Whitney Shay: blues para mulheres fortes

Whitney Shay (foto: Rei Santos)

Por Ranulfo Pedreiro/Fotos: Rei Santos

Os olhares do cenário internacional de blues voltaram-se para Whitney Shay desde o lançamento, em 2018, do disco A woman rules the world. A cantora californiana já vinha conquistando espaços desde Soul Tonic (2012), mas o novo álbum tornou-se um marco. Afinal, acostumada aos palcos desde os três anos de idade, Whitney Shay conseguiu produzir um disco personalíssimo, com canções próprias e vigor surpreendente.

Encerrando a turnê brasileira, Whitney Shay apresentou-se no sábado (27/04) pelo Festival Blues de Londrina, realizado pelo músico e produtor Kiko Jozzolino (leia abaixo a resenha do show).

Igor Prado e Whitney Shay (foto: Rei Santos)

Não é difícil entender por que A woman rules the world ganhou tanto destaque, incluindo o San Diego Music Award de 2019 como Artista do Ano e Melhor Álbum de Blues – e a indicação para melhor Artista Feminina de Soul/Blues pela The Blues Foundation 2019. Shay já levou o San Diego Music Award em 2017 e 2018 como Melhor Artista de Blues.

Um dos segredos para a repercussão está no profissionalismo. Acostumada às peças teatrais e musicais desde a infância, Whitney Shay tem graduação em teatro. É atriz, e levou a experiência cênica para a personalidade musical, incluindo os figurinos propositalmente retrôs e brilhantes, contrastando com os cabelos apimentados de vermelho.

Whitney Shay e Gabriel Zara (foto: Rei Santos)

A voz, porém, remete a cantoras explosivas de épocas diferentes, de Bessie Smith a Etta James. Suas referências incluem personalidades contestadoras, que lutaram pelo direito do voto e adotaram posturas de confronto à submissão. Toda essa inspiração foi respaldada por muito trabalho. Só em 2018, Whitney Shay fez nada menos do que 300 shows.

O tempero retrô não impede que A woman rules the world trate de temas contemporâneos. Afinal, as questões femininas continuam atuais e são cantadas sem descanso, com energia e sedução, unindo blues, rhythm & blues e soul.

“Eu sinto que esperei um longo tempo, aprendi e cresci como artista durante todos esses anos para realmente me preparar para o sucesso com este novo disco, e eu estou incrivelmente orgulhosa do resultado final”, comenta Shay, em entrevista por e-mail:

Kiko Jozzolino, Igor Prado e Whitney Shay (foto: Rei Santos)

Você tem uma voz forte e uma presença poderosa no palco. Quem te influenciou diretamente? Quem você ouviu muito?

Whitney Shay – A cantora que eu mais ouvi é a fenomenal Etta James. E a amo não apenas porque sua voz é fabulosa, mas também porque tudo que ela cantou, do jazz ao soul, do rock ao rhythm & blues, era 100%, sem remorso, ela mesma. Eu ouvi uma grande variedade de cantoras inspiradas como Bonnie Raitt, Eva Cassidy, Big Mama Thornton, Big Maybelle e Bessie Smith, mas quase esqueci a inspiração de artistas masculinos como Ray Charles, Otis Redding, Little Richard, Donny Hathaway, Elmore James e Sam Cooke.

Você parece bastante influenciada pelos anos 40 e 50, mas tratando de assuntos contemporâneos. Como você desenvolveu seu estilo?

Whitney Shay – Não importa a época, mulheres fortes sempre são mulheres fortes. Uma das razões em que eu mergulhei no blues dos anos 20 foi porque Bessie Smith, Sophie Wallace e outras rainhas do blues daquele período cantavam músicas fortes e tinham atitudes ferozes, que refletiam o ambiente político das sufragistas [mulheres que reivindicavam o direito de votar] naquele tempo. Mulheres como Etta James e Big Mama Thornton tinham personalidades fortes e cantavam, de forma atrevida, canções impetuosas nos anos 50 e 60, e mostravam sua personalidade por intermédio da música. Para mim, ser eu mesma e ser uma mulher forte é tudo que eu sei ser, e eu penso que cantoras que eu admiro sempre foram dessa forma, independente da época.

Vinícius Zanin, Kiko Jozzolino e Whitney Shay (foto: Rei Santos)

Você é jovem, mas parece ter uma experiência de cantora veterana. De onde vem essa experiência? Dos muitos shows que você faz todo ano?

Whitney Shay – Embora eu seja jovem, venho atuando a maior parte da minha vida. Eu comecei minha carreira no palco com três anos de idade, atuando em peças e perseguindo o teatro na universidade, onde eu recebi o bacharelado em Teatro/Performance. Há cerca de 10 anos eu comecei a cantar com bandas. Nos últimos anos eu comecei a ficar ocupada e ocupada até fazer, em 2018, 300 shows!

Você ainda tem tempo para trabalhar como atriz?

Whintey Shay – Eu não tenho mais a oportunidade de trabalhar como atriz tão frequentemente apenas porque eu permaneço muito ocupada com meus projetos musicais. Mas, sempre que é possível, eu trabalho em curtas-metragens, porque o tempo exigido é menor. Eu geralmente trabalho em projetos de meu grande amigo Fernando Jay Huerto, que é dono de uma companhia de filmes chamada Jabronie Pictures.

