AS PAIXÕES DE ABIGAIL (final)

Da janela da cozinha, Abigail avistou um cantinho perfeito para plantar algumas rosas. Havia voltado à vidinha caseira, sem aventuras, com os olhos zumbizando pelos cantos, desinteressada por tudo.

Mas aquele cantinho feio parecia exigir um pouco de cor para espantar o cinza.

Tirou o avental, o lenço dos cabelos, ajeitou o vestido e foi até a floricultura, ali perto, de onde voltou com uma linda muda de rosas alaranjadas.

Enfiou as mãos na terra molhada, entre caramujos e minhocas, e cavucou. Depois, tirou a planta cuidadosamente do vaso, observando os espinhos, acomodando-a no buraco. Sentiu-se feliz.

A roseira cresceu a olhos vistos e o quintal, decadente e entulhado, foi cedendo espaço para flores, temperos, samambaias, leguminosas, hortaliças, plantas cheirosas, tudo que tivesse utilidade ou fosse simplesmente bonito.

A vida ressurgiu no jardim, e até mesmo o Nunes, agora um enfezado introspectivo, tinha gosto de ver a mulher assim tão prendada nas atividades domésticas.

Ranzinza e calado, ele murchava numa cadeira de balanço, na varanda, ao lado da cozinha, enquanto as cores vicejavam ao redor da casa.

Já não ia mais ao bulevar. Aposentou-se como taxista, vendeu o carro e o ponto, juntando um dinheirinho para passar os dias em casa. Não aguentava mais os parceiros de dominó e suas piadas repetitivas. Via-os, agora, como um bando de desocupados.

Descansava na varanda com os olhos fixos em algum horizonte distante, perdido em pensamentos, confundindo os dias e as horas.

Às vezes, acordava cedo e vestia-se como se fosse trabalhar, procurando as chaves do carro. Abigail o lembrava:

-Você está aposentado, Nunes.

Ele suspirava fundo, um misto de alívio e desengano.

Olhava para as próprias mãos enrugadas, com veias à vista, e percebia que o tempo havia escoado sabe-se lá para onde. Anoitecia, e Nunes ainda estava perdido em si mesmo.

Alegrava-se, internamente, ao contemplar Abigail. Cada vez mais jovem, bonita outra vez, andando aos sorrisos pra lá e pra cá, podando, adubando, semeando a vida que se desenrolava a partir de seus dedos.

Plantado na varanda, Nunes dispersava os pensamentos. Que mulher, meu Deus! Quanta fartura! Quanto tempo perdido num banco de praça de Benza Deus. O quintal tornara-se um universo. Cada formiga evocava mistérios e descobertas.

Abigail olhava-o sem compreender. Alheio às ebulições internas, Nunes não movimentava um músculo.

O marido ciumento e brigão contentava-se, agora, em perseguir a esposa com os olhos.

Assim reconheceu, pela primeira vez, que a amava.

E amava Abigail a ponto de ignorar as visitas frequentes e festivas do moço da floricultura, a quem atribuía gestos efeminados. Nunes cultivava esse preconceito para evitar pensamentos buliçosos. Não queria suspeitar novamente da mulher.

De repente, deu de murmurar. Conversava com os mortos.

No quintal florido, viu a casa de seus pais, construída em peroba-rosa naquela terra tomada pela vermelhidão.

Saltitava pelos cantos, soltando pipa, rodando pião, chorando atrás da porta após uma surra de rabo de tatu.

-Mãe, eu não sujei os lençóis!

Depois reaparecia descalço, ajudando o pai no plantio, o milho do passado crescendo entre as flores do presente, tantas cores, tanta riqueza num pedacinho de terra!

-Papai comprou um carro para ser chofer de praça!

Seu avô Genaro apareceu sorrindo, a tia Noca fazia pamonha, o cão Faísca latia para as galinhas. Zizo e Tião apareceram para jogar burquinha e guerrear com merda de cavalo!

-Pega, Faísca! Olha, vô, o pomar tá lotado de fruta! Mãe!

Abigail lhe segurava a mão.

-Pai! Tia Noca! Zizo! Tião!

Os olhos estalados viam tudo, viam demais, meu Deus, finalmente compreendiam tanta riqueza!

A vida se ia, farta e boa.

(Texto e foto: Ranulfo Pedreiro)

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