Arrigo Barnabé em detalhes

Arrigo Barnabé (foto de Rei Santos)

Confesso que tinha dúvidas sobre os rumos que um show em que Arrigo Barnabé interpreta Roberto e Erasmo Carlos – com duas de Caetano Veloso no meio – poderia tomar.

Pareciam universos distantes, mas as aparências podem ser enganadoras e escondem meandros diversos, plenos de significados.

O show de sexta-feira (dia 28), pelo #circulasons, em Londrina, foi ótimo por vários motivos: a ligação sentimental com a Jovem Guarda, a ligação sentimental com Londrina, a força de canções capazes de superar o tempo, a capacidade performática de Arrigo, os arranjos surpreendentes e a qualidade dos músicos. Não é pouco.

Graças à inclinação dramatúrgica, Arrigo utiliza a performance para sanar as lacunas de sua voz limitada. O ator ajudou o cantor, ressaltando frases que poderiam passar batidas, mas que ganharam força em tempos desesperançosos:

“Quero que vá tudo pro inferno!”
“Você tem que acreditar em mim!”
“Eu não posso mais ficar aqui a esperar que um dia você volte para mim.”
“Seu orgulho não vale nada!”
“Só ando sozinho e no meu caminho o tempo é cada vez menor.”

Há uma certa angústia típica dos anos 1970 embrenhada no romantismo das músicas, tão simples e marcantes. Mesmo a singela Gatinha Manhosa, que Arrigo dançava nas antigas “brincadeiras dançantes”, despertou sentimentos do início da adolescência, quando dançar de rosto colado com uma garota era uma aventura e tanto.

O próprio Arrigo ficou emocionado.

Com falas bem-humoradas, lembrou-se de quando assistiu a um filme pela primeira vez no Cine Ouro Verde, dando outro sentido ao palco onde se apresentava.

Foram muitas memórias e encontros.

Paulo Braga (piano) e Sergio Espíndola (violão) são dois músicos sensacionais, com um vasto repertório de soluções criativas. A voz de Sergio brilhou na bela Ideias Erradas, letra de Dolores Duran musicada posteriormente por Ribamar e gravada por Roberto – fã confesso da autora. Outro achado foi Cachaça Mecânica, samba de Erasmo Carlos capaz de dialogar com Construção (Chico Buarque).

Muitos arranjos trouxeram interferências estruturais. Quero que Vá Tudo pro Inferno, por exemplo, ganhou uma levada em 5/4, lembrando Take Five (Paul Desmond).

Mas surpresa mesmo foi quando o próprio Arrigo atendeu o público e cantou, sozinho ao piano, a valsa Londrina – feita para soprano, distante do registro do músico, que apenas cantarolou as passagens mais difíceis. O público compreendeu a raridade do presente.

Seja pelo show, seja pelo livro No Fim da Infância (lançado pelo Grafatório), seja pela aula generosa que deu no bate-papo do SESI, Arrigo correspondeu com simpatia à receptividade. Precisa, agora, voltar com mais frequência.

Arrigo Barnabé em Quero que Vá Tudo pro Inferno foi uma realização da TOCA: arte ação criação, produzida por Janete El Haouli para o projeto #circulasons, e patrocinada por Companhia Cacique de Café Solúvel, Cosan, Uniprime e Midiograf.

Paulo Braga (piano), Arrigo Barnabé (voz) e Sergio Espíndola (violão) (foto: Rei Santos)

Por telefone, Arrigo Barnabé conversou com Ranulfo Pedreiro, da Máquina do Som e Tp1 Conteúdo.

Como era a Londrina onde o jovem Arrigo Barnabé conheceu a Jovem Guarda?