Entre o disco Soul Tonic (2012) e A woman rules the world (2018) há um intervalo de seis anos. Por quê?

Whitney Shay – Eu queria ter certeza de que eu realmente me conhecia como artista antes de fazer um novo álbum. Embora eu ame o trabalho que fiz em Soul Tonic, quando fiz o disco estava apenas começando, e não sabia realmente o tipo de música que tinha em foco. Soul Tonic era meu disco, mas era também um grande esforço de colaboração entre eu e o produtor Archie Thompson, com quem eu continuo gravando hoje. As músicas eram dele, exceto uma que nós escrevemos em parceria e os covers que escolhemos. Quando eu fiz A woman rules the world, eu realmente queria fazer o MEU disco. Eu queria escrever canções para ele, queria ter voz ativa na produção, e, mais do que isso, queria ter uma atenção forte na direção musical. Eu sinto que esperei um longo tempo, aprendi e cresci como artista durante todos esses anos para realmente me preparar para o sucesso com este novo disco, e eu estou incrivelmente orgulhosa do resultado final.

A woman rules the world parece ser um marco em sua carreira, o disco que realmente chama atenção para suas canções vibrantes, com referências a outras décadas, mas cheio de personalidade. Você é uma artista premiada. Chegou onde queria?

Whitney Shay – Sim, este álbum é um grande marco na minha carreira, e eu sinto que realmente representa quem eu sou como artista, e eu estou muito feliz que este disco tenha sido tão bem acolhido nos Estados Unidos e internacionalmente. O ano passado foi um turbilhão: brilhei em resenhas internacionais, venci como o San Diego Music Awards como Melhor Álbum de Blues e Artista do Ano; fui indicada para o Blues Music Award contra uma heroína minha, Candi Staton – eu gravei duas músicas dela em meus dois discos -; tive meu primeiro contrato de gravação com a Little Village Foundation; fiz minhas primeiras turnês pela Europa neste verão… Todos esses presentes incríveis que me foram dados às vezes parecem um sonho, e eu sou muito grata.

Diogo Morgado e Guilherme Paiva (foto de Rei Santos)

PARA ALÉM DO BLUES – COMO FOI O SHOW

As luzes se acenderam às 21hs em ponto e o Diogo Morgado Quartet subiu ao palco do Bar Valentino, ontem (27/4), pelo Festival Blues de Londrina.

Como os covers foram recriados em arranjos e melodias, ganhando perspectivas inesperadas, pode-se dizer que todo o repertório tinha o componente autoral.

O quarteto apresentou muito groove, riffs marcantes e um entrosamento típico dos bons instrumentistas, capazes de pensar mais no grupo do que no brilho individual. A formação conta com Diogo Morgado (guitarra), Fabrício Martins(teclados), Guilherme Paiva (baixo) e Elthon Dias (bateria), e soube valorizar cada minuto do show de abertura.

Em vez de solos intermináveis, uma atmosfera cheia de harmônicos, estendendo-se além das notas, prevaleceu. Com muito suingue, músicas próprias e versões surpreendentes, o Diogo Morgado Quartet fez um show impecável. É uma banda londrinense que merece ser ouvida.

Fabrício Martins, Diogo Morgado, Elthon Dias e Guilherme Paiva: Diogo Morgado Quartet (foto: Rei Santos)

Na sequência, a banda do guitarrista Igor Prado (São Paulo) também entrou forte, mas em outra direção. Abrindo o caminho para a cantora californiana Whitney Shay, o repertório dirigiu-se ao primordial, apoiando-se nas guitarras para visitar as origens do R&B, do soul, do blues e do rock.

Igor Prado conhece o riscado, é um dos maiores guitarristas brasileiros de blues. E seguiu o feeling de Whitney, enérgico e direto, aprofundando os solos para expor os sentimentos crus estimulados pelo repertório naturalmente retrô.

A banda contou ainda com o baixo consistente do londrinense Gabriel Zara, além da guitarra de Nicolas Simi e da bateria de Jaderson Cardoso.

Whitney Shay é uma hard working woman. Deu o sangue no palco e não ficou satisfeita enquanto não colocou o Valentino em pé para dançar, intercalando hits e canções próprias.

Músicas do premiado disco A woman rules the world (2018) foram as que mais impactaram, ao lado de clássicos como Respect (Otis Redding).

A influência benéfica de Etta James apareceu inclusive no ritmo frenético da apresentação, vigorosa a cada faixa, com raros momentos de relaxamento.
Whitney Shay esteve no Festival em 2016 e cresceu como artista. Está com uma presença de palco mais solta, parece incansável e é capaz de partir de um soul rascante para pousar em uma balada radiofônica. De repente, surge um rockabilly de Little Richard ou um blues clássico de Son House.

Tudo entrecortado pela diversão. Whitney Shay parece aproveitar cada segundo. No final, o público queria mais. Mas a cantora estava exausta. Ainda assim, posou para fotos e distribuiu simpatia.

Paixão e profissionalismo são seus segredos mais evidentes.

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