Fred Ferreira e Lívia Nestrovski: inovadores e emocionantes

Fred Ferreira e Lívia Nestrovski (Foto: Ranulfo Pedreiro)

Fred Ferreira (guitarra e arranjos) e Lívia Nestrovski (voz) formam um duo capaz de sintetizar a vasta experiência de ambos. É um diálogo íntimo de voz e guitarra em que as canções ganham releituras plenas de significados, muitas vezes enriquecidas pelo silêncio ou ambientações que levam a atmosferas surpreendentes. Pode-se dizer que ambos recriam o repertório de maneira autoral.

 

Com uma carreira múltipla, Fred já tocou e gravou com artistas como Alcione, Rita Benneditto (antes conhecida como Rita Ribeiro), Orlandivo, Bebeto, Jair Rodrigues e Jussara Silveira. Do samba ao erudito, o instrumentista já compôs para teatro, dança e cinema.

 

Lívia Nestrovski (foto: Ranulfo Pedreiro)

 

Lívia Nestrovski costuma cantar com Arrigo Barnabé, Zé Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski, já se apresentou à frente de várias orquestras e possui um profundo conhecimento sobre diferentes técnicas vocais. Seu repertório vai do coco nordestino ao erudito contemporâneo, do samba ao Clube da Esquina.

 

O resultado vem impressionando mundo afora. O duo já se apresentou na Europa, Oriente Médio, Estados Unidos e por todo o Brasil. Com 10 canções de autores tão variados quanto Milton Nascimento, Zé Miguel Wisnik e Kurt Weill, o CD DUO saiu em 2012 com um raro equilíbrio entre espontaneidade e experimentação.

Pouco antes de virem a Londrina, Fred Ferreira e Lívia Nestrovski conversaram por WhatsApp com o jornalista Ranulfo Pedreiro.

 

RANULFO PEDREIRO – Às vezes a gente ouve cantoras que se preocupam demais com a técnica e parecem não emocionar. Você interpreta as canções de um jeito próprio, só seu. Como desenvolver essa personalidade interpretativa? Como alcançar um canto criativo?

LÍVIA NESTROVSKI – Acredito que um canto criativo parta de um olhar criativo para o mundo e para si. Tem a ver com liberdade para se experimentar e se testar para além dos próprios limites e conceitos já pré-estabelecidos (o que já torna o processo infinito, porque dá pra ir cada vez mais fundo). Tem a ver com a construção de uma estética pessoal, que está ligada à maneira como uma pessoa se coloca no mundo e no afrontamento com as coisas e as pessoas, algo que pode ser depurado e transformado mil vezes e cada vez de forma mais densa. Esse processo de entrega psíquica e emocional é dificílimo de aliar ao trabalho técnico, porque às vezes a impressão que temos é que uma coisa caminha para o lado oposto da outra, pelo fato da técnica exigir disciplina e ter um processo que passa muito pelo lado cerebral da música. Mas as duas coisas podem andar juntas. A técnica serve para dar ferramentas para a expressão artística. Quanto mais técnicas (e digo isso num sentido amplo, pois há muitas maneiras de lidar com a voz e a música), mais maneiras de se expressar. Juntando as duas coisas, pode-se chegar a um apuro muito fino das expressões humanas e das formas de transformar isso em música. Não é o único caminho. Mas foi o meu. Existem muitos cantores altamente expressivos que não são “técnicos” no sentido ortodoxo da palavra. Prefiro mil vezes ouvir um cantor que me desperte curiosidade artística e estética, que me provoque de alguma maneira, que me cause um estranhamento, mesmo que não cante tão bem, do que um cantor super técnico que não pense sobre o que está dizendo ou onde quer chegar com aquilo que diz. Em suma, ser um ótimo cantor pode estar longe de ser um ótimo artista.

 

 

O que uma canção precisa para te chamar a atenção e ser gravada?

