As paixões de Abigail

Nunes não é exatamente um homem contemporâneo. Nem o bairro de Benza Deus, onde as fofocas dobram rapidamente a esquina para alcançarem ouvidos certeiros.

Digo isso porque Nunes tem o tipão de um cafajeste dos anos 70. Calça social marrom, presa por um cinto cujo desafio maior é sustentar a barriga. Camisa por dentro, botões abertos exibindo o peito ornado pela corrente dourada. Anel de ouro no dedinho, relógio verde brilhante no braço. A cabeça calva, ornada por ralos fios laterais, destaca-se pelos óculos escuros, grandes a ponto de se fundirem ao bigode grisalho e farto. No canto da boca, um inseparável palito de dente.

Taxista, Nunes só liga o carro para percorrer grandes distâncias. Dispensa as corridas curtas e, com isso, ganha tempo para o dominó diário com amigos do ponto, no famoso bulevar de Benza Deus.

Estava prestes a ganhar uma partida, quando alertaram:

-Ô Nunes, aquela não é a tua mulher?

Sim, era Abigail. Descendo o bulevar de braços dados com um moçoilo.

***

Há que se pesar a dedicação de Dona Abigail às atividades domésticas. Se, no dia do incidente, ela parecia vistosa e faceira, em casa era devorada pelo cotidiano. Seus gestos automáticos, seguidos pelos olhos murchos, repetiam-se quase em transe, desligados da vida. As tarefas da casa arrastavam Abigail feito um barquinho de papel na enxurrada.

O tédio terminou por esconder seus atributos, há muito ignorados pelo marido. Antes radiantes, os olhos verdes acabaram ofuscados pelo olhar de peixe morto. Um pano mal amarrado escondia os cabelos cacheados. E o vestido, puído, disfarçava o corpo inteiriço, ainda repleto de chamas secretas.

Deu-lhe uma enxaqueca, correu na farmácia e conheceu Benito, ou Benitinho, apelido conferido pelas admiradoras que ele tinha pelo bairro.

O farmacêutico ocupou-se das dores de Abigail, indicando este ou aquele remédio.

Não é que os problemas de saúde tornaram-se frequentes? Ir à farmácia era o acontecimento do dia. Os cabelos ganharam liberdade, as roupas novas deixaram de ser exclusividade domingueira.

Benitinho percebeu que Abigail andava remoçada. Certo dia, ao devolver o troco, reparou nos olhos verdes. E eles sorriam.

(Continua)

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