ARRIGO BARNABÉ – Eu morava ali na R. Paranaguá quase esquina com a R. Sergipe. Era tudo casa, não tinha prédio. Era um lugar muito tranquilo. Eu tive uma infância privilegiada, brincava na rua. A gente ficava na rua até à noite. Não tinha televisão, a televisão chegou mais ou menos na época da Jovem Guarda, 1964, por aí. A gente escutava mais o rádio. E tinha os cinemas, o Ouro Verde, o Augustus, o Cine Joia, Cine Londrina e Cine Brasília. O Vila Rica ainda não existia. Eu estudava música no Conservatório do Colégio Filadélfia. Nesse período, tinha alguns amigos. O Valter Luís Guimarães fazia inglês comigo. Tinha o José Carlos Souza Neves, o Zé Bita, que depois virou travesti. Enfim, tinha uma turma de adolescentes, mas todo mundo low-profile, bem tranquilo, ia à missa aos domingos, essas coisas. Quando o Roberto Carlos apareceu, a gente ainda não prestava muito a atenção. Escutava as músicas na rádio e não prestava muito a atenção. Eu estudava piano, então tinha um pouco de noção. Eu lembro que umas primas minhas vieram passar as férias de julho em Londrina e Roberto Carlos vinha fazer o show no Colossinho. O Colossinho era um ginásio de esportes que tinha junto com o Colégio Filadélfia. A gente comprou os ingressos e foi para o Colossinho. E o Roberto não chegava… O avião atrasou, deu algum problema. Finalmente ele chegou, duas horas depois, sei lá. A gente não escutava direito, era até um pouco frustrante. No ano seguinte, quando saiu o LP Jovem Guarda, quando saiu Quero que tudo vá para o inferno, era uma coisa incrível. Meu pai tinha um cartório ali no Fórum, ele era escrivão da 2ª Vara Cível. Eu trabalhei para ele nas férias e, com o meu salário, dava para comprar um LP. Fui ali numa loja do Centro Comercial. E fiquei entre o Jovem Guarda e o Dois na Bossa nº1, com a Elis Regina e o Jair Rodrigues. Eu estava começando a perceber que existiam programas estéticos na música. A MPB de Elis e Jair era um programa estético. A Jovem Guarda era outro programa estético. Mas eu fiquei escutando os dois e não tinha jeito, comprei o Jovem Guarda, porque era irresistível. E eu escutei bastante. É engraçado, dentro deste LP eu percebi que existiam algumas coisas que saíam do programa estético da Jovem Guarda. Eu já percebia que Gosto do jeitinho dela, que é uma das faixas, era uma coisa diferente, era cantada baixinho. Eu percebia que, na Jovem Guarda, a pessoa não precisava cantar com tanta voz. Porque tinha a influência do João Gilberto, que era influenciador do Roberto Carlos. A gente dançava essas músicas. Eu lembro do dia em que o Erasmo Carlos lançou Gatinha Manhosa, eu escutei pela primeira vez no rádio, em casa, tinha um quartinho nos fundos onde a gente estudava. Eu lembro de escutar e depois dançar Gatinha Manhosa. Quando eu estreei o show aqui em São Paulo, há dois anos, foi difícil fazer, porque eu me emocionava.

Existiam algumas bandas de Jovem Guarda na cidade, você se lembra disso?

ARRIGO BARNABÉ – Tinha, a gente assistia um programa da Regina Delalibera que chamava Ala Jovem. Ela fazia uma espécie de Wanderléa. E eu lembro que tinha algumas bandas… Os Cinco Falcões, com duas meninas tocando. Depois teve o Oswaldo Diniz e a Maria Lúcia Diniz, que montaram alguns programas na televisão, também. Era uma coisa diferente, a Maria Lúcia dava aula de música. E tinha o irmão deles [Edson Diniz]. Eles eram em três. Uma família que agitava bastante aí. Foi um período curto, mas na minha lembrança é enorme. Foram três ou quatro anos no máximo.

(foto: Rei Santos)

Você falou da questão estética entre a Jovem Guarda e a MPB quando ficou entre os dois discos… Se você tivesse escolhido o disco da Elis e do Jair, você acha que teria outro tipo de influência?

ARRIGO BARNABÉ – Não, porque eu ouvia em outros lugares. Não era uma troca. Eu gostava dos dois. Eu adorava Elis cantando Arrastão. Isso deve ter sido em 1966, eu acho, quando teve o festival com Arrastão. Eu adorava aquilo. Gostava muito. Mas o Quero que vá tudo pro inferno era irresistível. Tinha coisas estranhas no disco, ele cantava um fado, Coimbra. Não tinha unidade. Tinha o Gosto do jeitinho dela, que é uma coisa da Bossa Nova. Havia coisas estranhas ali no meio.