LÍVIA NESTROVSKI – Primeiro, precisa me provocar de alguma maneira. Pela beleza, pela estranheza, pela história que conta, pela sonoridade. Aí eu tenho que cantar para sentir se sou a cantora certa para aquela canção. É interessante, porque essa escolha passa mais pelo âmbito da “magia” do que da racionalidade. É um pouco como a história da espada do Rei Arthur. Tem canção que simplesmente te escolhe, porque se encaixa perfeitamente com as suas possibilidades vocais e te dá mil ideias de como interpretá-la. Tem canções, por outro lado, que a gente tem que lutar pra seduzir (às vezes dá certo a sedução, às vezes a canção simplesmente não te quer). Não tem muita lógica. Também é claro que isso depende do projeto. Às vezes faço a pesquisa de repertório conforme algum tema específico e busco canções que se encaixem dentro dele. Mas para o processo do duo, por exemplo, buscamos canções que nos instiguem esteticamente, então acaba variando muito.

 

A parceria com o Fred Ferreira parece aconchegar sua voz com uma harmonia própria e ambientações cheias de sutilezas que transformam as canções. Como é o processo de criação do duo?

LÍVIA NESTROVSKI – Basicamente, a gente testa muitas canções, de muitas formas, até chegar num resultado que seja interessante esteticamente e que seja coerente com o conjunto de canções que vão se formando.

O cenário da música brasileira não comercial parece grande e diversificado, mas com pouca visibilidade dentro do próprio país. Como mudar isso?

LÍVIA NESTROVSKI – Já que estamos em época de eleição, acho que uma coisa fundamental é eleger candidatos que entendam que cultura não é assistencialismo, nem esmola pra artista de classe média-alta. Cultura é o conjunto de comportamentos que nos define como grupo e nos diferencia de outros grupos. Ou seja, estamos lidando com costumes, conhecimentos, crenças, contato social e diversidade. Entender o que é cultura é importante para que saibamos nos posicionar e cobrar das autoridades a responsabilidade para algo que é vivo, mas que pode ser destruído se não for compreendido como cerne que perpassa tudo numa sociedade. Também temos nosso papel enquanto cidadãos ativos, de ir atrás, de conhecer, de ser curioso, de perguntar, de descobrir. O mundo é muito rico. E não precisa ir longe. O Brasil é celeiro de uma diversidade tão gigantesca que uma vida só não é suficiente para dar conta de absorver tudo que existe e acontece nesse país. Desde as manifestações urbanas, contemporâneas, antenadas, antropofágicas, até os costumes e festas tradicionais ou em áreas rurais. E nem tudo está na internet. Apesar dela ser uma grande ferramenta para a descoberta e o conhecimento, nada substitui o contato humano. Acredito que criar a consciência de que isso tudo existe aqui, bem perto da gente, é um grande passo. Conhecer o Brasil. Ter curiosidade com o mundo. Também podemos fazer muito com pequenas atitudes. Prestigiar os artistas locais, não só na música, mas em todas as artes, inclusive no que diz respeito à compra de produtos e roupas, por exemplo – faz muito tempo que não compro roupa que não seja feita pela minha costureira, ou que não seja achada em brechó ou que não seja comprada diretamente de estilistas independentes. Isso tudo faz parte de entender o que é cultura e se entender enquanto agente vivo da cultura. Tem a ver com resistência, nesse sentido. Isso não quer dizer que não possamos prestigiar o que vem de fora, o pop, o comercial. Tem a ver com um olhar mais criativo e menos preguiçoso, de não achar que só o que está no Google existe.

 

 

Como você vê a iniciativa do projeto circulasons? Como será o show em Londrina?

LÍVIA NESTROVSKI – Acho fundamental. Tem sido muito difícil conseguir fundos e patrocínios para projetos culturais, seja pelas secretarias de cultura das cidades e estados, seja por meio de leis de incentivo, seja por patrocínios privados. Viajamos muito pelo Brasil e vemos o esforço hercúleo que algumas pessoas se dispõem a fazer para conseguir viabilizar iniciativas culturais de qualidade em suas cidades. Tem que ser meio maluco. Porque dá vontade de desistir quando você começa a tentar. Existe um pensamento hoje de que cultura não é fundamental para a sociedade. Ou de que não é importante democratizar o acesso e os recursos entre as diversas manifestações que existem num país tão incrível como o nosso. Recursos públicos são gastos com festas milionárias de Réveillon que pagam grandes artistas – e só. Depois não tem dinheiro pra nada, pro resto do ano. Ou, via leis de incentivo, as empresas optam por patrocinar o que vai dar mais visibilidade comercial para elas. Ou seja, são distorções do que deveria ser gestão de cultura e de dinheiro público. O que a Janete [El Haouli] está fazendo em Londrina é maravilhoso. São projetos como o dela que mudam a cara de uma cidade, realmente transformam. Eu já vi processos de transformação profunda através da cultura em outras cidades, e espero que o circulasons tenha vida longa, porque tem esse nível de potencial. Tem que aplaudir de pé.

