina do Som por WhatsApp e falou detalhadamente de sua formação, relatando suas bases culturais, responsáveis por torná-la um dos nomes mais vibrantes do jazz e do blues brasileiros.

Cantora, compositora, atriz, dubladora, produtora e figurinista, Taryn Szpilman se apresenta hoje no 8º Festival Blues de Londrina, às 21h, no Bar Valentino.

Mas quem não está na cidade pode curtir a voz de Taryn nos vídeos e áudios abaixo. Vale a pena.

Com vocês, Taryn Szpilman.

 

 

Você já se apresentou em Londrina algumas vezes… O público da cidade interage, é receptivo? O que você vai apresentar neste novo show?

Taryn Szpilman – Sim, já me apresentei em Londrina algumas vezes, tenho muito costume de me apresentar no Paraná, que é um estado que eu tenho profunda admiração. Eu acho que é o lugar do Brasil onde eu moraria facilmente, além do Rio de Janeiro – onde eu moro e nasci. O Paraná é um estado com um povo com uma afinidade muito forte com a cultura em geral. Eu noto que no Paraná existem muitos teatros, muitas casas voltadas para estilos musicais sofisticados, como o jazz e o blues. Então eu sempre me senti em casa. E o público do Paraná tem um gosto especial pela cultura retrô, vintage, que eu apresento, eu noto que tem aí muitas pessoas que curtem esse movimento cultural gosta de carros antigos, música antiga, da estética antiga, da arquitetura antiga, da moda de outras eras, assim como eu. Então eu tenho profunda identificação com o povo daí que recebe o meu trabalho com muito calor e muita familiaridade por conta de tudo isso que eu citei. Sempre existe uma interação muito grande e uma identificação instantânea e uma receptividade muito grande. Eu sinto que é um público integrado ao contexto em que eu vivo, que é o resgate do jazz e do blues desde os anos 20, passando pela explosão do jazz nos anos 30 e 40, chegando aos anos 50 com o nascimento do blues rock e da soul music. E o meu trabalho é exatamente esse. O show que eu apresentarei aí em Londrina será “Um século de jazz e blues”, uma celebração da popularização dessa raiz cultural tão forte, que começou a se popularizar imensamente nas jukebox americanas desde os anos 20. É uma retrospectiva muito rica de todas essas vertentes.

 

 

Sua carreira se desenvolve em diferentes frentes, de dubladora a compositora. O artista, hoje, precisa estar preparado para atuar em um universo mais amplo, incluindo aí o desafio de diferentes linguagens?