São canções fortes, uma ligação direta com o sentimento… Você sente isso?

ARRIGO BARNABÉ – Olha, eles fazem uma coisa muito popular. Eu falo eles, porque é o Roberto e o Erasmo. Não tem uma preocupação que não seja afetiva. Comentam as relações afetivas tentando ser contemporâneos. Existia um comentário sobre relacionamento afetivo anterior, mas que já era de uma outra geração, de uma outra sociedade. A sociedade estava mudando, os costumes estavam mudando, e eles estavam percebendo isso. Estavam atentos à afetividade do momento, em como as pessoas estavam se relacionando. A preocupação sempre era o relacionamento amoroso, 95% das canções falam disso.

Teatro Ouro Verde, em Londrina, lotado para o show de Arrigo Barnabé (foto: Rei Santos)

Como foi colocar o Arrigo dentro dessas músicas que todo mundo conhece, todo mundo canta?

ARRIGO BARNABÉ – É difícil, porque todo mundo conhece bem. Em 1985, depois de ter feito Tubarões Voadores, eu tinha que fazer um segundo LP pela [gravadora] Ariola. E eu queria fazer um LP de intérprete, não iria compor. Iria gravar, entre outras coisas, Quero que vá tudo pro inferno. E o Itamar [Assumpção] fez um arranjo, um baixo para  Quero que vá tudo pro inferno e me mostrou. Eu iria gravar também Chove Chuva, do Jorge Ben, e Lábios que beijei, de J. Cascata e Leonel Azevedo… Mas eu comecei a filmar o Cidade Oculta, e o filme tinha um orçamento muito baixo, eu estava atuando como o protagonista do filme. E eu coloquei o meu segundo disco para a Ariola como sendo a trilha do filme. Não havia dinheiro, a produção era precária. Se você ver o filme, não acredita que foi feito com pouco gasto. Todo mundo entrou com uma parte do salário para dedução, e recebeu bem menos do que iria receber. Entrei fazendo a trilha do filme pela Ariola. E a Ariola pagou a parte musical. A coisa do Roberto Carlos ficou. Mas eu sempre pensei nisso, sempre achei muito interessante esse universo. No começo dos anos 2000, eu escutava e pensava: “Pô, mas isso é que é música popular”. Todo mundo entende, não tem código escondido, não tem nada. É um negócio claro. Eu sempre cantei essas coisas de brincadeira, em reunião com amigos, sempre fiz isso. Vi que as pessoas gostavam, achavam legal. Sempre toquei Vem quente que eu estou fervendo em casa, no piano, com minha característica mais marcante que é essa voz gritada.

E essa voz gritada veio junto com Clara Crocodilo?

ARRIGO BARNABÉ – É, isso tem a ver com locutores de rádio, com programas de crime. E você escutava o rock, Janis Joplin, Joe Cocker… Disfarça a minha desafinação.

Você acha que desafina?

ARRIGO BARNABÉ – Eu estou na média, mas no começo desafinava muito mais. 

Mas tem canções em que você canta mais contido, mais suave…

ARRIGO BARNABÉ – Sim. Eu também não canto muito afinado, agora tô cantando melhor. Desde que eu passei a fazer oficina, melhorei nisso, estou cantando melhor. 

Você já tentou fazer uma música que tentasse essa comunicação direta da Jovem Guarda?

ARRIGO BARNABÉ – Suspeito é uma música que tem a ver com o estilo do Roberto e do Erasmo, com certeza.

Sergio Espíndola (foto: Rei Santos)

O fato de essas canções serem muito populares gera algum tipo de preconceito?

ARRIGO BARNABÉ – Tem preconceito pra tudo, né? Na época, o pessoal de esquerda achava que o pessoal da Jovem Guarda era alienado, tinha uma coisa assim. Mas eu estou falando de um momento. Eu acompanho mais o Erasmo. As coisas que o Roberto Carlos tem feito, os últimos discos dele, eu não escuto. Estou falando de um período que vai até 1980.