 

 

Como é o processo de arranjo para o canto de Lívia Nestrovski? Como uma canção é recriada harmonicamente e enriquecida com as ambientações?

FRED FERREIRA – É como escrever para qualquer outro instrumento. Como convivemos há muito tempo, tenho o privilégio de conhecer bastante a voz dela, isso facilita meu processo. Outra vantagem é que Lívia é uma cantora com muita qualidade técnica, além de ser muito organizada com o estudo. Posso propor coisas muito específicas e complexas e ela sempre dá conta.

Sobre a recriação, tento sempre tratar de tudo com o cuidado devido ao texto. Busco sempre equilíbrio entre alguns pilares: 1) Não ferir o sentido do texto sem um propósito. 2) Entender e desenvolver a canção dentro da sequência do concerto, dentro de uma idéia central de repertório. 3) Experimentar versões diferentes da mesma canção, abrindo tempo para explorar os timbres e possibilidades da guitarra, da voz e do que mais for.

Aí vai depender muito da necessidade. Se o show precisa ser enriquecido com pesquisa de rítmica, por timbres, por harmonias complexas, ou com espaços de silêncio, vou buscar equilibrar da forma que mais enriqueça o processo da escuta.

 

 

 

 

O que faz uma canção ser incorporada ao repertório do duo? Vocês pretendem incorporar músicas autorais ao repertório?

FRED FERREIRA – A escolha parte de pesquisas amplas. A gente ouve e testa muita coisa, mas é só depois de experimentar que a gente sabe se vai funcionar o potencial da música dentro do repertório. No geral, buscamos criar um discurso musical que potencialize a experiência do concerto. Nesse sentido, a construção da ordem do repertório direciona muito. Há casos de arranjos que ficam de fora do show simplesmente por disputarem o mesmo espaço que outros arranjos. Outros que entram para o show, ou disco, exclusivamente por amplificarem o potencial da experiência sonora.

Na verdade sentimos que o fazemos é também autoral. Mas sei que se refere a compor canções inéditas. Bem, pensamos nesse mergulho, sim! Porém é algo que demanda tempo, organização e espaço mental, algo que tem nos faltado. Há alguns anos acabamos assumindo um perfil de “músicos de estrada” mais do que de estúdio. É sempre uma correria. Num futuro próximo acho que vamos conseguir construir o ambiente propício e produzir nesse sentido.

 

O segundo disco está a caminho mais atento à ambientação eletrônica. Como será esse novo álbum?

FRED FERREIRA – Diria que o foco do próximo disco não é o universo da música eletrônica. Há 3 três momentos nos quais utilizamos um pequeno teclado, uma pequena máquina ritmos sintetizados e também sons de “coisas” como trens, humanos, ou pedras, ar, etc. Mas não é o foco do disco. Esse disco talvez venha ser uma ponte entre o primeiro álbum e um terceiro, um pouco menos guitarra e voz, que já está em fase de concepção.

 

 

Você trabalha com música erudita, trilha sonora, produção musical… São diferentes e amplos campos de trabalho. Pode-se dizer que toda essa experiência é condensada no formato guitarra / voz do duo? Como é lidar com essa diversidade de linguagens?

FRED FERREIRA – Minha formação foi sempre se consolidado em curvas acentuadas. Comecei estudando guitarra, mas meus primeiros anos de palco foram tocando contrabaixo elétrico. Aí comecei a me afeiçoar pela música erudita e tocar um pouco do repertório do violão, estudei um pouco de piano e fiz umas produções bem incipientes em softwares bem arcaicos. Resolvi estudar composição. No meio do caminho, uma outra curva: me formei em viola (de orquestra) também. Acho meio caótico, mas sobrevivi. Toda essa experiência acaba sendo sim condensada no trabalho do duo. Se manifesta o tempo no desenhar das coisas todas.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *