Naná Vasconcelos: “Quero sair do silêncio para ir até o êxtase e vice-versa”

Fonte: Wikipedia Commons

Corria o ano de 2001 quando o compositor e percussionista Naná Vasconcelos lançou, no Brasil, o disco Fragmentos, pelo selo Núcleo Contemporâneo.

 

Por telefone, conversei animadamente com o músico, que respondeu com bom humor e ainda deu alguns pitacos sobre a desacreditada Seleção Brasileira de 2001 – que viria a ser campeã mundial em 2002, contrariando as expectativas.

 

“Coloca uma foto pequena minha para não assustar o pessoal”, brincou Naná.

 

O tempo passou, mas as respostas deste grande instrumentista permanecem intocáveis. 

 

Naná Vasconcelos morreu em 9 de março de 2016, após uma parada respiratória. Estava com 71 anos.

 

Esta entrevista foi publicada originalmente na Folha de Londrina em 2 de agosto de 2001.

 

 

Como você chegou à compreensão de que o corpo é seu principal instrumento?

NANÁ VASCONCELOS – Aprendi pelo mundo. O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo. Isso é resultado da necessidade de manter um concerto solo e fazer com que ele seja musical. Tive que usar todos esses recursos. Eu mexo com a percussão não para fazer ritmo, mas como se fosse uma orquestra, para fazer música. Eu tenho um show que é O Bater do Coração, cuja ideia é contar uma história, que é muito simples, não quer intelectualizar muito, é música visual. Eu transporto o ouvinte para a selva.

 

Você fala que sua música é visual, e o CD Fragmentos traz obras feitas para cinema e para a dança. De onde vem essa ligação?

NANÁ VASCONCELOS – Eu tenho essa ideia, é uma pretensão de mostrar o aspecto visual da música, não tem nada de meu. Villa-Lobos já fez isso em O Trenzinho do Caipira, ele leva você pelo Brasil. O meu trabalho de orquestração foi feito fora do Brasil. Eu comecei a fazer música para TV na França, e surgiu essa ideia. Mas em Pai Grande, com Milton Nascimento, já tinha essa ideia, eu queria colocar um navio negreiro no Amazonas, criar um ambiente para a música. Eu uso a voz como elemento percussivo, desenvolvi poemas onomatopaicos.

 

 

O disco Fragmentos foi lançado em 1998 na Europa, Japão e Estados Unidos. Por que só agora (2001) chega ao Brasil?

NANÁ VASCONCELOS – Isso está chegando aqui porque eu falei com o (selo) Núcleo Contemporâneo. São coisas que eu fiz para filmes. Meus discos todos são difíceis no Brasil, não faço parte de um movimento, minha música não toca no rádio… Eu toco no disco de fulano, de ciclano, do Lenine, do Zeca Baleiro, do Zé Ramalho… Mas o público, quando escuta, gosta. Pessoas que nunca me ouviram antes, ouvem e gostam. Mas hoje a música é um produto, e um produto dura dois dias ou dois anos. Depois criam outra coisa. Não tem nada de mal nisso, eu tento ver o lado positivo: no funk, o dinheiro está sendo distribuído para a periferia, essas pessoas organizam programas sociais.

 

Como surgiu essa noção de música orgânica?

NANÁ VASCONCELOS – Com essa ideia de fazer solos. Pancadaria já tem muito. Quero sair do silêncio para ir até o êxtase e vice-versa. Quero a transposição de uma coisa para outra. Eu transporto o ouvinte para outro lugar.

 

Quais são os trabalhos que você está desenvolvendo?

NANÁ VASCONCELOS – Eu acabei a trilha de um curta-metragem chamado As Heroínas de Tejucupapu e estou fazendo a trilha de um longa, As Tentações de São Sebastião, de José Araújo, o mesmo de Sertão das Memórias, que está no disco. Também gravei com o Itamar Assumpção, vamos terminar agora, dar as últimas pinceladas.

 

 

Você inovou a percussão em vários conceitos. Como você vê os instrumentistas brasileiros de hoje? Eles também estão com os horizontes mais amplos?

NANÁ VASCONCELOS – O jovem está muito ligado no que está em voga no mundo, com a tecnologia. Tem muita gente relendo o choro, uma garotada levando a sério o violão e cavaquinho. E tem o pessoal ligado aos samplers, à tecnologia, à internet. Eu estou mexendo com eletrônica desde 1984, quando usei uma bateria eletrônica nos Estados Unidos para um grupo de break dance. Mas utilizo a bateria eletrônica tocada ao vivo. E gravei de uma maneira que não se sabe quem está tocando, se sou eu ou a bateria.

 

Quer dizer que você está atento à tecnologia… E a música eletrônica, como o techno, você tem acompanhado?

NANÁ VASCONCELOS – Eu acompanho o techno e o drum’n’bass há anos no Japão. Em Nova York, toco sempre com DJ. Estou gravando agora, vou reunir vários músicos, já tenho coisas prontas, vou ter que montar uma banda. Eu quero botar todo mundo na pista de dança, quero por o pessoal para dançar.

 

 

Então o próximo disco vai revelar um Naná Vasconcelos pop?

NANÁ VASCONCELOS – Totalmente pop, vou pintar o cabelo de azul! A gente tem que estar aberto para essa garotada.

 

A música brasileira está sendo encarada com seriedade no exterior ou ainda enfrenta uma visão caricaturical?

NANÁ VASCONCELOS – Tem um lado visto com seriedade, com a música orgânica, acústica. A música brasileira tem uma qualidade que só a gente tem. Porque só nós tivemos Villa-Lobos, e com isso tivemos uma cultura europeia para harmonizar. Esse lado europeu, os Estados Unidos não têm. Mas e a Seleção Brasileira? Será que vai?

 

Vamos torcer…

NANÁ VASCONCELOS – A Seleção perdeu a dança. O futebol do futuro é o africano, que aprendeu com a gente. Havia uma época em que o futebol era uma coisa que só a gente fazia. Agora parece futebol de salão, europeu, perdeu a dança, a intuição.

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