Você vai lançar o livro No fim da infância no dia 27… É cheio de memórias, não é?

ARRIGO BARNABÉ – É um livro basicamente de memórias. Acho que tem duas crônicas que são ficção. São coisas que escrevi para a revista Piauí, esse material é todo publicado. São textos relacionados com a cidade [Londrina]. Eu falo sobre quando o Psicose, do Hitchcock, estreou em Londrina. Os pais foram assistir, e eu e meus primos ficamos na casa de uma tia. E eu lembro das impressões dos pais quando voltaram, comentando sobre o filme. É uma coisa ligada com a cidade. Tem uma outra crônica em que eu falo quando o meu primo começa a tocar acordeom, o Felipe, e a casa do meu avô ficava atrás da Catedral. Falo de lugares da cidade.

É uma memória bastante sentimental, não é? Como é voltar para Londrina e tocar aqui?

ARRIGO BARNABÉ – Faz muito tempo que eu não toco em Londrina. A última vez foi em 2010, no Valentino [Arrigo também esteve ministrando uma aula-show no Festival Literário de Londrina – Londrix – em 2012]. Depois disso não toquei mais, agora que me convidaram. O normal seria fazer um show aí a cada quatro anos. Eu estive em Londrina em janeiro ou fevereiro, passei uma semana filmando com o [cineasta] Rodrigo Grota. As memórias, quando elas batem com a realidade, com a transformação que a cidade sofreu, não resistem. É tudo completamente diferente. Tem, ainda, o Rodeio, aquele restaurante no centro… A Igreja da Imaculada Conceição… Até a própria Catedral mudou, era muito mais bonita.

Paulo Braga (foto: Rei Santos)

Você está compondo? Como estão seus projetos?

ARRIGO BARNABÉ – Eu estou escrevendo uma missa para o Coro da Osesp [Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo], vai estrear em novembro, tenho que entregar neste mês, estou na correria… Já escrevi o Gloria e o Kyrie, agora tenho que escrever o Credo, Sanctus e Agnus Dei. Estreia no dia 2 de novembro, na Sala São Paulo.

Você tem muita coisa para ser gravada?

ARRIGO BARNABÉ – Eu tenho. Tenho um programa que escrevi para um grupo de percussão português, da Cidade do Porto, que se chama Drumming. Eu escrevi 1 hora para eles de música. A primeira parte chama-se Caixa da Música, é uma suíte com cinco peças; e depois tem Out of Cage, também uma suíte com oito peças. Isso é inédito, não está gravado. Tem coisas para piano, algumas eu escrevi inclusive para o Rodrigo [Grota], para um filme dele, que não estão gravadas. Tenho coisa para piano e percussão, para orquestra, quarteto de cordas. Depois eu fiz também as óperas. E vai sair meu filme, que estreia no dia 16, aqui no Festival de São Paulo: Amigo Arrigo [de Alain Fresnot e Júnior Carone], é um longa-metragem sobre o meu trabalho.

O que está te surpreendendo hoje na música?

ARRIGO BARNABÉ – A gente tem um salto de qualidade de intérprete, tanto na área erudita quanto popular, com cantores muito bons. De 2000 para cá, foi uma coisa brutal, em termos de qualidade dos instrumentistas e dos cantores. Um negócio impressionante. Em Londrina tem vários grupos que eu escutei, é um pessoal muito bom. As pessoas têm mais acesso às escolas de música… Você tem a própria Sala São Paulo, a Osesp, enfim, várias iniciativas, como os pontos de cultura, ligadas a leis de incentivo… As coisas vão ficando acessíveis. As universidades começaram a ter cursos de música, não existia. Era um aqui e um em Salvador… E tem a internet. A gente não sente esse salto de qualidade na parte da composição. Os jovens compositores são bons, interessantes, competentes, nenhuma crítica à qualidade do que eles fazem, mas nessa área criativa o salto de qualidade não foi igual ao salto que ocorreu na área dos intérpretes.

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