MUT657, na corda bamba do improviso

MUT657 – foto de André Reis

Não é de hoje que o risco – e a liberdade – atrai os músicos para o improviso.

No caso da banda londrinense MUT657, a sedução do risco é acompanhada pelo prazer da construção musical em pleno palco, com influências não só do free jazz, mas também da música de concerto europeia dos anos 60 e da música brasileira.

O grupo estreia um novo repertório, totalmente autoral, com apresentação no dia 1/05, às 21h30, no Bar Valentino, em Londrina. O ingresso custa R$10.

Ennntre Laça Mennnto reúne composições que devem ser lançadas no próximo disco do MUT657. O grupo entra em estúdio no fim do ano, ganhando tempo para que as obras amadureçam no palco, deixando o improviso ainda mais natural.

Formada no Departamento de Música e Teatro da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o MUT657 conta com Fábio Furlanete (sax tenor), Bruno Cotrim (bateria), Samuel Melo (saxofones), Reinaldo Resquetti (trompete) e Edmilson Tomaz (contrabaixo).

Ouvindo o MUT657, percebe-se como o conjunto, o coletivo, é importante para as construções propostas e suas respectivas soluções, criando uma unidade com labirintos cujas saídas exigem criatividade e ousadia. 

O trabalho da banda deve ser disponibilizado em breve nas plataformas de streaming.

Por telefone, o professor/compositor Fábio Furlanete conversou com a gente sobre o novo repertório.

Gostaria que você explicasse um pouco como funciona as composições do grupo.

FÁBIO FURLANETE – No trabalho anterior, a gente misturava standards pouco conhecidos com composições de autores locais, temos bastante gente de Londrina escrevendo para a gente, alguns compositores da universidade (UEL), pessoal de fora e improvisação livre – sem nada pré-estabelecido. Para este repertório novo, temos composições do nosso baixista [Edmilson Tomaz], que é um bom compositor, um bom arranjador, e ele faz temas típicos de free jazz, só que misturando elementos de música brasileira, gosta muito de Moacir Santos, Sizão Machado, desse pessoal. E tem coisas minhas também, de improvisação dirigida. São composições com características da música europeia de concerto dos anos 60 – Stockhausen fazia bastante essas coisas nos anos 60, com instruções verbais estabelecendo os limites mínimos para a improvisação. Nesse repertório novo, nós vamos misturar as duas coisas, as composições do Ed, que são peças de free jazz com um caráter mais brasileiro, e essas peças de improvisação dirigida, que são minhas.

Esse repertório vai virar disco, como foi feito com A Lógica do Acontecimento?

FÁBIO FURLANETE – Sim, o nome e a arte do show já são o nome e a arte do disco. A gente vai passar este ano amadurecendo o trabalho no palco. No final do ano devemos gravar para lançar no ano que vem.

Gostaria que você falasse um pouco do Coletivo de Livre Improvisação Contemporânea, que surgiu a partir de um projeto de pesquisa seu.

FÁBIO FURLANETE – Isso mesmo. Estou trabalhando com pesquisa a respeito de improvisação desde o final do meu doutorado, em 2010. E a partir desta pesquisa, surgiu o primeiro grupo de improvisação, o Armila, que é só improvisação livre e está ativo. E, ao redor do Armila, começou a se agrupar mais gente. E formamos esse coletivo na UEL, que reúne professores, alunos, alunos de outros cursos, gente da Arquitetura, da Agronomia, do Direito. E gente da comunidade, músicos da noite e músicos amadores, que estão lá para estudar e ajudar a pesquisar a improvisação. O foco principal é a improvisação livre, mas a gente tem grupos de estudos de improvisação idiomática também, como improvisação no jazz, no choro, tem um grupo que trabalha improvisação no rock. Tem uns três ou quatro grupos – fora o MUT657 e o Armila – que se formaram lá. Tem o Improvisório 6, o Grupo 11, o Octopus, esse pessoal todo é de gente que se formou com a gente.

Eu sei que existem vários tipos de improvisação, mas me parece que o cerne da improvisação continua sendo aquela sensação de estar numa corda bamba, do risco. O que atrai tanto na improvisação?

FÁBIO FURLANETE – O risco, com certeza, é um fator muito importante. É a ideia de que você vai ter que fazer alguma coisa mas não sabe exatamente o quê. Você vai ter que lidar com os problemas conforme eles aparecem, e você está o tempo todo testando a sua capacidade de resolver os problemas que são colocados pelo grupo. Outra coisa importante, para mim pelo menos, porque vai variar de músico para músico, é a ideia de que o que eu estou construindo no palco, não estou construindo sozinho. É comum a sensação de estarmos tocando, ouvirmos um som e não termos certeza se o som que você está ouvindo foi você que fez ou foi o outro que fez. Existe uma construção de grupo que transcende a minha vontade individual ou a vontade individual de cada um no grupo. Isso é muito legal quando você sente acontecendo.

MUT657 é o nome de uma sala da UEL, não é?

FÁBIO FURLANETE – Exato, dar um nome para banda é uma coisa complicada. Nós tentamos vários nomes quando o grupo foi formado, e a gente percebeu que estava ensaiando sempre na mesma sala. Ficamos um ano ensaiando antes de colocar o trabalho na rua. E sempre na mesma sala, que é o estúdio de música do curso da UEL. É a sala 657 do Departamento de Música e Teatro.

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