AS PAIXÕES DE ABIGAIL (PARTE II)

Todo dia Abigail tinha pressão baixa, dor nas costas, resfriado, terçol, mau-jeito, tonturas, fraqueza, anemia, verminoses, queimação estomacal, refluxo.

Ou então buscava chás de emagrecimento, vitaminas, curativos, cápsulas de alho, pó de guaraná, Biotônico Fontoura, pastilhas para a garganta, pedras-pomes, balas de gengibre, escova de dentes, emplastro Sabiá, lixa de unha, buchas, Almanaque Capivarol.

Não saía da farmácia. Era sempre atendida por Benitinho, solícito inclusive na aplicação de certa injeção que, por dolorosa, preferiu-se evitar a musculatura do braço, optando pela nádega direita.

A picada provocou tempestades buliçosas, arrepios, impulsos, suores e fervores interrompidos pela dor, que se espalhou como uma explosão pela perna de Abigail, a ponto de precisar do amparo de Benitinho para caminhar.

Assim, de braços dados, desceram o bulevar, até ouvirem uma voz de trovão:
-Que porra é essa?

Benitinho foi logo improvisando:
-Seu Nunes! Que bom lhe encontrar! Dona Abigail está com dores.
Passou o braço dela para o marido e desapareceu feito mágica.

Nunes ficou olhando fixo para a esposa, coçando a nuca, e esperou chegar em casa para perguntar:
-Mas que raio de injeção foi essa que você tomou?
-Benzetacil. Inflamação na garganta.
-Vixe Maria, essa dói! Como está o braço?

Abigail gelou. Sem a lábia de Benitinho, restou-lhe a verdade:
-Não tomei no braço.
-E tomaste onde, criatura?
-Na bunda.

O taxista invadiu a farmácia aos berros, empunhando o 38. Benitinho escapou pelos fundos em desabalada carreira, sumindo do quarteirão, da rua e do bairro.

Temendo a fama de frouxo, Nunes deu tiros para o alto e esbravejou, assustando até os companheiros de bulevar.

Voltou ainda bufando, jogou Abigail contra a parede, rasgou-lhe o vestido, tirou a cinta e despregou-lhe uma surra.

A esposa permaneceu em silêncio resoluto, embora o couro estalasse em sua pele, tatuando vergalhões onde se lia: AVERSÃO, REPULSA, COVARDIA.

Naquela tarde, Nunes perdeu a mulher.
Não, Abigail não morreu. Seu corpo recuperou-se até rapidamente das feridas, retomando os gestos sonolentos e o olhar murcho.

Os sentimentos, porém, alçaram voo, intensos, em busca de refúgio.

(continua)

Texto e foto: Ranulfo Pedreiro

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