Egberto Gismonti: “O destino sempre foi benevolente comigo”

Gismonti por Marcos Hermes/Agência Lens

 

Egberto Gismonti é um dos nomes mais importantes da música na atualidade.

 

Como não é incomum acontecer no Brasil, seu reconhecimento é maior no exterior, especialmente por conta das parcerias com nomes como Charlie Haden (contrabaixo) e Jan Garbarek (saxofone), entre outros, quanto pelos muitos álbuns gravados pelo selo alemão ECM Records.

 

Caso raro de um virtuose tanto no violão quanto no piano – e aqui o termo virtuose tem a conotação positiva de virtude diante do instrumento -, Gismonti é um criador farto e livre, com um vocabulário musical imenso e profundamente brasileiro. Sua música flui, solta, sem as preocupações formais das formas clássicas. Simplesmente estabelece um diálogo imediato com o ouvinte. Seja adulto ou criança.

 

Esqueça, portanto, a ideia de que Egberto Gismonti é um compositor “difícil” ou “erudito demais”. Apenas ouça. Certamente você será conquistado.

 

Aos 71 anos de idade, 70 discos gravados, Egberto Gismonti fecha a programação de 2018 do projeto #circulasons em Londrina, tocando na mesma noite em que o Duo GisBranco.

 

Por e-mail, ele conversou com a gente – eu (Ranulfo Pedreiro) faço parte da equipe do #circulasons – sobre seu processo criativo, suas parcerias, a influência da família e o show.

 

 

Muitos músicos brasileiros dedicam-se ao estudo e desenvolvimento técnico, mas poucos alcançam uma identidade musical, reconhecível mesmo em experimentações e improvisos, como é o caso de Egberto Gismonti. Como alcançar essa identidade artística?

EGBERTO GISMONTI – Considerando que essa “identidade musical” está sendo colocada por você, não posso responder a partir do conceito estabelecido por você. Prefiro agradecê-lo pela qualificação e supor que o principal fator que justificaria esta propriedade seria consequência de tocar dois instrumentos contraditórios (piano e violão), estimulado pelo pai libanês (“meu filho tocará um instrumento aristocrático”) e mãe italiana (“está bem o pianoforte, mas onde estará a serenata? Meu filho tocará violão”). Certamente você sabe que criança não tem limite preestabelecido. Por isso, estudar dois instrumentos contraditórios foi admitido pelos pais e pelo filho. Esta é uma situação incomum, que pode ter gerado essa identidade artística que você observa.

 

Você vem de Carmo (RJ), uma região de riqueza histórica, cercada por natureza, com bandas tradicionais e manifestações populares. Até que ponto a infância e a convivência familiar foram influências determinantes em sua carreira?

EGBERTO GISMONTI – O Carmo, a região, a família e os amigos foram muito importantes. Por outro lado, não sei o que eu teria feito ou conseguido sem a ajuda, a influência e a direção de vida dada e orientada (até hoje) pelo meu querido tio Edgard.

 

 

Você é um compositor e improvisador com vasto repertório. Poucos instrumentistas tratam a música de forma tão livre. Qual a origem dessa fluidez, dessa capacidade de criar tanto e com tanta qualidade?

EGBERTO GISMONTI – Suas observações são interessantes e incomuns – no melhor que os adjetivos (masculino ou feminino) contêm. Talvez o exercício constante e permanente, e a manutenção de dois instrumentos como expressão das melhores ideias, me obriguem a aproximação da fluidez, quantidade e qualidade que você descreve. Vou pensar mais calmamente sobre isso.

 

Sua discografia traz encontros com músicos como Naná Vasconcelos, Jan Garbarek, Charlie Haden, entre outros instrumentistas com grande liberdade interpretativa. Quais as parcerias mais importantes, inesquecíveis, que marcaram a sua carreira?

EGBERTO GISMONTI – O destino sempre foi benevolente comigo. Cada parceiro que tive desde o início da minha vida profissional (Wilson das Neves, Sérgio Barroso, Radamés Gnattali, etc), passando por todos que agora me lembro (Robertinho Silva, Luís Alves, Nivaldo Ornelas, Zeca Assumpção, Nenê, Mauro Senise, Jaques Morelenbaum, Naná, Airto Moreira, Jane Duboc, Olivia Byington, Flora Purim, Marie Laforêt, Bernard Wistraete, o coral firmado pelo Sidney Waismann, Aleuda, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Charlie Haden, Jan Garbarek, John McLaughlin, João do Pife, Yo Yo Ma, Ars Nova, Bo Holten, Irmãos Assad, Guitar Duo, etc), e, chegando ao quarteto atual (Grazie Wirtti, Rafael e Daniel), sem nenhuma dúvida ou demagogia posso te garantir que cada um (a) me ajudou na construção das ideias e das realizações musicais.

 

Mesmo quando dialoga com diferentes gêneros e instrumentistas, sua música continua profundamente brasileira. É preciso ter essa identidade clara para conquistar a liberdade de experimentar e olhar para o futuro?

EGBERTO GISMONTI – Suas palavras coincidem com meu desejo, por isso, a resposta é SIM, no meu caso específico, tenho certeza de que a liberdade de experimentar e olhar para o futuro demanda coragem, amor e determinação. Também demanda certeza de que como Músico devo servir ao ouvinte o melhor que eu possa fazer. Essa é a liberdade, saber que a consequência da fidelidade do outro à minha música me possibilita sonhar com a liberdade.

 

 

Como você avalia a produção cultural no Brasil de hoje, diante do cenário que se apresenta?

EGBERTO GISMONTI – Nos meus 70 anos de vida, 50 de vida profissional, eu já passei e já vi o Brasil passar por vários cenários diferentes. Aprendi que somente o tempo determina o que obtemos com impasses. Sei que seguimos na procura de coisas novas – inquietação da nossa miscigenação… Somos plurais, difíceis de sermos comandados ou dirigidos. Acho que saberemos achar novas saídas.

 

Há em Londrina um público ansioso pelo show… Como será a apresentação?

EGBERTO GISMONTI – Apresentações “solo” com músicos que já lançaram 70 CDs são quase sempre imprevisíveis. A tal da liberdade falada acima deve prevalecer. Acho que irei tocando e sentindo como continuar.

 

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#circulasons

Show Egberto Gismonti + Duo GisBranco

20/dez | 20hs | Teatro Ouro Verde/UEL | Londrina

Ingressos: Ciranda, Brasiliano, Sonkey, Teatro Ouro Verde e Sympla (https://bit.ly/2TCbRFm).

Curadoria, produção e realização:

Janete El Haouli | TOCA: arte ação criação

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