É verdade, eu me sinto uma artista multimídia. Antes mesmo de me tornar uma cantora eu já era uma atriz mirim. Eu comecei a estudar teatro aos 10 anos e já comecei a trabalhar em TV desde essa idade, fazendo seriados. Me apresentei muito como atriz de publicidade, eu estrelei comerciais desde o Guaraná Antarctica à Smirnoff, Banco Real, Cerveja Brahma, realmente eu já tinha uma paixão muito grande pelas artes cênicas. Por ter nascido em uma família extremamente musical, obviamente eu acabei descobrindo e me encantando pela minha veia musical. E ela realmente tomou conta da minha vida a partir dos meus 15 anos de idade quando comecei a me dedicar aos meus estudos de canto. Fui estudar canto erudito, fui me aprofundar na pesquisa do jazz com auxílio do meu pai, que foi um jazzista apaixonado, fundador da Jazz Rio Orquestra aqui no rio de Janeiro. Ele tinha tudo de jazz e me colocou em contato com as grandes divas, as grandes cantoras: Billie Holiday, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Diana Washington, Etta James… E eu também fui me apaixonando pelas divas que vieram depois delas, como Janis Joplin, Tina Turner, Nina Simone… Fui me aprofundando cada vez mais. Também estudei moda. Então eu sinto que cada vertente do meu trabalho é indispensável. Todas se unem no palco. No palco tem a cantora, a atriz, a intérprete e a figurinista, porque esse aspecto do meu trabalho é muito forte. Eu tenho uma necessidade muito grande, para entrar na minha personagem, de produzir meu figurino, a imagem, o visual do meu show. É um aspecto muito importante para fazer o público embarcar nesta viagem através do tempo comigo, ambientar o público através do visual. Eu vou mesmo para as eras que eu sinto que eu deveria ter vivido através do meu figurino, que é totalmente retrô. E a dubladora veio com tudo isso, porque na carreira de dublagem a gente necessariamente tem que ser ator/atriz. Nós somos atores de voz, então uniu as minhas paixões, que é minha pesquisa com a voz, que é passar emoção através da voz, que é dar vida a personagens através da voz. E eu também sou uma dubladora/cantora além de uma dubladora/atriz. Foi algo que ocorreu espontaneamente quando eu tive o meu primeiro convite para dublar para a Disney no ano de 2002, no desenho Nem que a vaca tussa, no qual eu dublei a cantora K.D. Lang. Depois eu comecei a fazer inúmeros trabalhos para a Disney, dublei Piratas do Caribe, tantas produções incríveis até chegar ao amadurecimento para receber esse grande papel que foi a Elsa em Frozen. E eu acho que é muito importante para um artista ter diferenciais, ter vários dons, se dedicar a várias vertentes dentro do mundo artístico é um brilho a mais, é algo que enriquece. Não é algo necessário, mas eu tenho profunda admiração por artistas multimídias. Posso lembrar do David Bowie, que era cantor, compositor, ator, artista visual. A Madonna, no mundo pop, Diana Ross, que era atriz e cantora. Acho importante para um artista poder se desenvolver em outras áreas e trazer isso para o próprio trabalho, acho que é puro enriquecimento. E desafios todos nós temos em nossas diferentes áreas de trabalho. Para sermos bons profissionais temos que nos desafiar, nada vem fácil na vida. Essa é a parte bonita e prazerosa: lidar com os desafios e a lapidação ao longo da vida.

 

 

 

Você tem um repertório amplo, que pode tanto incluir uma canção dos anos 30 quanto um tema atual da Disney. Como é que você construiu sua personalidade como cantora e compositora? Quem te influencia?

Eu me sinto uma artista versátil. Eu gosto do jazz, do blues, dessa raiz da música negra que foi para o lado da soul music, do rock clássico… Na verdade tudo é da mesma família. Eu me sinto identificada desde artistas como Billie Holiday e Bessie Smith, precursoras do blues, até uma cantora como a Janis Joplin, que tinha uma voz rasgada, mais rock’n’roll. E, como eu te disse, tudo vem de uma mesma raiz. Mas, indo para o lado de uma Disney, é um estilo musical completamente diferente, mas ainda assim muito vigoroso. Eu acho que o fio da meada disso tudo são obras de profunda emoção. Isso é que me toca, obras vigorosas, profundas, que têm beleza. Isso me atrai e faz com que eu me jogue mesmo, me aprofunde. Com isso eu consigo ir, com facilidade, decupando e construindo essas personagens. No momento em que eu me apaixono facilita muito para mim construir essas obras. Eu construí essa minha personalidade através das influências que eu citei acima, essas figuras belas e fortes me influenciaram imensamente. Foi uma construção espontânea, natural, com tudo o que eu fui apresentada dentro da minha casa através da influência do meu pai. São os meus grandes ídolos e heroínas. Os astros do jazz também, como Ray Charles, do blues, bandas como Led Zeppelin, Beatles, tudo isso formou a minha personalidade e que eu levo para todos os meus trabalhos. O processo de construção de identidade é um processo de amadurecimento. A gente, primeiramente, tem a identificação, a paixão. Depois a gente estuda e se inspira nessas pessoas. Sem copiar. É um processo de lapidação muito natural. A gente vai juntando as pecinhas deste grande quebra-cabeça, dessas influências diversas, e a nossa própria personalidade vai surgindo.

 

 

Como você vê o cenário brasileiro de blues e jazz?

Eu comecei nesses estilos muito antes desse cenário existir de forma mais ampla como hoje em dia. Eu cresci dentro de uma orquestra de jazz, a gente se apresentava muito aqui no Rio de Janeiro, tínhamos patrocínios que nos permitiam levar ao grande público espetáculos de jazz e blues, e a gente percebia que sempre tocava muito o público. O público mais carente principalmente. É um público que às vezes a gente acha que o jazz e o blues vão ser muito sofisticados, mas não. O público apenas não tinha acesso. Agora tem, através dos festivais, que têm se expandido de norte a sul do país. O público, tendo acesso, percebe a riqueza, o vigor dessa música, mexe com o espírito deles. É o poder da música africana. O blues nasceu do lamento do povo escravizado nos Estados Unidos, foi uma transmutação do lamento deles que resultou no jazz e em tudo o que veio depois, que é visceral. Mesmo sendo músicas antigas, em inglês na sua grande maioria, o público embarca e gosta. É uma pena que as grandes mídias atualmente não tenham o interesse mesmo de divulgar. Acho que o interesse é muito político mesmo, de deixar o público mais ignorante, de tocar música pobre, mesmo, harmonicamente, poeticamente. Porque isso vende mais e deixa o público muito limitado. Isso na cabeça dos que têm poder. Mas graças aos festivais a gente tem podido levar às mais diferentes praças o nosso espetáculo e apresentar para todo o tipo de público, do mais humilde ao mais sofisticado. Então eu acho que o cenário tem crescido, eu acho que ele tem se fortalecido sim. Somos uma turma que está à margem da música muito popular, mas é uma margem que tem voz e tem espaço hoje. Mais do que quando eu comecei, há 20 anos, sem dúvida. Cada ano que passa tenho ido a novos festivais, novas praças, a gente conquista um público cada vez maior. É um processo de dar acesso ao público a esses gêneros.

 

 

Gostaria que você falasse um pouco dos seus projetos, do que vem por aí.

Eu estou divulgando nos festivais meu novo CD que se chama Noveau Vintage Café, é o CD 3 da trilogia dedicada à história do blues e do jazz, que eu venho lançando desde 2008 na minha carreira solo. Já cantei em inúmeros CDs da Rio Jazz Orquestra, em CDs de bossa nova para o mundo afora com o Roberto Menescal, vários CDs de trilha sonora da Disney… Mas o meu trabalho solo, desde 2008, tem essa marca muito forte e eu tenho levado de norte a sul do país este trabalho. Graças a Deus nas duas últimas novelas de época da Rede Globo, que passa no horário das 6 da tarde, tenho tido canções temáticas na trilha sonora. Um jazz meu dos anos 20 foi trilha da personagem de Regina Duarte na novela Tempo de Amar, que terminou no comecinho deste ano. Em seguida eu coloquei também uma canção para a personagem Jane da novela Orgulho e paixão, é uma canção de época, também. O pessoal da Globo, quando tem novela de época, já pede as músicas para mim, porque eles sabem dessa minha veia forte com a cultura retrô. Para divulgar os meus discos a gente está produzindo dois grandes videoclipes que vamos lançar agora no meu canal no Youtube, que eu vou começar a incrementar mais, é algo que eu estou querendo fortalecer nesse mundo moderno que eu tenho dificuldade de me enquadrar. Mas vou tentar cada vez mais mergulhar nesse mundo da internet que é o que temos hoje em dia e é muito bacana, também, democrático, com grande acessibilidade. A gente vai lançar dois videoclipes desse novo CD, um da canção Black Coffee, que é hollywoodiana, clássica; e uma outra canção que faz homenagem a Carmen Miranda, que a gente vai lançar em animação, misturando essas minhas paixões. No ano que vem vou estrear um grande show sobre uma grande artista, mas não posso revelar. Como em todo bom projeto, a gente tem que guardar segredo.

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